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Trilha28/12/2012 | 08h03

Passeio refaz o caminho de Jesus Cristo na Galileia

Com 64 quilômetros, caminho liga os principais locais históricos relacios à vida de Jesus como o Monte das Bem-aventuranças e a Via Romana

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Passeio refaz o caminho de Jesus Cristo na Galileia Rina Castelnuovo/NYTNS
A turista Nelle Sculte reza em Tiberias, em meio ao roteiro Foto: Rina Castelnuovo / NYTNS

Na esquina do mercado da Cidade Velha, em Nazaré, sob a sombra de mansões otomanas de 200 anos de idade, há uma rua de paralelepípedos tão estreita que você quase consegue tocar as casas em ambos os lados. Uma seta pintada sobre uma parede de pedra, com os dizeres “Trilha de Jesus”, aponta para uma escadaria. Esse é o verdadeiro início de um caminho de 64 quilômetros ao longo da região israelense da Galileia, seguindo, mais ou menos, os passos do homem que trouxe fama à região.

A Trilha de Jesus é fruto da imaginação de dois fanáticos por caminhadas, Maoz Inon, um israelense de 37 anos, e David Landis, de 30 anos, escritor de guias de viagem da Pensilvânia. Os dois se conheceram em 2005, quando faziam uma trilha em Israel, e tiveram a ideia de criar um caminho que ligasse os principais locais históricos relacionados à vida de Jesus.

Alguns desses lugares – incluindo o Monte das Bem-aventuranças, onde foi proferido o Sermão da Montanha – já eram populares nas viagens de ônibus. Mas outros, como a Via Romana, onde se acredita que o Cristo ressurreto tenha cegado Paulo, não eram acessíveis por meio das rodovias da região.

 
Foto: Rina Castelnuovo/NYTNS

Landis voltou a Israel em 2007. Com a permissão dos governos locais e com a ajuda do Google Earth e de um GPS, ele e Inon descobriram a forma mais “bonita, lógica e factível” de conectar uma série de parques e de outros locais públicos. Investiram cerca de US$ 150 mil e milhares de horas. Em 2008, a Sociedade Israelense Protetora da Natureza desbravou a trilha, oficialmente aberta em 2009.

Eu estava bastante curioso a respeito dessa rota e, em fevereiro, peguei o ônibus 955, que vai do norte de Jerusalém até Nazaré. Durante quatro dias, caminhei por uma paisagem bíblica, hospedando-me em pequenas pousadas.

Ainda que o ponto de partida oficial seja a Igreja da Anunciação, em Nazaré, comecei minha caminhada pela pousada que pertence a Inon e se tornou o centro de informações da trilha. Acompanhado por dois outros excursionistas, segui a seta que indicava a escadaria, logo na saída da pousada, onde encontrei outras centenas de degraus íngremes. Quando finalmente cheguei ao topo, a recompensa foi uma vista panorâmica da Galileia, uma colcha de retalhos feita de pastos e de olivais.

O terreno estava verde e exuberante após as chuvas de inverno. Em seguida, caminhamos ao longo de um vale coberto de flores silvestres e nos dirigimos a Cafarnaum, a vila que marca o fim da trilha e o local onde se acredita que Jesus tenha dado a maior parte de seus ensinamentos. Enquanto caminhava, as histórias da escola dominical inundavam minha mente. A cura dos doentes, a ressurreição dos mortos, a transformação de água em vinho. Essa certamente não seria uma caminhada comum.

E era exatamente isso o que seus criadores tinham em mente. Mesmo que alguns turistas cristãos passem seu tempo em Jerusalém e em passeios de ônibus, muitos outros desejam conhecer os confins por onde Jesus caminhou. Dois viajantes que encontrei no caminho, Keith e Kathy Springer, de Illinois, faziam essa trilha durante sua folga do trabalho voluntário no Nazareth Village, um museu histórico interativo.

Mas os peregrinos cristãos não são as únicas pessoas que Landis e Inon têm em mente. Ao traçar uma rota que passa pelos vilarejos árabes e judeus que eram ignorados pelos ônibus, eles descobriram que parte do dinheiro do turismo cristão – responsável por cerca de dois terços dos US$ 3,5 bilhões da indústria do turismo em Israel – seria direcionado para o comércio local.

