Itália04/05/2012 | 08h02

Conheça a verdadeira Sicília

Se o turista quer uma experiência realmente siciliana, precisa virar as costas para as cidades turísticas e ir ao oeste da ilha italiana. Pelo menos é o que dizem os moradores

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Conheça a verdadeira Sicília Sandro Bedessi,Fototeca ENIT/Divulgação
O oeste siciliano tem vastas salinas pontilhadas com pitorescos moinhos de vento de telhados vermelhos Foto: Sandro Bedessi,Fototeca ENIT / Divulgação
LIZ BOULTER

Havia manteiga e embalagens de Nutella na mesa. Mas por que comeríamos o café da manhã de um milhão de hotéis internacionais quando poderíamos aproveitar a verdadeira experiência siciliana?

O café da manhã dos habitantes da vila de pescadores de Scopello, a oeste de Palermo, consiste de pão – ainda quente da padaria – mergulhado no azeite de oliva feito nas proximidades, salpicado e comido com queijo pecorino e, é claro, um bom e forte café.

Marisin, nossa anfitriã na Pensione Tranchina, também serviu geleia e bolos caseiros no café da manhã, e seu jantar foi um deleite: massa com ervas e vários vegetais, seguida de peixe capturado ali mesmo (assado no sal uma noite, e com camarões enormes na outra). A sobremesa, geralmente, é à base de outra especialidade siciliana, a ricota.

Acabamos no extremo oeste da Sicília por obstinação.Todos com quem falamos sobre a nossa viagem diziam as mesmas coisas:" Cefalù, Taormina... você vai amar, lugares incríveis... Taormina, Cefalù". Quando até mesmo, no avião, um jovem e simpático morador de Palermo repetiu o mantra, nos decidimos. A Sicília é grande. Então, de Palermo, literalmente viramos as costas aos pontos populares e nos dirigimos ao" oeste selvagem".

A cinco minutos de carro de Scopello, fica a reserva natural de Zingaro, uma faixa de sete quilômetros de costa intacta e montanhas elevadas, onde um guia nos mostrou como encontrar o funcho selvagem utilizado na clássica pasta con le sarde ( massa com sardinhas) siciliana. A reserva tem algumas belas baías de cascalho e três refúgios montanhosos que oferecem pernoite gratuito.

A outra atração da vila é sua pitoresca Tonnara, ou pescaria de atum, com cabanas de pescadores e velhos depósitos ao redor de uma pequena baía. Parte do filme Doze Homens e Outro Segredo foi filmada aqui. Esse era apenas um pedaço da Sicília ocidental – então, rumamos ao seu montanhoso interior.

– Esta é a verdadeira Sicília – declarou nosso anfitrião Paolo Barbon, olhando para as montanhas e o céu estrelado perto da vila montanhosa de Contessa Entellina, depois de preparar um jantar com ingredientes locais, em sua maioria orgânicos.

Comida farta e hospitalidade

Barbon se referia à maneira como os pontos turísticos do norte e do leste estão maculados por ônibus de turismo, pubs irlandeses e redes internacionais de restaurantes.

Mas Paolo não é um siciliano verdadeiro: cresceu em Veneza e trabalhou como chef em hotéis cinco estrelas em todo o mundo antes de se mudar para cá e construir um olival orgânico. Ali, ele construiu um B& B (bed & breakfast, hotel que oferece cama e café da manhã) ecológico, com camadas espessas de cortiça para isolamento.

Chamado La Rocca dei Capperi, o estabelecimento é popular entre ciclistas e andarilhos. O dia seguinte foi a festa de San Giuseppe (São José), em Contessa. A banda da vila estava tocando nas ruas, e as pessoas se aglomeravam para um altar improvisado na praça, levando oferendas de frutas, pão, doces, frittatas (espécie de omelete). Justo quando o altar parecia a ponto de desmoronar, uma dona de casa chegava com outra travessa, e se arranjava mais espaço.

As pessoas pareciam encantadas por termos encontrado o festival e nos encheram de comida, conversas sobre antigamente e o terremoto de 1968, quando cidades próximas foram destruídas. Eventualmente, incapaz de olhar para outro prato de donuts ou travessa de grão de bico torrado e ouvir as palavras " mangia, mangia" ("coma, coma", em português), conseguimos partir. Uma jovem sorridente embrulhou dois pães dourados e os entregou em minhas mãos.

