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The New York Times14/12/2012 | 03h36

Na trilha dos espíritos da montanha na Coreia

Jornalista relata aventura de encarar passeio pelo Baekdu-Daegan

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Na trilha dos espíritos da montanha na Coreia Joe Ray/NYTNS
Na foto, marcador no cume da montanha Hyangjeok-bong, na Coreia do Sul Foto: Joe Ray / NYTNS
Elisabeth Eaves


No Natal, meu irmão Gregory me deu de presente um "spork" (espécie de colher com dentes de garfo) de titânio, uma escolha que pareceu meio aleatória na época, já que eu não via utilidade naquele talher híbrido e ultraleve. Porém, nove meses depois e a mais de 11 mil quilômetros de Nova York, onde moro, quase morta de exaustão, fiquei grata pela falta de peso do presente.

Gregory, meu marido Joe e eu estávamos caminhando havia 12 horas, com mochilas de 14 quilos nas costas, pulando de pedra em pedra em meio a uma grossa neblina. Depois do anoitecer, com as lanternas de capacete quase sem bateria, avistamos alguns pontos de luz na escuridão e escutamos o curioso som de um gerador eólico. Descemos correndo até o abrigo de Satgat-jae, uma cabana básica para viajantes que se aventuram a mais de 1.280 metros de altura no Parque Nacional Deogyusan, na Coreia do Sul. Foi lá que tirei meu "spork" da mala.

Gregory atualmente vive na Coreia do Sul e está curtindo a vida de estrangeiro. Foi ele quem sugeriu que fizemos uma parte da trilha do Baekdu-Daegan. O Baekdu-Daegan é um sistema de montanhas que se estende pelas duas Coreias, ao longo de quase 1,4 mil quilômetros. Nos mapas, o sistema parece a espinha dorsal da península coreana, mas logo percebi que sua verdadeira função era psicológica e espiritual. Essa ideia me ocorreu pela primeira vez quando Gregory nos contou que sua namorada coreana havia lhe dito que ele a entenderia melhor depois de caminhar pelo Baekdu-Daegan. Quando Joe e eu fizemos o check-in em um moderníssimo hotel no centro de Seoul, a recepcionista aplaudiu depois que contamos quais eram nossos planos.

A Coreia do Sul está entre os países mais densamente povoados do mundo, mas sua primeira religião nacional – séculos antes da chegada do cristianismo, do confucionismo e do budismo – era baseada na adoração aos espíritos da montanha. A versão coreana do feng shui, conhecida como pungsu-jiri, conta que a energia do país flui em direção ao sul pelo cume do Baekdu-Daegan e através de suas ramificações. Durante a viagem, entendi que as montanhas tem o mesmo significado para os coreanos que o velho oeste para os americanos. Mesmo que um nova-iorquino nunca tenha colocado os pés em uma fazenda, ele gosta de pensar que é um pouquinho caubói em espírito. Isso faz parte do inconsciente coletivo.

Desde os anos 1980, quando a liberdade e o dinheiro começaram a circular na Coreia, o montanhismo tornou-se cada vez mais popular. A porção sul-coreana do Baekdu-Daegan tornou-se escalável em praticamente todos os 735 quilômetros do cume, com trilhas construídas e mantidas pelo Serviço de Florestas, parte do Ministério de Agricultura e Florestas da Coreia do Sul. Hordas de guerreiros de fim de semana invadem as trilhas e alguns mais corajosos encaram o trajeto inteiro, durante dois meses de caminhada.

Na primavera, Gregory enviou por correio o único guia em inglês que fala sobre a trilha. O "spork" foi uma forma sutil de me convidar, mas o guia foi um convite escancarado, que me fez finalmente planejar a viagem para setembro. Há cerca de 10 anos, meu irmão viveu na Coreia do Sul durante quase uma década, mas eu sempre estava ocupada ou "dura" demais para poder visitá-lo. Aos 37 anos de idade, ele estava se mudando para lá novamente, apaixonado pela Coreia, pela língua coreana e por uma coreana. Eu queria entender melhor sua decisão, que parecia ser um tiro no escuro na busca pela felicidade. Queria conhecer o lugar onde ele provavelmente irá viver pelo resto da vida.

