Fogo hermano29/05/2012 | 21h52

Barreiras argentinas ampliam prejuízos no Estado

Empresas gaúchas acumulam perdas nas exportações de móveis, alimentos, máquinas agrícolas, ônibus e calçados

Enviar para um amigo

Negociar com a Argentina é como transitar em campo minado, os empresários gaúchos nunca sabem quando irá estourar mais uma medida protecionista para dificultar as exportações de mercadorias.

Na segunda-feira, ao apertar o controle sobre a compra de moeda estrangeira no país, o governo Cristina Kirchner deu mais sinais de que ruma para a clausura comercial.

Os bloqueios às exportações não param de impor prejuízos. A gaúcha Oderich está com 50 carretas paradas, carregadas com 3,6 milhões de latas de milho e ervilha, porque foi surpreendida por um novo mecanismo restritivo dos hermanos. Pela nova exigência, terá de arranjar um intermediário argentino para vender a mercadoria, pagando 10% pela operação triangular. E remarcar todos os rótulos das conservas, colocando o selo do novo importador.

— Vamos ter de abrir todas as caixas, imprimir lata por lata — reclama o diretor comercial da empresa, Marcos Oderich.

O transtorno foi causado pela norma Declaração Jurada Antecipada de Importação (Djai), em vigor desde fevereiro. Pela nova regra, os supermercados argentinos que compraram da Oderich não foram autorizados a fazer a importação. Precisarão de um intermediário para receber a carga. Resultado: as 50 carretas estão paradas em São Sebastião do Caí, Pelotas e Goiás.

A inconformidade do empresariado brasileiro deverá resultar em mais uma rodada de negociação entre os governos, em 6 de junho, em Buenos Aires, para tentar destravar o comércio bilateral. Mais do que se repetirem, as queixas aumentam de intensidade. Presidente da Associação das Indústrias de Móveis do Estado (Movergs), Ivo Cansan reclama que a situação piora a cada dia.

— Talvez seja o caso de esquecermos a Argentina e procurarmos outros mercados. Eles não colaboram em nada — diz Cansan.

Empresários montam estratégias para contornar os obstáculos. Já tentaram argumentar com o secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno — eleito o vilão do protecionismo —, e pediram a intervenção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) do Brasil.

— Fomos dezenas de vezes a Brasília — ressalta o diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein.

Há táticas mais complexas. O vice-presidente de relações institucionais da Marcopolo, José Antônio Fernandes Martins, anuncia que a empresa cogita da compra de peças e componentes da Argentina, para conseguir vender mais ônibus ao país vizinho. O governo argentino exige esse tipo de compensação — chamada de "uno por uno" para franquear as exportações.

— É para haver equilíbrio. Estamos pensando nisso — disse Martins a ZH, ontem.

A venda de máquinas agrícolas aos argentinos já representou 25% das exportações para empresas gaúchas — atualmente estacionou nos 10%. Para não perder o mercado, três gigantes — Stara, Agco e John Deere — estão se instalando ou já produzindo lá. Presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado (Simers), Claudio Bier lembra que a Argentina é o terceiro maior produtor de soja do mundo. Mas critica o protecionismo hermano:

— É um abuso por parte deles, um desrespeito ao Mercosul e ao principal parceiro, que é o Brasil.

Os números da discórdia
Exemplos de prejuízos causados pelas barreiras da Argentina às exportações gaúchas:
_ US$ 150 mil por mês era o que a Multimóveis exportava em móveis, valor que caiu a zero há um ano
_ 2,3 milhões de pares de calçados estão impedidos de embarcar, um prejuízo superior a US$ 25 milhões
_ 300 ônibus rodoviários foram exportados pela Marcopolo no ano passado, número considerado baixo
_ 25% para 10% foi a queda na participação das exportação de máquinas agrícolas do RS para a Argentina nos últimos três anos
_ 3,6 milhões de latas de conservas de milho e ervilha da Oderich estão trancadas no lado de cá da fronteira

Um muro na fronteira
Licenças não automáticas: adotadas ainda em 2009, provocam demora no ingresso dos produtos brasileiros na Argentina. Embora o prazo aceito pelas regras internacionais seja de 90 dias, em muitos casos a demora supera esse período.

Uno a uno: também de forma crescente a a partir de 2009, uma regra não escrita recomenda aos importadores locais que em cada dólar pago por mercadorias estrangeiras, vendam o equivalente ao Exterior em produtos nacionais.

Produção local: empresas que exportam muito para a Argentina, como indústrias brasileiras de calçados e de máquinas agrícolas, foram pressionadas pelo governo local a fazer investimentos em produção  no país, deslocando parte da fabricação.

Burocracia: a partir de fevereiro de 2012, a Argentina passou a exigir dos importadores locais a Declaração Juramentada Antecipada de Importação, que deve ser entregue ao fisco local antes de qualquer compra feita no Exterior. Como é necessária a liberação antes do fechamento do negócio, a providência atrasa ainda mais os negócios.

Controle de moedas: a partir de segunda-feira, o governo argentino apertou ainda mais o controle que vinha aumentando desde novembro de 2011 nas negociações que envolvam moeda estrangeira. Quem quiser comprar dólares, reais ou outras moedas terá de pedir autorização ao fisco local, chamado Afif.

Comentar esta matéria Comentários (1)

Aldo Renato Soares

É AFIP....

30/05/2012 | 09h30 Denunciar

Siga perfis de Economia no Twitter

clicRBS
Nova busca - outros