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A Patagônia, uma área de 1.269.094 quilômetros quadrados no extremo sul da América do Sul, dividida entre o Chile e a Argentina, estava na minha lista de destinos há mais de 20 anos. Estendendo-se do sul da Cordilheira dos Andes, aos oceanos Pacífico e Atlântico, a região tem campos intermináveis, espetaculares lagos glaciais e cordilheiras. A primeira vez que ouvi falar do lugar foi no livro "In Patagonia" (1977), de Bruce Chatwin, quando ainda estava no ensino médio. Sua descrição dos "farrapos de nuvens de prata passeando pelo céu, o mar de arbustos espinhosos verde-acinzentados que se espalha pelo chão e sobe pelos terraços, e a poeira branca soprada para fora da salinas" me convidava a ir até o local e a levar uma vida de viajante.
Então, quando surgiram notícias recentes de que o Chile estaria tentando criar uma das mais impressionantes e abrangentes redes de parques públicos e privados do mundo, a ideia de conhecer o país ficou ainda mais atraente. No ano passado, dois resorts de luxo foram inaugurados na porção chilena da Patagônia, algo que não acontecia há mais de uma década. Eu sabia que era chegado o momento.
A Patagônia fica no fim da Terra e é assim que nos sentimos quando estamos lá – especialmente com uma criança de dois anos no colo. Primeiro nós tomamos um voo noturno de Houston para Santiago. Em seguida havia o voo de quatro horas até Punta Arenas (a menos que se possa pagar por um voo particular até Puerto Natales), e mais quatro horas de carro até o Parque Nacional Torres del Paine, antes de poder fazer a primeira trilha.
Contudo, a duração da jornada tinha algo de romântico. Ao longo da estrada plana e reta em Punta Arenas, dirigíamos por horas sem ver nada além de ovelhas enchendo a barriga de grama amarela, talvez uma casa de fazenda, ou um gaúcho solitário seguido por uma matilha de cães.
Desde os tempos de Bruce Chatwin, o mundo ficou muito menor e mais familiar, mas a Patagônia ainda mantem um senso anacrônico de profundo distanciamento.
Naturalmente, o desenvolvimento já chegou até ali e o impacto do maior número de visitantes é evidente, especialmente ao longo das trilhas mais populares. Foi nesse parque, há pouco mais de um ano, que um turista começou uma impressionante queimada que devastou ao menos 10.926 hectares de terra. Quando chegamos, no início de fevereiro, o parque havia sido reaberto, apesar dos quilômetros e mais quilômetros de cicatrizes negras.
Não fomos imediatamente ao parque. Nossa primeira parada foi no hotel Singular Patagonia – a cerca de uma hora da entrada do parque –, um antigo matadouro construído em 1915. O prédio fica próximo à cidade de Puerto Natales e janelas que vão do chão ao teto dão vista para o Fiorde da Última Esperança. Um projeto de restauração que durou 10 anos e trouxe banheiras de hidromassagem e camas king-size para um edifício de aparência rígida, com longos corredores adornados com enormes relíquias de ferro da era industrial. Para aumentar a sensação de fim-de-mundo, um vento praticamente constante assobia pelos quartos enquanto as ondas quebram no deque de madeira.
Os primeiros colonos vieram com seus rebanhos no fim do século XIX e enfrentaram invernos que os isolavam do resto do mundo durante meses e, até hoje, apesar dos pisos aquecidos e da comida excelente, quem manda é a natureza. Naquele dia, um passarinheiro foi arremessado ao chão pelo vento (por sorte não se machucou), e grandes ondas impediram os barcos de levarem grupos para ver a geleira. Então, escolhemos um passeio a cavalo, uma expedição emocionante e animadora pelas colinas próximas ao Lago Sofia, onde as nuvens pareciam perseguir o sol pelo céu.
Mais próximo da entrada do parque, o novo Tierra Patagonia é um dos resorts de maior beleza arquitetônica e com uma das melhores localizações que já conheci. A estrutura longa e esguia envolve a planície como um grande par de asas de madeira e vidro. O Lago Sarmiento brilha na distância, tendo atrás de si as enormes Torres del Paine.
