Monique Revillion fez uma estreia de luxo na literatura em 2006, com o elogiado volume de contos Teresa, que Esperava as Uvas. Na época, em entrevista a Zero Hora, a autora comentou que demorava muito para escrever, apegada ao cuidado da palavra.
Talvez isso explique os sete anos que separam a estreia do segundo livro, O Deus dos Insetos, que ela autografa nesta quarta-feira, às 19h, na livraria e café Palavraria, na Capital. O novo título mostra Monique trilhando com mais afinco as veredas que abriu com seu primeiro livro, em especial no uso de uma linguagem sólida, poética, flagrando momentos definidores na vida de um personagem – a ação nas 11 histórias é muito mais interna, situada no universo de sensações dos personagens.
Assim como já havia feito em seu livro de estreia, Monique sustenta o conjunto das narrativas de O Deus dos Insetos em dois eixos: epifanias íntimas de clara inspiração clariceana, por vezes (mas nem sempre) unida a um olhar compassivo mas implacável sobre aqueles que se chamaria de "desvalidos". É justamente dessa segunda linha de força que saem os melhores textos do livro, talvez pela contenção demonstrada pela autora no manejo da linguagem – nos contos epifânicos, ela voa mais, com mais resultados sublimes e mais vales de afetação. Já no primeiro livro, alguns dos melhores textos vinham justamente dessa segunda vertente, como o angustiante Presente.
Neste livro, o fenômeno se repete, e as gemas da obra estão nas histórias que dedicam um olhar atento para as armadilhas em que se veem presos os que já têm muito pouco. É o caso do belo e imensamente triste Atravessar Oceanos, no qual um menino pobre vê, em uma peneira de futebol, a chance de ter condições de ir atrás do pai desconhecido que inventou para si mesmo.
Em Jônatas, outro menino pobre, também marcado pela paternidade ausente, se vê praticamente compelido a inventar um pai para não se sentir diminuído diante de um garoto classe média que encontra no outro lado de uma grade. Nem sempre, contudo, a atmosfera imprecisa buscada pela autora funciona a contento, como em Memorial, no qual o final impactante se dilui pela concatenação algo confusa dos eventos – um risco da linguagem escolhida pela autora. Mas é sempre um elogio identificar um autor que se propõe a correr riscos.









