Preços em alta de bens e serviços no país são inimigos na trincheira dos aplicadores interessados em ganho real no curto prazo, como aposentados e pensionistas, que pretendem desfrutar dos recursos na atualidade em vez de mantê-los por mais tempo na esperança de crescimento do retorno financeiro.
Devido à lentidão da bolsa e à redução do juro básico (taxa Selic), mantido em 7,25%, poucos devem colher renda acima da inflação em 2012, quando o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), base para a meta de inflação do governo, já alcança 5,01%, ainda sem o resultado dezembro, que sairá no dia 10. E o cenário deste ano segue com pressão inflacionária.
— Houve corte drástico dos juros no país, mas inflação de primeiro mundo ainda vai demorar — avalia Paulo Bittencourt, diretor-técnico da Apogeo Investimentos.
Acostumados com a época da inflação galopante, quando as aplicações também apresentavam ganhos exorbitantes, ainda que ilusórios, lembra Bittencourt, os investidores precisam enfrentar desafios para obter ganho robusto no curto e no médio prazo. Aposentados ou trabalhadores que estão perto da aposentadoria, que buscam resultados imediatos por conveniência, pois já deram duro economizando muitos anos, terão de se adaptar à nova realidade, aprimorando conhecimentos e acompanhando regularmente o vaivém do mercado.
— Quem quiser ganhar da inflação no curto prazo precisa assumir mais riscos, além de buscar orientação de profissionais de confiança — reforça Zulmir Tres, diretor da Sparta Assessoria de Investimentos.
Diversificar os recursos em várias alternativas, segundo os especialistas, é a melhor estratégia em qualquer circunstância, especialmente por meio de escalonamento do dinheiro conforme previsão de uso. É preciso ter noção de que em ativos de renda fixa, quanto maior o período da aplicação, maior tende a ser a rentabilidade. No mercado acionário, que teve lucro médio de 7,4% em 2012, existem oportunidades, mas jamais deve-se comprar ações ou cotas de fundos com data para resgate, pois o tempo do mercado nem sempre segue o calendário do investidor.
Orientação é fundamental
Aposentado há cinco anos, o economista Lúcio Flávio Sesti Paz (foto), 62 anos, segue fazendo o que mais conhece na vida, mas agora atua no mercado por interesse próprio. Ex-funcionário do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e de corretoras no Estado, o investidor afirma que o valor da aposentadoria cobre apenas gastos da manutenção da residência — condomínio, telefone, luz e água — e, por isso, o retorno das aplicações adquire relevância no orçamento doméstico.
— Como a maior parte dos poupadores, comecei na adolescência com uma conta de caderneta, depois fui para fundos até formar uma carteira de ações — explica.
Com dois filhos já formados na faculdade, um dentista e uma administradora de empresas, Sesti Paz enfatiza a necessidade da cultura da poupança, especialmente na contratação, ainda na juventude, de planos de previdência e de saúde, como estratégia de complementação financeira para a maturidade, quando o benefício recebido da Previdência Social nunca será compatível com a contribuição paga ao longo do tempo.
— Não se deve concentrar os recursos numa só alternativa do mercado e nem aplicar em ações dinheiro com previsão de uso imediato — reitera.
Mesmo aposentados que dispõem de quantias menores, salienta Sesti Paz, precisam evitar se aventurar por conta própria, pois juros em baixa e inflação em alta tornam o cenário traiçoeiro. Orientação de profissionais de bancos ou corretoras é essencial na obtenção de um resultado satisfatório no mercado.
Onde apostar
Alguns produtos com chances de renda acima da inflação no curto e médio prazo:
— Fundos atrelados à inflação — Fundos compostos por papéis atrelados à inflação. Ou seja, têm remuneração pós-fixada com base na inflação, além de percentual fixo adicional, entre 1% e 2% ao ano. Há risco de a inflação cair de repente, reduzindo o ganho nominal. Quer dizer, pode ficar abaixo do nível da taxa básica e até mesmo do rendimento da caderneta.
— Títulos públicos — Papéis do governo com renda conforme a inflação do período, como as Notas do Tesouro Nacional (NTN-B). O risco é de queda drástica da inflação, o que comprometeria o resultado final. Existe opção de compra pelo Tesouro Direto, mas é preciso tempo e conhecimento. O risco é de o ganho efetivo ficar abaixo do que o esperado.
— Debêntures — São títulos lançados por companhias privadas com perspectiva de ganho acima da Selic, mas é preciso avaliar com precisão os fundamentos da empresa, como dívida e receita. É importante ter noção de que esses papéis não têm garantia do governo em caso de falência da empresa emissora.
— Fundos imobiliários — Com isenção do IR, que consome de 15% a 22,5% do ganho nas demais aplicações, os fundos imobiliários têm possibilidade de ganho acima da taxa básica e da inflação, especialmente os formados por créditos de empresas sólidas. Por tratar-se de grupos fechados, porém, pode haver dificuldade em caso de necessidade de saída, pois o resgate requer a venda da cota a outro interessado.
— Outros produtos — Os CDBs podem superar a inflação caso o cliente obtenha taxas próximas do nível da Selic, pois o IR consome de 15% a 22,5% do ganho nominal. Nos fundos de investimentos, taxas de administração acima de 1% podem comprometer sua remuneração. A caderneta de poupança deve, na melhor das hipóteses, empatar com a inflação. Em 12 meses, a poupança projeta ganho de 5,08%.
— Mercado acionário — Ações de empresas que pagam dividendos garantem ganho anual independentemente de seu desempenho no mercado. Dependendo da empresa, o retorno pode superar a taxa básica. Menos companhias, porém, vêm oferecendo dividendos em relação aos anos anteriores. Houve redução especialmente de empresas de energia elétrica, um dos setores que mais pagava dividendos.
Fontes: Zulmir Tres, da Sparta Assessoria de Investimentos, e Paulo Bittencourt, da Apogeo Investimentos
Preste atenção:
— Investidor é quem gasta menos do que ganha, aplicando a diferença no mercado financeiro. Ou seja, é preciso estar com as contas em dia, abrir uma conta em banco ou corretora, e elevar os valores com novas quantias depositadas e rendimentos obtidos ao longo do tempo.
— O crédito consignado é um potencial causador de problemas financeiros ou endividamento de aposentados e pensionistas. Ao comprometer o máximo da renda mensal (30%) e de prestações permitidas (60), um aposentado com R$ 1 mil de benefício, por exemplo, terá de sobreviver com R$ 700 mensais durante cinco anos, período em que pode ter aumento de gastos com doenças ou contas inesperadas.













