Caminhoneiros em greve, que paralisam desde domingo a Rodovia Presidente Dutra — uma das mais movimentadas do país, que liga Rio a São Paulo — e nesta segunda-feira fizeram ao menos 15 protestos em estradas gaúchas, têm simpatia de representantes de empresas de transporte de cargas. A aparente contradição revela interesses em jogo na mobilização deflagrada na semana passada. Nesta terça-feira à tarde, os líderes se reúnem com o ministro dos Transportes, Paulo Passos. A agenda coincide com o crescimento do movimento no país e a radicalização de ações no Estado, como apedrejamento de caminhões, queima de pneus e agressões a motoristas. O alvo é a regulamentação da atividade dos caminhoneiros autônomos, em curso no país desde 2007.
O Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), liderado por Nélio Botelho, questiona mudanças que estariam prejudicando a categoria. Uma delas é a instituição do cartão-frete como forma de pagamento de empresas para caminhoneiros autônomos. A carga horária também gera discórdia. Com alteração na legislação, a jornada pode chegar a no máximo 13 horas diárias, com descanso de 30 minutos a cada quatro horas ao volante. A lei estabelece ainda que o intervalo entre uma jornada e outra não pode ser inferior a 11 horas. O MUBC pede que a fiscalização seja adiada em um ano e que sejam feitas melhorias.
— Se houver bom senso por parte do Ministério dos Transportes, poderemos encerrar a greve ainda amanhã (nesta terça-feira) — disse Botelho, que participará da audiência com representantes de outros 10 Estados, incluindo o Rio Grande do Sul.
Sindicalista com pouca expressão fora do Rio, Botelho foi o líder de uma das maiores greves das últimas décadas. Sob seu comando, caminhoneiros cruzaram os braços por quatro dias, em 1999, prejudicando o abastecimento nas capitais e obrigando a suspender a produção na indústria por falta de insumos.
Desta vez, os interesses de Botelho coincidem com os do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs), entidade que representa 8,5 mil empresas.
— É um movimento justo, legítimo, que tem reivindicações oportunas — salientou o presidente do Setcergs, José Carlos Silvano.
Embora supermercados não acusem desabastecimento, Silvano sustenta que "cerca de 40% das cargas não chegaram ao seu destino" desde a última quarta-feira.
A greve idealizada pelo MUBC e aplaudida por algumas transportadoras é torpedeada por cinco federações e quatro dezenas de sindicatos de caminhoneiros. Ontem, em nota à imprensa, as entidades definiram as ações como "greve patronal". Conforme a nota, empresários, contrários à regulamentação do setor, estariam insuflando protestos.
Além de receber Botelho, o ministro Paulo Passos terá audiência separada, terça-feira à tarde, com entidades que se opõem à greve.
O QUE CAUSA DIVERGÊNCIAS
Cartão-frete: instituído pela resolução 3.658 da ANTT, o cartão-frete é questionado pelo Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC). O cartão permite saques pelos caminhoneiros e pode ser usado como forma de pagamento em postos de combustíveis, bares, lanchonetes e restaurantes, mas não estaria sendo bem aceito nos estabelecimentos.
Valor do frete: o MUBC reclama que foram incluídos mais de 600 mil veículos no mercado de carga pela mudança na Lei 11.442, aumentando a concorrência e reduzindo o valor do frete. A resolução 3.056 ampliou de quatro para 18 o número de categorias que podem operar transporte de carga no país. Antes, o serviço era explorado apenas por transportador autônomo que tivesse transporte de carga como atividade principal.
Carga horária: a nova lei estipula jornada de trabalho de no máximo 13 horas diárias, com descanso de 30 minutos a cada quatro horas e intervalo de 11 horas para descanso. Os caminhoneiros reclamam que não há pontos de parada e locais adequados para descanso e higiene pessoal.
O que diz a ANTT
A agência informou que discutirá as normas do pagamento eletrônico de frete com transportadoras e caminhoneiros nos primeiros 10 dias de agosto. As demais questões devem ser discutidas com o Ministério dos Transportes.
Entrevista com José Carlos Silvano, presidente do Setcergs
"É legítimo"
Zero Hora — O que o senhor acha da greve dos caminhoneiros?
José Carlos Silvano _ É um movimento justo, legítimo, que tem reivindicações oportunas.
ZH — O sindicato apoia o movimento?
Silvano — Não apoiamos diretamente, o que seria locaute. Por temor, muitas empresas entenderam por deixar seus caminhões no pátio.
ZH — O que o senhor acha disso?
Silvano — Acho ruim. Clientes não receberão mercadorias, e operações ficarão atrasadas.
ZH — O senhor tem conversado com Nélio Botelho, líder do movimento?
Silvano _ Tenho recebido e-mail dele todos os dias. Antes da greve, ele pediu apoio. A gente disse que não poderia dar apoio explícito, mas concordava.
Entrevista com Eder Dal'Lago, presidente da Federação dos Caminhoneiros (Fecam)
"Somos contra"
ZH — Qual sua opinião sobre a greve?
Eder Dal'Lago — Somos contra. Estamos negociando a regulamentação do transporte de cargas no Brasil com a ANTT.
ZH — Qual a adesão no Estado?
Dal'Lago - Mínima. Nenhuma rodovia foi bloqueada.
ZH — Quem se beneficia com a greve?
Dal'Lago - Não sei. Vejo empresários dizendo o que é bom (em relação à greve), o que é ruim. Espero que o caminhoneiro não seja usado em benefício de outros.
ZH — O senhor acredita que possa haver uma radicalização do movimento?
Dal'Lago - Não. Temos de negociar pacificamente e trabalhar.







