Singrar o Guaíba, o Delta do Jacuí e a Lagoa dos Patos têm se tornado um refresco procurado por um número cada vez maior de gaúchos. Vencida a extenuante jornada de trabalho da semana, marinheiros de água doce se socorrem no lazer náutico para aliviar o estresse a bordo de lanchas e veleiros.
Com a correnteza favorável da economia nos últimos anos, ter um barco que custa algumas centenas de milhares de reais passou a ser uma aspiração acessível — inclusive com oferta de crédito bancário e até consórcios — também para pessoas que ingressaram nos extratos mais altos da classe média, como profissionais liberais e prósperos jovens empreendedores.
Dados da Marinha confirmam a tendência. No ano passado foram emitidas pela Delegacia da Capitania dos Portos em Porto Alegre 3.791 carteiras de arrais-amador, que habilita à condução de embarcações nos limites da navegação interior, como lagoas e rios.
É um volume 218% superior a 2007, quando o mercado brasileiro de náutica começou a deslanchar. O número de embarcações de esporte e passeio atesta o fenômeno. Em 2012, foram 1.110 registros, mais do que o dobro de seis anos atrás.
Em parceria com o cunhado, o empresário Álvaro Pereira Schuck, 39 anos, tem uma lancha de 30 pés (cada pé tem 0,3 metro) equipada com TV de LCD, DVD, fogão elétrico, geladeira, banho quente de chuveiro e ar-condicionado. São raros os sábados e os domingos em que dispensa o passeio e até os pernoites na embarcação em companhia da família e de colegas de navegação.
— É um dos poucos hobbies em que se pode levar toda a família. Já tive cavalo, moto e jipe. A lancha é o único que agrega todos. Há ainda a sensação de liberdade e o contato com a natureza — descreve Schuck, acrescentando que o vento no rosto e os banhos de rio até fortalecem o sistema imunológico dos lancheiros.
Setor movimentou US$ 800 milhões em 2012
Com a economia das nações desenvolvidas à deriva, o Brasil começou a ser visto como um porto seguro pelos estaleiros internacionais fabricantes de lanchas, que passaram a investir no país em fábricas próprias ou associações com empresas locais.
Apenas ano passado, o setor náutico movimentou cerca de US$ 800 milhões, avanço de 38% sobre 2007, de acordo com levantamento da Boat Show, feira realizada anualmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Uma recente pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e seus Implementos (Acobar) indica que o país, nos últimos anos, apresenta a maior taxa de crescimento do setor no mundo.
— Crescemos mais do que o dobro do PIB na média destes últimos anos. Havia um potencial reprimido e, quando a economia vai bem, a náutica também vai. É uma fórmula que se repete em muitos países. Novas pessoas estão adquirindo seus barcos no Brasil. É gente que já tem o segundo carro e casa na praia — exemplifica Marcio Dottori, diretor técnico da Boat Show.
Para Dottori, há espaço para o mercado náutico dobrar de tamanho até 2020. Além do vento favorável da economia, contribuem para a tendência a extensa costa de 7,3 mil quilômetros e o fato de o Brasil ter o terceiro maior espaço de águas interiores navegáveis do globo. Para ilustrar o potencial, Dottori lembra que a proporção nacional é de um barco para cada 227 habitantes — incluindo até botes infláveis — enquanto nos Estados Unidos chega a um para 23 pessoas.
Integrante de um confraria formada por cerca de 30 casais que costumam se reunir para passeios em turma nos fins de semana pelo Guaíba e Delta do Jacuí, o empresário Rogério Schröder, proprietário da loja Nautiway, na Capital, capitalizou a paixão em negócio. Conta que, no ano passado, as vendas de lanchas subiram 30% sobre 2011.
— Nos fins de semana, as ilhas do Jacuí ficam lotadas de barcos. O passeio no rio é muito prazeroso. E o mercado poderia ser muito maior. Com o projeto de revitalização da orla do Guaíba (que inclui uma marina), Porto Alegre vai se abrir mais para as águas — aposta Schröder.
A onda gaúcha e nacional respinga na indústria. A pesquisa do Sebrae aponta o Estado como o terceiro maior polo brasileiro de fabricação de equipamentos e acessórios náuticos — como ferragens, velas, cabos, mastros e peças de reposição —, com uma variedade que perde apenas para São Paulo e Rio. Em produção de embarcações de esporte e passeio, o Rio Grande do Sul fica em quarto.
