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Vendedores espertos30/11/2012 | 15h01

Leitora conta sobre os mudos que falam no Marrocos

Mudos marroquinos tentam de tudo na tentativa de tirar uma graninha extra vendendo coisas ou auxiliando os turistas

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Leitora conta sobre os mudos que falam no Marrocos Arquivo pessoal/arquivo pessoal
Lígia Halmenschlager em Marrakesh, no Marrocos Foto: Arquivo pessoal / arquivo pessoal
LÍGIA HALMENSCHLAGER*

ligiamh@terra.com.br

É em Marrakech, naqueles labirintos que nem Alá se acha, onde mudos até falam, na tentativa de tirar uma graninha extra vendendo coisas, ou no auxílio ao turista desavisado que se embrenha por lá, que fomos visitar as medinas. O tal mudo era um “ajudante de guia” nesses emaranhados que qualquer vivente se perde lá no Marrocos.

Quem não gosta nada disso é a tal polícia turística, que está a postos para barrar qualquer tentativa de mudo querer ser guia. E até falar, servindo de intermediário numa negociação de venda de peças de seda, imaginem! Mas ele é mudo, ou quase, mas burro, não. Burro é aquele que serve pra levar carga pelas medinas da vida.

“Son ocho euros”, explica a vendedora de bugigangas em frente aos hotéis. Ou aqueles ambulantes que vendem pochetes ou bolsas de couro (fedidas), tingidas com qualquer anilina, como legítimas: “Só diez euro, señora”. Sim, porque eles falam um espanhol, com sotaque árabe, pra não perder o freguês. O choro funciona, porque não existe negociação no Marrocos sem pechincha. E não é em dirham, moeda local, só em euro. E pra vender não tem mês de Ramadã que os impeça de tentar passar coisas falsas por verdadeiras.

Eles não bebem, e jejuam, durante o Ramadã, mas deixar de vender, nunca! À noite, depois que o sol se põe, os homens vão aos bares beber... chá de hortelã, só eles. Lá, a emancipação feminina ainda está longe de acontecer. Houve tempo em que as casas não tinham janelas, pra não tentá-las a ver o que acontecia na rua. Já os machos casam com quatro mulheres, além de ter tantas concubinas quantas puderem sustentar, e “a favorita”.

Enquanto você morre de medo de se perder nas medinas, quase morre de tanto comer as delícias marroquinas, com amêndoa, ameixas, mel e especiarias! E os doces, naquela profusão de cores e formatos, espalhados nas bancas das medinas? Se bem que, às vezes, o mau cheiro dos cortes de carne de cordeiro ou gado na banca em frente não permite que você consiga parar para apreciá-los.

E as belíssimas avenidas, com palmeiras, fontes, flores e até pés de olivas, que cortam cidades como Marrakech e Fez. É tanto verde que você esquece que está no Marrocos. E os hotéis são contos de mil e uma noites! Com fotos do rei, claro, sempre um Mohammed ou um Hassan.

Quase esqueço, o nome do tal mudinho que “falava” com a gente era o Mohammed. Nenhuma novidade.

*Revisora

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