Depois de uma semana de problemas no abastecimento de gasolina no Estado, nove navios estavam ancorados na sexta-feira próximo à monoboia em Tramandaí, no Litoral Norte. Com o descarregamento de petróleo e retomada da normalidade na Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, a situação deve se normalizar nos próximos dias, segundo a Petrobras.
Entre as embarcações que trouxeram matéria-prima para o Estado, haveria algumas carregadas de gasolina – informação não confirmada pela estatal. O envio do produto processado seria uma forma de apressar o abastecimento, já que o derivado chegaria à Refap pronto para ser encaminhado às distribuidoras.
O atraso nas entregas de combustível nos últimos sete dias, aliado à falta de informações por parte da Refap, levou a Procuradoria da República no Rio Grande do Sul e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) a apurar os motivos que provocaram a situação.
– Vamos cobrar da Refap um plano B para que o Estado não fique refém das condições climáticas adversas – disse o coordenador do escritório da Região Sul da ANP, Edson Silva.
A Petrobras terá de dar explicações também à Procuradoria da República no Estado, que instaurou procedimento administrativo para verificar as causas do desabastecimento. São cinco dias úteis – até a próxima quinta-feira – para a estatal se manifestar.
– Os interesses dos consumidores foram lesados, pelo aumento de preço em alguns casos e falta de informações por parte da companhia – disse Nilo Marcelo de Almeida Camargo, procurador da República no Estado.
A falta de esclarecimentos da Petrobras, que durante a semana se manifestou apenas por duas notas curtas e genéricas, gerou também especulações de que por trás da escassez de gasolina estaria o interesse da Petrobras em aumentar os combustíveis.
– É estranho acreditar que a regulação de estoques tivesse esse desequilíbrio por conta de uma semana de tempo ruim – aponta Roberto Salazar, diretor do curso de Administração da ESPM-Sul, acrescentando que uma "crise proposital" poderia justificar um eventual aumento ou alteração logística mais para frente.
Consultor de comunicação, João José Forni explica que o gerenciamento de crises, especialmente no setor público, exige esclarecimento imediato.
– Em se tratando de abastecimento de gasolina, que diz respeito a toda a população, o cuidado deveria ser ainda maior. A estatal deveria informar a situação todos os dias – aponta Forni.
Quando o assunto é tratado somente internamente, avalia o especialista, abre espaço para que outras fontes deem suas versões sobre o fato, aumentando a quantidade de boatos.
Consultada sobre as especulações de que problemas no abastecimento estariam relacionadas com as demandas da Petrobras por reajuste nos combustíveis, a assessoria da estatal informou apenas que "a situação vai se normalizar no fim de semana".
Confira como é feito o abastecimento a partir do Litoral até os postos
ANP apura se houve alta na bomba
A ANP irá investigar se houve aumento generalizado no preço de gasolina nos postos do Rio Grande do Sul. A pesquisa semanal de preços foi divulgada sexta-feira à noite, pela sede do órgão no Rio de Janeiro, no site da reguladora. Com os dados, o escritório regional vai analisar onde houve reajustes e em qual intensidade.
– Se verificarmos prática abusiva durante o período de desabastecimento, cobraremos explicações das distribuidoras e dos postos de combustível – explica Silva.
Caso se descubra que houve aumento descabido de preços, a agência poderá encaminhar representação ao Ministério Público pedindo investigação. De acordo com Silva, não existem razões para uma elevação do valor do litro nas bombas, mesmo diante da falta de gasolina em muitos postos gaúchos. Segundo o coordenador, a Refap teria obrigação contratual de ressarcir as distribuidoras pelo transporte de gasolina de outros Estados. O entendimento do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustível (Sindicom) é diferente. Alísio Vaz, presidente da entidade, explica que os contratos são flexíveis e podem isentar as refinarias da Petrobras de ressarcirem as distribuidoras.
– Portanto, o custo adicional para trazer combustível da refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária, no Paraná, pode ser repassado aos postos e ao consumidor – sustenta Vaz.
De acordo com gestores de postos de combustível do Estado, a gasolina está chegando mais cara ao varejo.
– As distribuidoras têm cobrado até R$ 0,20 a mais pelo combustível, devido ao frete mais alto – afirma Gilberto de Oliveira, diretor da Associação Gaúcha de Postos de Combustíveis Independentes (Redeox).
Oliveira confirma que parte dos postos bandeira branca elevaram os preços em até 5% nos últimos dias. Esses independentes, que compram de qualquer distribuidora, argumentam que têm mais pressão de reajuste, pois as distribuidoras costumam atender primeiro às unidades de sua própria bandeira e dificilmente têm excedente. O Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes no Estado (Sulpetro) admite que os postos têm comprado mais caro, mas afirma desconhecer casos de repasse ao consumidor.
Em algumas cidades do Interior, como Alegrete, consumidores reclamam que o preço do combustível aumentou cerca de R$ 0,20 nos últimos dias. Cristiano Aquino, diretor do Procon-RS, afirma que a entidade irá avaliar se os preços voltarão aos patamares anteriores quando a situação se normalizar. Caso contrário, chamará representantes dos postos e das distribuidoras para darem explicações.