Mas, se era essa a verdadeira Sicília, por que estávamos ouvindo uma língua estranha, não a italiana, nem mesmo o dialeto siciliano? E por que a igreja católica local estava silenciosa e vazia, enquanto morro abaixo estava uma igreja bizantina, com incensos, ícones e padres com aparência grega?

Isso, aprendemos, era porque Contessa é parte da comunidade albanesa da ilha, fundada no século 15 por mercenários lutando pelos governantes aragoneses. Sua língua, " tabresh", ainda vive. Verdadeira Sicília? Humm.

Influência africana é forte

Fomos em direção ao mar, desta vez para Baglio Vajarassa, uma propriedade de turismo rural pertencente a Dino Agate, que cultiva videiras nas planícies costeiras de Marsala. Ele usou as mesmas palavras de Barbon:

– Esta é a verdadeira Sicília – declarou Dino, logo depois do jantar. Apenas balançamos a cabeça, nos sentindo cheios após uma refeição que parecia mesmo ser a essência da ilha: massa com alcachofras frescas e óleo de pimenta caseiro, uma esplêndida tainha (pescada na noite anterior por Dino, em seu barco, com um arpão) e um gostoso bolo de limão.

Mas se era essa a verdadeira Sicília, por que se parecia com o norte da África? Talvez porque quase é: a Tunísia está a menos de 160 quilômetros dali. Vilas poeirentas têm um jeito saariano, torres de igrejas parecem minaretes, e fazendas têm a forma de um baglio (uma casa fortificada rodeando um pátio interno, algo muito mouro). Há kilims (tapetes típicos) nas lojas e cuscuz em restaurantes.

Dino trouxe garrafas do famoso vinho local depois do jantar. Descobrimos que o marsala verdadeiro é seco e saboroso – açúcar é adicionado para exportação. Combinou com os sabores que tínhamos experimentado a semana inteira: ervas pungentes, raspas cítricas, alcaparras, pimenta. E um ingrediente realmente ressalta todo o resto: sal marinho local.

Da fazenda de Dino, conseguíamos ver a Ilha de Mozia, na Lagoa Stagnone, famosa durante milhares de anos por seu sal. O barco de travessia dos pescadores locais para a ilha nos levou por vastas salinas pontilhadas com pitorescos moinhos de vento de telhados vermelhos, utilizados para bombear a água do mar. Há um museu com um moinho de vento restaurado, e, no verão, você pode observar trabalhadores em galochas e chapéus colhendo sal com carrinhos de mão.

Os fenícios tinham uma colônia na Ilha de Mozia. Você pode visitar as ruínas, e um museu inclui uma estátua do século 5 a.C., do que deve ter sido um jovem agricultor do mundo antigo. Giovinetto di Mozia tem belos cachos e um robe plissado, e, apesar de seus braços não estarem ali, uma mão permanece em um quadril saliente perfeito.

Bom, se velhas pedras não são de seu agrado, a ilha vale a viagem por si mesma, com seus vinhedos e suas pequenas praias. Você pode caminhar por ela em uma hora.

Antigo navio de guerra

A cidade de Marsala (seu nome deriva de Marsah Allah – porto de Alá) tem agradáveis ruas antigas para pedestres e montes de lojas interessadas em que você prove seu vinho.

Seu outro motivo de fama é um dos navios de guerra mais antigos do mundo: os destroços de uma embarcação púnica de 240 a.C. Abrigado no museu arqueológico de frente para o mar, foi escavado em 1969 pelo britânico Honor Frost, que morreu em 2010, aos 92 anos.

Britânicos, albaneses, fenícios, árabes, espanhóis (gregos e normandos estiveram aqui por um tempo também). Bandos sucessivos de colonos e comerciantes estiveram todos, provavelmente, inclinados a declarar, depois de um bom jantar, que encontraram a verdadeira Sicília. Ela provavelmente não existe, porém, o selvagem e acolhedor oeste da ilha é um excelente lugar para falhar na busca.

Tradução: Guilherme Justino

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