A incerteza do retorno de Hugo Chávez ao poder traz dúvidas não apenas quanto ao futuro da Venezuela, mas também quanto à continuidade das alianças costuradas na América do Sul nos últimos tempos. De 10 anos para cá tem se desenhado dois blocos de afinidade político-econômica na região. De um lado, Chile, Colômbia e Peru, que adotam uma agenda de livre mercado mais agressiva e mantêm um controle mais rígido sobre os gastos públicos. De outro, Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador, que apostam em uma atuação mais forte do governo na economia e uma postura de proteção à indústria nacional.
Rica em recursos naturais, a região, como um todo, teve um bom desempenho econômico nos últimos anos, impulsionado principalmente pelo aumento do preço das matérias-primas no mercado internacional. Mas a desaceleração econômica mundial dos últimos três anos testa o estratagema adotado por cada um dos blocos. O desempenho da economia de cada país nos próximos anos é que vai mostrar quem escolheu a estratégia certa.
Peru e Colômbia seguiram a linha adotada pelo Chile e aproveitaram os tempos de recursos fartos para economizar e estimular a iniciativa privada. A estimativa é que a taxa de investimento no Chile e na Colômbia fique próxima de 23% do PIB em 2012 e no Peru, 26%. Enquanto isso, os governos dos países do outro bloco se preocuparam menos em poupar e aproveitaram a entrada de dinheiro para tentar estimular a economia. No Brasil, há cinco trimestres que caem os investimentos no país. Mesmo com as várias medidas para incentivar a presença da iniciativa privada, a estimativa gira em torno de 19% no país.
— Apesar de os países terem uma orientação econômica semelhante, existem grandes diferenças entre nações de um mesmo bloco. Eles não são homogêneos — ressalta a cientista política Maria Izabel Mallmann. — O Brasil tem um sistema político mais estável que a Argentina e a Venezuela, e as instituições públicas funcionam melhor aqui — completa.
O embaixador Rubens Antônio Barbosa, que atualmente é presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), concorda. Para Barbosa, a política econômica adotada pelo governo brasileiro coloca o país em um espaço de intersecção entre os dois blocos, pois, ao mesmo tempo em que o governo tem uma presença forte na economia, tenta atrair investimentos.
— A agenda adotada por Equador, Bolívia, Venezuela e Argentina é totalmente equivocada. A postura autoritária dos governos e a insegurança jurídica que isso causa afastam a iniciativa privada — afirma o embaixador.
Darc Costa, presidente da Federação de Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul rebate e afirma que uma política mais liberal não necessariamente traz mais benefícios.
— A Colômbia, por exemplo, tem tratado de livre comércio com os Estados Unidos, mas, até agora, o resultado foi pífio. Os produtos colombianos chegam aos EUA, mas precisam disputar espaço com artigos chineses, que enchem prateleiras americanas — afirma Costa.
Os números referentes ao Produto Interno Bruto (PIB) de cada país em 2012 ainda não foram divulgados, mas as estimativas apontam que, por enquanto, o mais prejudicado não foi quem adotou uma política mais ou menos liberal, mas justamente quem ficou no meio do caminho. Com exceção do Paraguai, todas as economias da América do Sul terão um desempenho melhor do que o Brasil em 2012.
A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê que o Peru cresça 5,9% e que Bolívia, Chile e Venezuela tenham uma alta no PIB de 5%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê crescimento de 5% para Colômbia, 2,6% para Argentina e de apenas 1,5% para o Brasil.
Mas não basta fazer o bolo crescer, é preciso que as fatias sejam divididas no mesmo tamanho para todos. Por isso, o controle da inflação é outro ponto que pode indicar o sucesso da estratégia adotada. Por enquanto, o bloco mais liberal está se saindo melhor nesse quesito.
O Brasil fechou 2012 com inflação de 5,8%, bem mais alta que a registrada no Chile (2,4%), na Colômbia (2,4) e no Peru (2,6%), países da região que também adotam o regime de metas inflacionárias. No outro bloco, o aumento dos preços foi mais expressivo. No Equador, avançou 5,4%, na Venezuela, ficou em 20,1% e na Argentina, o índice oficial foi de 10,8%, mas estimativas de consultorias privadas apontam que tenha chegado a 25%.
