Entrevista20/10/2012 | 18h01

Especialistas abordam a colaboração e o uso das redes sociais como ferramentas para a inovação

O autor de do livro "De onde vem as boas ideias" e o fundador do Green Futurist, Steven Johnson e Gerd Leonhard, participam do 5º Congresso Internacional de Inovação da Fiergs

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Especialistas abordam a colaboração e o uso das redes sociais como ferramentas para a inovação fiergs/divulgação
Gerd Leonhard diz que a internet tem contribuido com o fim dos monopólios, o que diminui os preços por unidade de custo, mas traz grandes oportunidades Foto: fiergs / divulgação

Em uma sociedade cada vez mais conectada pela internet, ganham força a colaboração e a troca de ideias como motores da inovação. Soluções adotadas até recentemente já não se aplicam mais. Quem alerta para essa mudança são dois estudiosos das transformações que a tecnologia vem impondo: o norte-americano Steven Johnson, professor da Universidade de Nova York e autor do best seller De onde vêm as boas ideias — a história natural da inovação, e o alemão Gerd Leonhard, fundador do instituto Green Futurist, também autor de obras como The Future Of Content, entre outras.

A dupla de pensadores do futuro estará participando do 5º Congresso Internacional de Inovação, promovido pela Fiergs, nos próximos dias 30 e 31, em Porto Alegre (informações e inscrições no site www.fiergs.org.br/inovacao2012 ). Johnson e Leonhard anteciparam algumas das ideias que discutirão no evento em entrevistas concedidas por e-mail a Zero Hora. Confira os principais trechos.

 Steven Johnson — Professor da Universidade de Nova York


Steven Johnson é professor da Universidade de Nova York e autor do best seller "De onde vem as boas ideias — a história natural da inovação"

Zero Hora – Como as empresas podem criar um ambiente favorável à inovação? Pressão para obter resultados rápidos e cortar custos são bons incentivos?

Steven Johnson – Muita ênfase em resultados rápidos é ruim para a inovação. Uma grande quantidade de ideias desestabilizadoras surge a partir daquilo que chamo de “lenta intuição”: começa de forma vaga e permanece nesse estado por meses ou anos antes de se transformar em algo revolucionário. A world wide web (www), começou desta forma, por exemplo. Se as empresas não derem a seus empregados a liberdade para explorar suas “lentas intuições”, eles se tornarão menos inovadores a longo prazo.

ZH – Se o dinheiro não é necessariamente boa inspiração para gerar inovação, qual a motivação mais importante então?

Johnson – O dinheiro pode ser incentivo para inovar, mas não o único. E se perseguir recompensa financeira significa que você vai trancar suas ideias para que ninguém possa roubá-las, então, a inovação vai ser inevitavelmente podada. Isso porque muitas das nossas melhores novas ideias surgem da colaboração e do trabalho em grupo, processo no qual as pessoas podem construir algo a partir da troca de experiências e percepções. O espírito de colaboração aberta – que sempre foi importante para o setor de tecnologia – estimula novas ideias tanto quanto a busca por vastas fortunas.

ZH – Como países em desenvolvimento, como o Brasil, podem estimular a inovação?

Johnson – Uma grande vantagem do Brasil está em suas cidades. Áreas urbanas são grandes indutoras de inovação por conta da enorme diversidade que abrigam e por estimularem trocas de experiências, além de formas de colaboração improváveis – uma combinação com que seguidamente leva a ideias inovadoras. Outra vantagem do Brasil está na intensidade que a população abraçou as redes socais. Há real compreensão do poder que essas novas plataformas terão no futuro.

ZH – O senhor acredita que as redes sociais, especialmente sites como Facebook e Twitter, chegaram para ficar ou serão apenas moda? Poucos anos atrás, o Second Life, por exemplo, era grande sensação. Agora, quase ninguém fala dele...

Johnson – As redes sociais vieram para ficar. Se esse setor ainda será dominado pelo Facebook daqui a 10 anos? Não sei. Até há pouco, eu acreditava que alguma outra rede social viria para substitui-lo, mas agora parece que o Facebook alcançou uma massa de usuários tão grande (mais de 1 bilhão de cadastrados) que será muito difícil superá-lo. Lembre-se: o Second Life foi uma grande sensação para um público mais ligado em tecnologia, mas nunca se tornou algo massivo.