Após oito quilômetros de caminhada, chegamos ao Parque Nacional de Séforis, um local repleto de ruínas judaicas e romanas. Depois de um piquenique com pão sírio e maçãs, perto da Igreja dos Cruzados, saímos para explorar as ruínas. Alguns especialistas bíblicos acreditam que Séforis é a vila onde Maria foi criada.

Continuamos a trilha através de uma floresta de pinheiros que nos levou ao vilarejo árabe de Mashhad. Passamos por mesquitas e pelo local do túmulo de Jonas, o profeta do Velho Testamento. Em seguida, cruzamos um vale verdejante até chegarmos à vila de Caná, onde acredita-se que Jesus tenha feito seu primeiro milagre: transformar água em vinho.

Cansados da caminhada de 16 quilômetros, descemos até a rua principal, onde não faltam lojinhas que vendem pequenas garrafas de vinho “milagroso” e de água mineral. Em seguida, subimos por uma viela até uma pousada. Chegando lá, tomamos um café no balcão, comemos pão sírio com homus e carne de carneiro e dormimos muito bem.

 
Foto: Rina Castelnuovo/NYTNS

Ruínas, trigo e caverna

O segundo dia começou às 9h, debaixo de um céu azul. Nós caminhamos por uma estrada de terra com vista para o Vale do Tur’an, um declive suave repleto de flores silvestres e oliveiras. A estrada passa ao lado das ruínas de pedra de uma antiga via romana que cruza um bosque de carvalhos e termina em um memorial do holocausto criado por moradores do kibutz de Lavi.

Esse deveria ser o local onde passaríamos nossa segunda noite, um hotel bem equipado e operado pelo kibutz, mas complicações com a reserva nos levaram a ficar no Fauzi Azar Inn, em Nazaré.

Na manhã seguinte, acompanhados por Inon, voltamos ao kibutz de Lavi de carro. Nós desbravamos o caminho através de um campo de trigo vermelho da Rússia e continuamos até chegarmos aos chifres de Hattin, uma formação vulcânica que lembra os chifres de um touro, onde pudemos ver pela primeira vez o Mar da Galileia. Algumas das melhores atrações nos esperavam no terceiro dia. No penhasco de Arbel, com 366 metros de altura, pudemos ver o Mar da Galileia.

De lá, nós caminhamos por um declive rochoso, ajudados por varas de metal, e fomos até as cavernas e as casas onde os judeus rebelados se esconderam de Herodes, o Grande, segundo o historiador Josephus. Em um vale repleto de árvores de alfarroba, fomos em direção a Magdala, a terra natal de Maria Madalena.

Nós nos reencontramos com os ônibus de turismo na Igreja das Bem-aventuranças, uma pequena igreja próxima a um lugar onde se podem comprar doces e refrigerantes. Em um pedaço de terra onde se acredita que Jesus tenha transformado peixes e pães em um banquete, um pastor americano estava regendo seu rebanho de cerca de 40 fiéis.

Depois de menos de um quilômetro, pudemos literalmente farejar o fim da trilha: um restaurante que serve peixes, chamado Peter’s. Ainda que Cafarnaum, o lugar que marca o fim da jornada, estivesse perto, nós decidimos descansar e tomar um gole da cerveja israelense Goldstar.

Minha peregrinação chegava ao fim. Eu não encontrei Jesus, mas descobri uma parte belíssima do mundo.

A alternativa oficial

Quase nada acontece em Israel sem uma controvérsia, e a Trilha de Jesus não é exceção. Em novembro de 2011, o Ministério do Turismo israelense irritou Inon, ao abrir sua própria versão da Trilha de Jesus, um caminho de 60 quilômetros chamado de Trilha Gospel, que atravessa áreas de floresta e deixa de lado a cidade de Caná e boa parte dos locais históricos.

– Por que eles não investiram em nossa trilha, em vez de gastarem milhões de dólares com uma nova versão? – questiona Inon.

Segundo Inon, ele já sabia qual era a razão: o governo queria evitar áreas com problemas de segurança. Traduzindo: evitar vilarejos árabes em favor de áreas judaicas. Mas o comissário do turismo israelense Haim Gutin afirma que essa não era a razão:

– A Trilha Gospel fazia parte de um plano que vem sendo desenvolvido há anos para promover Israel entre os cristãos evangélicos. Além disso, ninguém sabe exatamente por onde Jesus caminhou — explica.

Caminhei por parte da Trilha Gospel, mas existem problemas que a tornam impraticável. Ela não se liga ao transporte público e ainda não foi bem marcada.

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