Na ânsia de atenuar a imagem negativa de uma crise econômica e a impopularidade que dela decorre, a presidente argentina, Cristina Kirchner, tratou, na quarta-feira, de transformar um episódio vexatório em motivo de júbilo.
Às voltas com índices pífios na economia e com a popularidade que caiu de 65% a 30% em um ano, Cristina preparou uma festa "épica" para o retorno da fragata Libertad, que ficou 78 dias retida em Gana, na África, por conta da dívida do país sul-americano com credores especulativos — os chamados "abutres".
No discurso da governante, a síntese talvez esteja no seguinte trecho: quando disse estar fazendo "a defesa incondicional dos direitos da Argentina e do respeito a sua soberania. "Para dar tom patriótico a sua fala, em rede nacional de TV, Cristina citou o libertador San Martín e encerrou frases com o bordão "viva a pátria". Os aplausos vinham em profusão.
A fragata se exibiu nas águas de Mar del Plata, em plena ebulição do veraneio para os portenhos que abandonam Buenos Aires e seguem 400 quilômetros ao sul — a população marplatense, de 700 mil habitantes, dobra no verão, e a capital se vê esvaziada pelo calor e pelas férias, tal como ocorre no movimento dos gaúchos rumo ao Litoral Norte. Militantes governistas, funcionários, governadores e prefeitos serviram de claque, no palco mais apropriado para a ocasião.
Por trás do evento, a organização era do La Cámpora, o grupo que desbancou os sindicatos como esteio popular para o governo kirchnerista (o principal líder do La Cámpora é Máximo Kirchner, filho de Cristina e de Néstor Kirchner, seu marido e antecessor, morto em 2010). "Néstor vive" e "Cristina coragem" eram algumas das palavras de ordem, em cartazes e faixas empunhados por militantes governistas que foram levados a Mar del Plata em 500 micro-ônibus.
A fragata chegou no início da noite de quarta-feira, escoltada por 200 embarcações e conduzindo 143 marinheiros — sendo que 98 deles já haviam deixado a embarcação antes de ela ser liberada pela Justiça ganesa, mas retornaram para o evento. Todos eles vestiam o uniforme de gala da corporação, como quem participa de uma solenidade oficial.
Em 2 de outubro último, a embarcação, um navio-escola da marinha argentina, foi retido no porto de Tema, em Gana. Tratou-se de uma decisão judicial ganesa atendendo a pedido do fundo de investimentos NML, dos Estados Unidos, que cobrava da Argentina uma dívida de US$ 370 milhões. Em 19 de dezembro, houve a libertação e o começo do retorno.
A explicação para tanto furor patriótico pode ser traduzida pela seguinte explicação do chanceler Hector Timerman:
— Entre 2005 e 2010, negociou-se 93% da dívida com os credores, ficando uns 5% nas mãos de fundos abutres, que se dedicam a extorquir países comprando sua dívida por centavos e, com métodos usureiros, exigindo pagamentos fora de lógica. Néstor Kirchner se negou a negociar com eles, e se iniciou uma longa série de castigos contra a Argentina. Até o embargo da fragata Libertad, os fundos abutres conseguiram embargar 28 bens da nação. Em todos os casos, o Estado argentino recuperou o bem embargado sem jamais negociar com os abutres.
Depois da mais grave crise econômica já vivida pela Argentina, em 2001, o governo fez operações de reestruturação com credores. Cerca de 93% aceitaram receber menos para resgatar seus títulos. Os que se recusaram a assinar o acordo, exigem o pagamento de 100% do valor. No caso da fragata Libertad, a Argentina recorreu ao Tribunal Internacional sobre Direito do Mar, das Nações Unidas, que, em 15 de dezembro, determinou sua libertação do porto ganês. E motivou a festa.
Como anda a economia argentina
Inflação: pelos dados oficiais, ronda os 9%. Consultorias particulares a definem em mais de 25%
Desemprego: 7,6% no terceiro trimestre de 2012, segundo dados oficiais — no trimestre anterior, havia sido de 7,2%
Evasão fiscal em 2011: US$ 21,5 bilhões, 90% mais alta do que em 2010
PIB: subiu 0,7% no terceiro trimestre de 2012, em relação ao de 2011 e 0,6% em relação ao trimestre anterior
Percepção: segundo a Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Católica Argentina (UCA), sete em cada 10 argentinos têm a sensação de que a carestia foi muito alta em 2012