Presença chinesa acirra a competitividade
Se por um lado, a voracidade chinesa elevou o preço das matérias-primas no mercado mundial, por outro, a produção industrial em grande escala do país derrubou o custo dos produtos manufaturados. Isso causa uma situação inusitada para o Brasil, pois, ao mesmo tempo em que lucra vendendo commodities em grande escala para a gigante asiática, precisa disputar espaço no mercado da região, já que também exporta produtos industrializados para os vizinhos.
Essa presença chinesa deixa a relação econômica entre os países da América do Sul ainda mais complicada. Em novembro passado, diante de empresários argentinos e brasileiros presentes na 18ª Conferência Industrial Argentina, a presidente Dilma Rousseff alertou para os riscos do desvio do comércio argentino para a China em detrimento do Brasil. A presidente disse que diminuir a integração bilateral entre os países latino-americanos "seria um erro imperdoável".
Além disso, a indústria brasileira sofre com a concorrência chinesa no mercado interno. O país, que já era o principal destino das exportações brasileiras, tornou-se em 2012, pela primeira vez na história, a principal fornecedora para o Brasil, desbancando os Estados Unidos.
Como é a relação comercial do Brasil com as maiores economias da América do Sul
Argentina
Mesmo sendo a maior parceira comercial do Brasil na América do Sul, a relação econômica entre os dois países não é fácil. Depois de registrar recorde em 2011, com US$ 39,6 bilhões em transações, a corrente de comércio entre os dois países voltou a patinar em 2012. Além da diminuição da atividade produtiva e de consumo no mundo em geral, a causa para essa queda são as restrições argentinas aos produtos brasileiros. Nem mesmo a aparente sintonia entre Dilma Rousseff e Cristina Kirchner parece ajudar a situação. Na tentativa de dar fôlego à cambaleante indústria argentina, o governo colocou, no ano passado, diversas barreiras. Para Alberto Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Argentino Brasileira de São Paulo essa afinidade fica apenas no discurso.
— A geografia nos condena a ficar juntos, mas precisamos estreitar as relações em vez de competir — afirma Alzueta.
Venezuela
Depois que Chávez assumiu o poder, Brasil e Venezuela estreitaram as relações comerciais. O valor das transações saltou de US$ 536 milhões, em 1999, para US$ 5 bilhões em 2012. A troca, no entanto, não corre na mesma intensidade de lá para cá: o Brasil importa apenas 20% do que exporta para o país vizinho, na sua maioria, produtos básicos, como petróleo e derivados, minerais em bruto ou semimanufaturados. Enquanto isso, a lista de produtos de exportação do Brasil à Venezuela traz bovinos vivos, para corte ou reprodução e carne de frango. Açúcar, bebidas e outros alimentos também estão entre os primeiros itens. A proximidade se percebe também nos investimentos. Construtoras brasileiras, com ajuda do BNDES, alcançaram portfólio de obras estimado em US$ 20 bilhões.
Colômbia
A Colômbia é o país onde a influência norte-americana é mais forte no continente, motivo que causa vários atritos com seus vizinhos de esquerda, a Venezuela e o Equador. Com recursos naturais abundantes, a economia colombiana é o terceiro maior exportador de petróleo para os EUA entre os países da América Latina. Além disso, tem as maiores reservas de carvão da região. Desde 2008, Brasil e Colômbia tentam estreitar os laços comerciais, mas há entraves devido ao fato de serem economias mais concorrentes do que complementares, pela semelhança da produção de calçados, confecções e café.
Chile
Grande exportador de minérios, o país manteve, durante a década de 1990, crescimento de 7% ao ano e, de 2000 a 2007, avanço anual de 5%, tornando-se uma das nações mais sólidas da região. Com economia voltada para a exportação, o país aposta em política de redução de tarifas e eliminação de barreiras comerciais para crescer. As relações comerciais com o Brasil são antigas e sólidas — entre 1990 e 2010, o país fez um investimento direto de US$ 11,4 bilhões no país. Atualmente, é o segundo maior parceiro comercial do Brasil na América do Sul, ficando apenas atrás da Argentina.