Estaleiro Cimitarra produz 10 barcos por mês
Os negócios estão em velocidade de cruzeiro no estaleiro Cimitarra, maior fabricante de lanchas no Estado. As encomendas garantem quatro meses de produção na unidade em Vera Cruz, no Vale do Rio Pardo. Há cinco anos, conta o proprietário Tomás Ko Freitag, a empresa entregava uma média de oito lanchas por mês. Hoje, chega a 10 barcos mensais, e maiores. E, para dar conta da procura, teve de iniciar este mês mais um turno de trabalho na fábrica.
— Com as vendas aquecidas, hoje fabricamos com até 70 pés, custo em torno de R$ 3 milhões — diz Freitag.
Devido às peculiaridades do litoral gaúcho, com mar grosso e desprovido de baías e abrigos naturais, o mercado do Estado se desenvolveu mais nas águas interiores e com embarcações menores à média nacional. No entanto, agora, a tendência no Estado é por lanchas de 30 pés para cima.
Na onda da chegada de estaleiros estrangeiros, o Cimitarra assinou no ano passado sociedade com dois grupos italianos para produzir barcos de luxo. Com investimento de R$ 1,5 milhão, a empresa gaúcha passará a montar 12 embarcações por mês e contratar mais 40 funcionários, além dos 200 que dispõe.
Donos de barcos em busca de conforto
Em busca de maior conforto para navegar, o empresário George Taufer, 60 anos, trocou ano passado a lancha que tinha desde 2006 por uma maior, de 36 pés, equipada com todos os recursos que possam deixar ainda mais cômodas as incursões pelo Guaíba e ilhas do Jacuí.
Além da suíte de casal e espaço para mais quatro pessoas dormirem, é munida de churrasqueira, fogão, micro-ondas, dois refrigeradores, ar-condicionado, TV de 32 polegadas, banheiro e chuveiro com água quente. Poucos são os finais de semana que o barco fica atracado na marina. Um dos programas preferidos do grupo que integra é zarpar no final da tarde de sexta-feira em diversas lanchas e, após confraternizações embarcadas e paradas em praias de água doce, retornar apenas no domingo.
— Gosto de navegar com a família e amigos do rio, gente que tem lancha e compartilha do mesmo lazer — relata Taufer.
O também empresário Daniel Helfensteller, 33 anos, é outro que trocou ano passado a lancha que tinha por uma maior, de 28 pés. Nos dois últimos verões, levou a embarcação para o litoral catarinense. No ano passado, fez com a mulher toda a circunferência da Ilha de Santa Catarina. Agora, pretende partir das praias ao norte de Florianópolis até a região de Balneário Camboriú, Bombinhas e Governador Celso Ramos. A lancha se transformou em uma pousada flutuante e motorizada.
Do motor para a vela
Ex-proprietário de lancha e dono de dois jet skis, o professor universitário e bancário Jairo Pacheco Chagas, 55 anos, se rendeu a uma das mais antigas formas de navegação. Trocou a propulsão a motor pela sensação de paz ao contemplar em silêncio o pôr do sol no Guaíba, apenas com o som do vento inflando as velas.
Entusiasta do lazer náutico, Chagas começou a velejar há dois anos, quando o filho o convidou para participar de um curso no clube Veleiros do Sul, em Porto Alegre. A oportunidade de estreitar a relação pai e filho se transformou em uma paixão de ambos. João Pedro, 20 anos, já compete em regatas, e Chagas converteu o veleiro Dreamy, adquirido ano passado, na forma predileta de relaxar nos fins de tarde ou de semana.
— A vela tem o fascínio da relação direta com o ambiente. Você começa a perceber melhor a natureza porque a essência é a força do vento — conta.
Apesar do arrebatamento de Chagas, a vela perde espaço para as lanchas no Exterior e no Brasil. Rogério Weber, dono da Delta Yatchs, uma das maiores fabricantes de veleiros do país, estima que as vendas mundiais caem cerca de 5% ao ano.
— Um veleiro requer mais tempo de preparação e é preciso maior conhecimento técnico. Novas fortunas surgem e estas pessoas se interessam mais pelo motor — diz Weber, que consegue manter a Delta Yatchs saudável no mercado.