O local foi projetado para que todas as janelas tenham vista para a paisagem em constante transformação; a luz, as nuvens e as cores da terra parecem mudar a cada instante. Por meio de uma grande área de vidro, o sol preenche o interior de luz natural. Durante a noite, uma grande fogueira queima em um local no centro da área aberta do hotel. Os tapetes de pele de carneiro e as poltronas rústicas dão ao local um ar gaúcho e um enorme mapa com desenhos dos fiordes e de animais serve de referência para as atividades do dia seguinte.
Uma das excursões que decidimos fazer era absolutamente fundamental: subir até a base das Torres del Paine. Deixamos nosso filho com a amigável equipe do hotel (embora ver que outra mulher praticamente corria pela mesma trilha com o filho de dois anos no colo tenha me deixa um pouco culpada). Então, saímos com Felipe, nosso guia local, e mais dois irmãos do Texas, ambos muito bonitos.
No caminho até o começo da trilha, pensei que se a Nova Zelândia não tivesse sido escolhida para o cenário de "O Senhor dos Anéis", esse seria o lugar ideal. Os grandes pastos estavam cobertos com rebanhos de guanacos (animais parecidos com lhamas), cachoeiras desciam de penhascos e as montanhas se erguiam na distância.
Nosso pequeno grupo abriu caminho através de diferentes microclimas. Na maior parte do tempo estávamos em silêncio e nos concentrávamos em nossos passos, mas de vez em quando conversávamos um pouco. A queimada ainda estava na memória de Felipe. O fato de que o alpinista não tivesse seguido as regras do parque era o que mais o incomodava. Terrenos inestimáveis foram reduzidos a cinzas e embora as plantas voltem a crescer, os efeitos do fogo serão visíveis por décadas.
Após um dia inteiro de caminhada, assisti ao pôr-do-sol da piscina coberta do Tierra Patagonia, por trás dos três picos que havíamos acabado de conhecer. Poucas vezes estive em um local em que a natureza parecesse tão preservada. Apesar da recente queimada, ainda sentia que havia poucos lugares tão bem conservados no planeta.
Planejando a viagem
Vale a pena contratar alguém para planejar a estadia e lidar com os transfers na Patagônia. Uma vez que pousos e excursões ao parque dependem muito do clima, é bom ter alguém que possa ajudar com circunstâncias imprevistas. A Cazenove + Loyd oferece viagens para a região e pode recomendar excursões adiantadamente, dependendo de seu nível de atividade e interesse (cazloyd.com; a partir de 780 dólares por pessoa por dia, incluindo refeições, excursões, transfers e a entrada do parque).
O verão vai de dezembro a março na Patagônia e é a alta temporada; no inverno o clima é mais temperamental, mas há menos gente nas trilhas.
Onde ficar
O preço dos hotéis parece alto no começo, mas quando dividimos entre quarto, comida, excursões e transfers, eles ficam menos salgados, especialmente se considerarmos a experiência. Pouco antes de Puerto Natales, o hotel Singular Patagonia fica a uma hora e meia do Parque Nacional Torres del Paine, mas oferece acesso aos fiordes e geleiras da região, além da caverna Mylodon (lar do mamífero pré-histórico que inspirou a viagem de Bruce Chatwin). Os preços para a pensão completa (também há a opção de meia pensão e só café da manhã) começam em 610 dólares por pessoa, incluindo todas as refeições no excelente restaurante, expedições e bebidas alcoólicas e não alcoólicas (thesingular.com; 56-61-722-030).
Bem em frente do parque nacional, o Tierra Patagonia possui design e localização privilegiados, além de um maravilhoso spa (tierrapatagonia.com; 56-2-2370-5301); uma estadia de três noites (mínimo) custa a partir de 1.950 dólares por pessoa e quarto duplo. O restaurante, contudo, ainda precisa melhorar um pouco para chegar ao nível do Singular ou do Explora.
Aberto em 1993, o Explora Salto Chico ainda é o melhor da região. Situado no coração do parque e na beira de uma cachoeira de frente para a montanha, as acomodações do hotel e o excelente restaurante continuaram intactos, apesar de alguns danos causados pelo fogo em áreas próximas. Os guias do local trabalharam duro para encontrar novas trilhas para aumentar as que foram afetadas pelo fogo (explora.com; 56-2-2395-2800); uma estadia de quatro noites (mínimo) sai por 2.780 dólares por pessoa em quarto duplo, incluindo pensão completa e excursões com guias.