ZH – Os videogames, por sua vez, já são parte da cultura de massa. Na sua opinião, como os jogos eletrônicos estão afetando a maneira como as pessoas pensam e agem?

Johnson – A cultura de games estabeleceu o consenso para essa nova geração de usuários de que as telas estão aí para serem manipuladas. É uma mídia que não se limita ao consumo passivo. Os jovens querem controlar a narrativa e construir mundos por eles mesmos. Não é coincidência que a geração que cresceu em torno dessas telas digitais é a mais empreendedora que já se viu. Eles querem ter o controle criativo de suas vidas.

Gerd Leonhard — Fundador do instituto Green Futurist

ZH – Como o uso cada vez maior das redes sociais está mudando a forma como as pessoas interagem entre si e se relacionam com as empresas, enquanto consumidores?

Gerd Leonhard – Estamos nos tornando uma sociedade conectada. Em alguns casos, tanto “compartilhamento” e transparência poderá acabar com nossa privacidade, mas, de uma maneira geral, esta nova era traz mais benefícios. Consequências claras disso são um aumento radical do poder dos consumidores, maior transparência política e declínio da corrupção, marketing mais honesto e publicidade mais útil. Deveríamos, aliás, descartar o termo mídias sociais porque não se trata apenas de mídia, mas de algo que chamo de Social OS (sistema operacional social). Cada empresa ou governo deverá se tornar conectado, aberto, transparente e engajado. Caso contrário, iremos ignorá-los.

ZH – Alguns críticos dizem que a internet tornou disponível um grande volume de informação, mas o uso que se faz desse conhecimento é superficial. O senhor concorda?

Leonhard – Em 1971, Marshall McLuhan disse que a aldeia global não é “quieta e harmoniosa”, mas tem dose considerável de barulho e caos. Não é questão de overdose de informação, mas de filtro. É aí que os jornalistas entram: não basta só conteúdo, é preciso contexto. Não se trata só de volume, mas de dar relevância aos fatos.

ZH – A internet já transformou a indústria musical e agora está mudando o cinema, a TV e o mercado literário. As corporações ligadas a esses ramos, porém, parecem não estar faturando como antes. As empresas terão de se habituar a ganhar menos nesta nova realidade?

Leonhard – Na era dos monopólios, as empresas estavam habituadas a margens de lucro fantásticas porque os consumidores não tinham escolha. De agora em diante, os preços por unidade de conteúdo estão caindo, em alguns casos, até 90% – veja o Netflix (serviço de vídeos online) x DVDs. As boas notícias são que mais pessoas podem ser alcançadas por meios digitais, os custos de distribuição são menores e a publicidade está se tornando digital rapidamente – nos próximos três a cinco anos, veremos 50% dos orçamentos publicitários – globalmente, uns US$ 600 bilhões – migrarem para meios digitais, móveis e sociais. Há grandes oportunidades, mas nada será como era 10 anos atrás.

ZH – Atualmente, a Apple é considerada a mais criativa e valiosa empresa do mundo. Essa posição conseguirá ser mantida?

Leonhard – Sou fã da Apple, mas essa visão de mundo extremamente centrada e controlada que a empresa tem não se sustentará. Eles terão mais uns bons cinco anos – a genialidade de Steve Jobs continuará a impulsioná-los nesse período. Startups surgem em toda parte, e a próxima Apple deverá começar a aparecer já em 2013.

ZH – Há quem aposte que o próximo grande embate no setor de tecnologia será entre Google e Facebook. Quem vencerá essa briga?

Leonhard – Há espaço suficiente para cinco ou seis Googles e Facebooks, assim, como hoje existe espaço para DHL, Fedex e outras empresas de correspondência. À medida em que o mundo está se tornando hiperconectado, será mais importante quais problemas as grandes companhias poderão resolver do que quanto elas irão faturar no próximo trimestre.


 

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