Na lida com educação15/03/2013 | 07h51

Realidade expõe contrastes em escolas agrícolas gaúchas

Instituições ensinam na teoria e na prática conhecimentos para qualificar o meio rural

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Realidade expõe contrastes em escolas agrícolas gaúchas  Mauro Vieira/Zero Hora
Alunos têm rotina diária de trabalho, do tratamento de animais a cuidados na lavoura Foto: Mauro Vieira / Zero Hora

Ao som de músicas tradicionalistas vindas de um rádio que ecoa na sala de ordenha da Escola Técnica de Agricultura (ETA), em Viamão, jovens de diversas regiões do Rio Grande do Sul cumprem a primeira atividade do dia antes de ocupar as cadeiras das salas de aula.

Com horário exato para o tratamento de animais e trabalho na lavoura, a rotina é seguida à risca por estudantes que trocam o ambiente de escolas regulares pelo ensino em propriedades rurais. A escolha não é feita por acaso.

VEJA O MAPA DAS ESCOLAS TÉCNICO AGRÍCOLAS NO RIO GRANDE DO SUL

— Quero cursar Veterinária em uma universidade federal — diz Leonardo Antônio Vieira, 16 anos, do 2º ano do Ensino Médio do técnico em pecuária.

Assim como Leonardo, milhares de jovens buscaram a formação de técnico agrícola para ensaiar os primeiros passos no mercado de trabalho. Entre ex-alunos ilustres, o governador Tarso Genro, que frequentou o curso em Santa Maria, e o ex-governador Leonel Brizola, que formou-se na ETA — escola mais antiga do Estado, fundada em 1910.

— As escolas agrícolas oferecem mais do que a vivência prática dos conteúdos teóricos. São experiências que ajudam na formação social das pessoas — destaca o diretor da ETA, Evandro Cardoso Minho, acrescentando que grande parte dos estudantes consegue colocação no mercado de trabalho após a formação ou ingresso em cursos superiores.

A fácil empregabilidade explica a procura pela formação no Estado. Com a expansão do agronegócio no país, faltam profissionais técnicos para atuarem no setor, seja diretamente no campo ou em indústrias e comércio. A valorização do trabalho rural passou a caminhar junto com a produtividade das lavouras.

Interesse também de jovens urbanos

Parte do aprendizado vem da adaptação longe da família e do convívio diário com colegas de diferentes origens. Filho de pequenos agricultores de Mostardas, Julio Lima da Costa, 20 anos, deixou a casa dos pais para estudar na ETA há dois anos. No começo, pensou em desistir e voltar para sua cidade:

— Mas pensei no incentivo dos meus pais e no orgulho que podem ter de mim. Vou me formar neste ano e conseguir emprego na minha área.

Se engana quem pensa que o interesse pelas escolas agrícolas seja apenas de jovens que cresceram vendo os pais trabalhando no meio rural. Nascido em Porto Alegre, Dener Augusto Schilero, 16 anos, trocou a rotina urbana para cursar o técnico em pecuária na ETA, onde chega a dividir o quarto com 10 alunos.

— Quero criar gado em Mato Grosso — diz Dener, que despertou para a lida campeira com o padrinho, de Nova Hartz, e o avô, de Taquaruçu do Sul.

Com 360 alunos, dos quais 120 internos, a ETA tem área de 407 hectares — com lavouras de milho e arroz, produção de hortigranjeiros e criação de gado de corte e de leite, suínos, ovinos, equinos e pequenos animais. Da produção agrícola, a escola mantém uma agroindústria de rapadura, queijo, iogurte, doce de leite e geleia. Gratuita, recebe cerca de R$ 12,8 mil mensais do governo estadual para manutenção e investimentos. O custo para manter a escola, porém, passa de R$ 30 mil.

— Somos autossuficientes em carne, verduras, ovos e leite. Mas é uma luta diária, pois não há uma política específica para as escolas agrícolas do Estado — lamenta o diretor da ETA.

Escolas federais e particulares oferecem excelência

Embora o propósito seja o mesmo, formar profissionais para atuar no setor primário, a realidade das escolas de formação técnico agrícola é bem distinta no Rio Grande do Sul. Mantidas pelos governos estadual e federal, e também por entidades filantrópicas, as instituições têm radiografias diferentes. Enquanto uma escola estadual recebe um repasse mensal inferior a R$ 10 mil, as federais chegam a receber R$ 130 mil.

— A rede federal consegue um grau de excelência porque os investimentos são bem maiores, desde estrutura oferecida até pesquisas desenvolvidas — afirma o presidente do Sindicato dos Técnicos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Sintargs), Carlos Dinarte Coelho.

A radiografia de contrastes, conforme o presidente da entidade, é resultado de programas do governo federal voltados ao fortalecimento do ensino técnico — desde investimentos em infraestrutura até no corpo docente e funcional. Com 500 alunos no Ensino Médio técnico agropecuário, a unidade do Instituto Federal Farroupilha, de São Vicente do Sul, recebe R$ 133 mil por mês para investimentos.

— Formamos técnicos com visão geral da propriedade, com competência para gerir projetos que envolvem produção vegetal, animal e agroindustrial — explica Ivan Carlos Maldaner, coordenador do curso.

A formação técnico agrícola no Estado é reforçada por escolas particulares. Criado há mais de 40 anos, o Curso Técnico em Agropecuária (CTA) da Sociedade Educacional Três de Maio tornou-se referência na região Noroeste pelo ensino qualificado e parcerias com instituições de pesquisas. Com 120 alunos, tem só cinco internos hoje.

— Com a facilidade de transporte, o aluno consegue vir para a escola e retornar no mesmo dia para a propriedade da família, aplicando os conhecimentos aprendidos nas aulas práticas — explica o coordenador Claudinei Marcio Schmidt, acrescentando que no último semestre do curso os alunos são desafiados a planejar a gestão de uma propriedade rural por um ano.

Rede estadual tem carência de recursos

Com necessidades que vão de equipamentos para lavouras até a estrutura do alojamento, as escolas de ensino técnico agropecuário dependem de investimentos para acompanhar o avanço tecnológico do campo.

— As escolas são laboratórios vivos. Muitas foram abandonadas pelo governo estadual — lamenta Sérgio Luiz Crestani, presidente da Associação Gaúcha de Professores Técnicos dE Ensino Agrícola.

Conforme Crestani, a carência de professores é outra deficiência. O quadro docente é suprido, na grande maioria, por contratos, normalmente de técnicos na área.

— O professor dessas escolas precisa formação pedagógica. Mas não há incentivo para renovar o corpo docente.

Responsável pela gestão de 26 unidades de ensino técnico agrícola que envolvem 10,5 mil alunos, a Secretaria Estadual da Educação repassa cerca de R$ 180 mil por mês para manter as escolas — em torno de R$ 7 mil para cada uma. Conforme o secretário da Educação, José Clóvis de Azevedo, a intenção é aumentar em 30% o repasse de autonomia escolar ainda no primeiro semestre.

Neste mês, foram investidos R$ 3 milhões para renovar parte da frota de tratores e equipamentos das escolas agrícolas. Azevedo acresenta que o governo está em processo de formação de profissionais e de concursos para docentes e funcionários.

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