Gregory é mais novo que eu, mas acabou virando nosso líder, principalmente depois que deixamos a capital e nos embrenhamos pelo interior, onde não havia estrangeiros, nem pessoas que soubessem inglês, o que nos deixava completamente dependentes de seus conhecimentos de língua coreana.

Logo no segundo dia resolvemos repensar o itinerário. Ao invés de seguirmos meticulosamente a trilha durante seis dias, iriamos entrar e sair, visitando vilarejos e templos pelo caminho. As coisas melhoraram imediatamente. O sol havia finalmente aparecido no céu e estávamos na descida. Logo começamos a acompanhar um riacho, interrompido aqui e ali por corredeiras e piscinas naturais em uma floresta de avelãs, bordos e bétulas. Paramos para conversar com alguns coreanos que estavam caminhando na direção oposta. Ouvi Gregory explicar tantas vezes porque estávamos ali que, com o tempo, aprendi as palavras "irmã" e "cunhado" em coreano.

— As pessoas olham de uma forma diferente quando estamos viajando em família — afirmou depois de outro encontro com montanhistas. — Você não é só um solteirão suspeito.

Duas noites depois, conseguimos chegar ao abrigo do parque, logo abaixo da montanha de Hyangjeok-bong, com pouco mais de 1.610 metros de altitude. Na manhã seguinte, escalamos até o topo, com uma vista de 360 graus só para nós. A leste e oeste havia montanhas em tons de cinza, azul e preto, sobrepondo-se e destacando-se como ondas no oceano.

Depois do pôr do sol, em uma mesa de piquenique em frente ao abrigo, encontramos os dois montanhistas mais bem equipados que vi na vida. Kwang Sub Shin e Jin Koo Suk trabalham para um banco em Seoul e escalam diferentes partes do Baekdu-Daegan todos os fins de semana. Os dois tinham lanternas presas à cabeça e escutavam música em um celular ligado a uma bateria solar. Garrafas de vinho de arroz supergelado enchiam a mesa, enquanto Suk cortava pedaços de batata doce e os colocava em uma panela com caldo de peixe fervilhante. Em outro fogão, nossos novos amigos serviam churrasco de pato bem quente. Eles nos fizeram sentir vergonha do arroz, curry e macarrão instantâneo que estávamos comendo.

Felizmente, tínhamos duas coisas para acrescentar ao banquete e ambas causaram reações controversas quando as colocamos sobre a mesa (quanto menos peso melhor): pêssego em calda e caixas de soju, o refresco nacional. A temperatura caiu com o anoitecer, mas o vapor e os aromas da mesa nos mantinham aquecidos. Com Gregory traduzindo, perguntei a nossos novos amigos se eles achavam que a metáfora do caubói fazia sentido. Todos os coreanos têm um espírito um pouco montanhista? Shin olhou para cima e disse simples e enfaticamente que "sim".

Depois de caminharmos por mais um trecho do Baekdu-Daegan, saímos do parque nacional e tomamos um ônibus que passava por plantações de alho, pimenta, abobrinha e ginseng. Ainda tínhamos uma última parada antes do fim da peregrinação, o templo budista de Haeinsa, no cume do Monte Gaya. Naquela ensolarada tarde de domingo, multidões de turistas urbanos faziam a curta caminhada entre o estacionamento do parque e o templo vestindo trajes de gala – roupas elásticas, botas pretas e supercalças – como se o equipamento fosse um tipo de vestimenta religiosa moderna.

Alguns templos – incluindo o Haeinsa – permitem que os visitantes passem a noite, mas é preciso seguir as regras do lugar. Gregory e Joe foram enviados para um quarto muito simples e eu fiquei em outro lugar. Comemos em silêncio no refeitório dos monges e, pouco antes do anoitecer, nos reunimos no pátio central, repleto de pavilhões esculpidos e beirais pintados, onde um jovem monge de roupa marrom e cinza batia em um tambor mais alto que ele, enquanto o som grave ecoava pelas montanhas. Quando escureceu, subimos à sala de oração, onde Budas dourados brilhavam como ouro. Tiramos os sapatos e nos sentamos perto de uma janela aberta. A cantoria aumentava e diminuía ao nosso redor.

Não entendi o que estavam cantando, mas finalmente entendi as razões que levaram Gregory a escolher aquele lugar. Ele havia aprendido o bastante para saber que ainda havia muito que aprender.

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