A artista lembra que o prédio projeta uma sombra extensa na redondeza, privando da luz do sol os vizinhos, especialmente os que moram em casas.
Esse crescimento urbano que a artista considera equivocado é o tema da exposição De Ponta-cabeça: Prédios Versus Casas, a primeira individual em três anos, que será inaugurada na quinta-feira, às 19h, na galeria Bolsa de Arte, na Capital. São trabalhos em diversos suportes, criados, na maioria, desde 2012.
– Em vez de fazer um bairro planejado, eles simplesmente vendem casas para colocar um espigão no lugar. A casa que fica ao lado deste prédio não terá mais sol nunca. Não sei se isso está certo – questiona a artista.
Tomaselli argumenta que a história da cidade está sendo perdida com a proliferação de grandes empreendimentos imobiliários:
– Porto Alegre seria uma cidade açoriana com um potencial turístico incrível se tivessem preservado o Centro com a memória dos primeiros que estiveram aqui.
A metáfora foi encontrada em uma instalação do artista Erwin Wurm que Tomaselli viu em Viena. O austríaco posicionou uma casa encravada, de ponta-cabeça, no teto do Museum Moderner Kunst (MUMOK). Intitulada House Attack, tornou-se, para Tomaselli, um símbolo de que as coisas estão viradas do avesso. Essa imagem aparece em mais de um quadro da exposição na Bolsa de Arte – alguns deles sobre lona e outros sobre tela.
Também fazem parte da mostra objetos em gesso, uma escultura em ferro e gesso e os "cutucos", como a artista chama pequenas esculturas em ferro criadas para serem penduradas em meio a plantas, como forma de atrair a atenção para a natureza. A artista defende que, ao contemplar os cutucos, o observador se aproxima das plantas que o rodeiam, como se fosse cutucado. Explica que descobriu a "função" dos cutucos acidentalmente:
– Certa vez, pendurei nas árvores porque não sabia onde botar e, de repente, vi ao fundo um cipó que se enroscou em um tronco. Nunca tinha reparado nesse cipó antes. Se não tivesse pendurado o cutuco, não teria visto. Quando colocamos algo na frente, enxergamos o fundo.
Outro segmento da mostra contará com desenhos que Tomaselli assinou para uma edição de colecionador do Poema Sujo, de Ferreira Gullar. Sobra espaço, na exposição, para a crítica dos costumes. Morar no 19º andar reserva para a artista uma média de quatro longas viagens diárias de elevador, segundo seus cálculos. Isso motivou uma escultura em ferro em gesso.
– Depois de oito anos subindo e descendo o elevador do prédio, continuo achando uma experiência estranha. Você parece íntimo das pessoas, mas não é. Só se pode falar sobre o tempo. Não temos nada em comum com as pessoas que andam de elevador conosco. É muito estranho.









