Antes de entrar em férias, Mario Arruda, gerente-geral da Parker, procura se planejar com antecedência. Há alguns anos, era mais complicado para ele relaxar no período de descanso, mas algumas mudanças de comportamento fizeram toda a diferença para desfrutar merecidas pausas no trabalho. Sua primeira atitude é escolher o momento certo no calendário da organização — para evitar sair justamente na hora em que sua função for essencial para a empresa, procurando fracionar as temporadas de folga. Depois de deixar a equipe bem instruída, basta tirar o relógio, escolher um lugar para ir e dedicar-se ao seu hobby.
— Quando eu estava mais no início da carreira, com filhos pequenos, as preocupações eram maiores, e tinha dificuldade de conciliar as datas com as férias das crianças e da minha mulher. Hoje, eu posso me organizar melhor e aprendi a controlar a ansiedade — conta Arruda.
A angústia que o executivo sentia é compartilhada com um número crescente de profissionais. Pesquisa da International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), aponta que 41% de 745 entrevistados demonstraram resistência para tirar férias. Mais da metade deles (53%) teme que sejam tomadas decisões na empresa enquanto estiverem ausentes e 24% têm receio da demissão.
— Na primeira versão da pesquisa, realizada em 2005, 38% dos profissionais afirmavam ter medo das férias. Na versão atual, esse número aumentou e a tendência é crescer ainda mais na medida em que a tecnologia avança e as pessoas ficam cada vez mais acessíveis por meio da internet — diz Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR.
Os números confirmam a falta de relaxamento dos profissionais durante o recesso. Em um levantamento feito pela Asap, consultoria de recrutamento e seleção de executivos, com 1.090 pessoas mostra que 52% dos ouvidos respondem e-mails referentes ao trabalho durante os dias de descanso.
— O brasileiro sofre muito com a vida profissional, emprega energia acima da média para a carreira.
A ascensão é proporcional ao comprometimento, mas muitos confundem empenho com excesso de preocupação — destaca Ricardo Haag, diretor regional da Asap.
Para Murillo Lima, gerente em Porto Alegre de uma consultoria britânica de recrutamento, essa curva ascendente de profissionais estressados nas férias deve diminuir nos próximos anos quando a geração Z (nascidos nos anos 1990) entrar no mercado:
— As novas gerações saberão lidar melhor com as ferramentas tecnológicas. Além disso, os jovens que começam a carreira agora são desprendidos e voltados para a satisfação pessoal.
O conceito de férias de hoje é diferente do que era no passado, avalia Claudio Raiter, diretor da RSA Talentos Executivos. Segundo ele, o desligamento total do trabalho em um mundo cada vez mais conectado se torna praticamente impossível e os profissionais não devem se cobrar por isso.
— Temos de estar sempre informados sobre o que ocorre na empresa, mas também não podemos ficar presos por algemas eletrônicas. O período de descanso deve ser para diminuir a pressão, o estresse, mas também para autoavaliação, pensar em estratégias, solução de problemas — sugere Raiter.
Dicas para aproveitar melhor a saída
— Antes de sair de férias, deixe tudo organizado no trabalho e treine alguém para substituí-lo durante esse período.
— Tente antecipar situações que possam vir a ocorrer e deixe instruções para seu substituto resolvê-las.
— Deixe clientes avisados do período de férias e tente antecipar possíveis demandas.
— Deixe mensagem automática de e-mail avisando seu período de férias.
— Se achar necessário manter um vínculo com a empresa, estipule dias e horários para atender ao celular.
— Evite sair nos períodos em que a empresa estiver se organizando para realizar mudanças organizacionais.
— Para desacelerar o ritmo, tire o relógio e não se preocupe com horários.
— Sempre que possível, tente fracionar o tempo de descanso. Tire férias mais curtas e mais frequentes.
— Se você não tiver acostumado com exercícios, evite atividades que exijam condicionamento físico. Viagens que incluam extensas caminhadas ou trilhas de aventura, por exemplo.
— Procure diversificar as atividades, cuide do jardim, faça pescaria, passeie pela praia, vá ao cinema, dedique-se a um hobby. Use o tempo das férias para fazer algo que lhe dê prazer.
— Se for viajar com a família, procure se certificar de que haverá atividades para todos os membros.
— Caso não possa viajar, aproveite o tempo na cidade para fazer coisas que não consegue no dia a dia: leia, vá ao teatro, cinema no meio da tarde, marque encontros com os amigos. Dependendo do período do ano, a cidade fica até mais tranquila e você evita o estresse de pegar a estrada.
— Não crie expectativas demais sobre as férias. Busque ser realista sobre os seus objetivos no período reservado para o descanso.
— Cuide da parte financeira para que o cartão de crédito não seja uma péssima surpresa ao retornar das férias.
— Nos últimos dias de descanso, procure voltar de forma gradual aos horários habituais de dormir e de acordar.
— Volte de viagem, pelo menos, 24 horas antes de retomar o trabalho. Voltar bruscamente ao trabalho aumenta a tendência de depressão pós-férias.
A pesquisa
Um levantamento com 745 profissionais, de 23 anos a 62 anos, em São Paulo e em Porto Alegre, mostrou as principais causas do receio de tirar férias.
A pesquisa foi feita pela International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), entidade que analisa o nível de estresse no trabalho.
Dos 745 entrevistados,
41%
demonstraram resistência
para tirar férias
Razões
53% Possibilidade de decisões importantes serem tomadas na empresa, inclusive mudança de cargo ou responsabilidades
24% Enxugamento na empresa
17% Dificuldade de se afastar fisicamente do trabalho (workaholics)
6% Evitar proximidade prolongada com familiares devido a conflitos
* Fatores agravantes
49% Conflitos familiares
36% Despesas adicionais das férias para serem pagas na volta
32% Visitas/hóspedes causando excesso de tarefas e de atividades sociais
27% Não conseguir se desligar mentalmente do trabalho
14% Férias em local inadequado, falta do que fazer
*Participantes identificaram mais de um fator
Manutenção dos benefícios das férias após retorno à rotina
67% Perdem os benefícios em uma semana
16% Integram os benefícios adquiridos a sua rotina
13% Retornam no mesmo nível de estresse que saíram
4% Retornam mais estressados









