Sob o domínio do mal22/03/2013 | 04h02

Premiado em Cannes, filme "Depois de Lúcia" aborda a violência juvenil

Filme mexicano mostra uma realidade sem estereótipos comuns da sala de aula

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Premiado em Cannes, filme "Depois de Lúcia" aborda a violência juvenil imovision/Divulgação
Filme mexicano "Depois de Lúcia" estreia nesta sexta-feira na Capital, mostrando uma realidade sem estereótipos Foto: imovision / Divulgação
Assunto velho mas sempre presente na vida real e na sua representação ficcional, a violência no ambiente escolar poucas vezes ganhou um registro tão contundente quanto o que se vê em Depois de Lúcia, filme mexicano que estreia nesta sexta em Porto Alegre.

O impacto resulta da forma inventiva com que o diretor Michel Franco encena o martírio psicológico e físico da jovem protagonista, destacando o quanto pode ser assustadora a bestialidade quando ela se mostra travestida de inocência inconsequente.

Festival de Cannes reconheceu essa qualidade concedendo a Depois de Lúcia, em 2012, o prêmio de melhor filme da Mostra Um Certo Olhar, a segunda competição mais importante do evento – participaram daquela edição obras como o argentino Elefante Branco e o americano indicado ao Oscar Indomável Sonhadora.

Depois de Lúcia tem como ponto de partida a mudança do chef de cozinha Roberto (Gonzalo Vega Jr.) e sua filha de 15 anos, Alejandra (Tessa Ia), da cidade litorânea de Puerto Vallarda para a Cidade do México. Na metrópole, eles esperam se recompor da morte da mãe da garota (a Lúcia do título) em um acidente de carro. O trauma é profundo em ambos. Roberto começa a trabalhar em um restaurante, e Alejandra inicia a rotina escolar tateando o território até encontrar sua turma.

A integração da tímida estudante transcorre sem maiores sobressaltos até ela se envolver com um rapaz cobiçado pelas amigas e, pior, ingenuamente se deixar gravar pela câmera do celular dele num momento de maior intimidade. O garoto espalha o vídeo na internet, e a vida no colégio torna-se uma provação diária para ela.

A passividade com que Alejandra se entrega à rotina de humilhações e agressões pode ser interpretada de diferentes formas: se preservar o já abalado pai de um desconforto emocional maior parece uma motivação frágil para ela suportar o calvário, talvez a garota enxergue, em seu processo de libertação dos traumas do passado e do presente, que anular por completo sua persona, como um suicídio social, é a única forma possível de retomar a vida literalmente do zero. É um questionamento que fica em suspense em meio a sequências de brutalidade nauseante, mas que não parecem exageradas ou gratuitas – Michel Franco escreveu o roteiro a partir de entrevistas com jovens vítimas de violência na escola.

O desconforto provocado por Depois de Lúcia, sobretudo a pais e professores, decorre da narrativa seca e direta proposta pelo diretor. Franco não usa trilha sonora, seu jovem elenco (exceto Tessa, são quase todos amadores) empresta grande realismo no registro desse efervescente universo e sua câmera mais observa do que interfere no cenário. É particularmente engenhosa, por exemplo, a forma como o diretor usa a câmera fixa dentro dos carros e, no espetacular clímax, na lancha, conduzidos pelo pai de Alejandra, como a sugerir o ponto de vista de alguém que está dentro da ação como passageiro, incapaz de interferir no desfecho da cena ou mesmo visualizá-la por completo.

Outro aspecto merecedor de destaque: não se vê no filme os estereótipos comuns da subdivisão da sala de aula em castas de populares, nerds e valentões, elementos facilitadores da dramaturgia mais rasa. Os jovens representados em Depois de Lúcia são aqueles capazes de cometer – ou serem coniventes com – agressões terríveis e, instantes depois, confrontados com a autoridade de um pai ou professor, mostrarem-se figuras frágeis incapazes de assumir ou compreender as consequências de suas atitudes. Identificar os lobos convivendo com os cordeiros, disfarçados sob o mesmo uniforme, segue sendo um desafio para a escola e para a sociedade.

Leia mais: "Depois de Lúcia" é a mais recente amostra do vigor do cinema mexicano.

Depois de Lúcia
De Michel Franco. Com Tessa Ia e Gonzalo Vega Jr.
Drama, México/França, 2012.
Duração: 93 minutos.
Classificação: 14 anos.
Em cartaz a partir de sexta-feira no Espaço Itaú 3 e no Guion Center 3.
Cotação: 4/5

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