Uma Bíblia enfocando os coadjuvantes perdidos da história mais conhecida de todos os tempos: a pomba que Noé soltou da arca para procurar terra após o dilúvio, um demônio na portaria do Inferno, o escravo de Jó que assiste à desgraça e às tentações de seu amo. É esse o espírito (menos de porco e mais de homenagem) de A Bíblia Segundo Beliel, livro no qual Flávio Aguiar, pesquisador e professor de literatura da USP, retoma os mitos do passado e lança um olhar para o fim dos tempos e o destino da Criação.
O livro estrutura-se como uma coleção de textos reunida por um anjo mais do que torto: o Beliel do título, e alia leveza com reflexões profundas e ousadas sobre religião, fanatismo, crença e descrença, justiça e amor – como objetivo e possibilidade de redenção da humanidade. Na entrevista a seguir, o autor fala sobre a obra que autografaria ontem em Porto Alegre, sua cidade natal.
Cultura – Como surgiu o livro?
Flávio Aguiar – Ele me atacou. Eu estava imerso em outros projetos. Um romance que começa na época anterior à Ditadura de 1964, a atravessa e conclui no começo do século 21. Ou uma tradução, que estou fazendo, do diário incrível de uma princesa russa que passou a II Guerra em Berlim e acompanhou muito de perto a conspiração para matar Hitler em 1944. Ou ocupado com meus trabalhos de jornalista correspondente na capital alemã. E de repente, não mais mas nem menos do que de repente, o livro me assaltou, me tomou, e me obrigou a escrevê-lo. Ele veio à luz em poucas semanas, às quais se seguiram as inevitáveis revisões, etc. Foi uma possessão. Passei muitos anos estudando a Bíblia, ou melhor: as Bíblias como fontes literárias e das demais artes. Mais da metade das literaturas e das artes que estudamos e curtimos são incompreensíveis sem um conhecimento mínimo das diversas Bíblias. Até um autor declaradamente ateu, como Machado de Assis, é profundamente bíblico. Acho que de repente isso se materializou numa reescritura do que eu lera e me
inspirara na minha vida de professor e crítico literário. Como se todo esse mundo acumulado pegasse um desvio da linha e saísse em busca de um caminho próprio. Por isso não consigo dizer, por exemplo, que o livro é meu. Ele é mesmo do Beliel, esse anjo torto que se materializou em mim. Eu fui apenas seu porta-voz.
Cultura – O título de seu livro, A Bíblia Segundo Beliel – Da Criação ao Fim do Mundo: como tudo aconteceu e vai acontecer, autoriza a pergunta sobre as superstições a respeito do fim do mundo. Como tudo de fato vai acontecer?
Aguiar – Da melhor forma possível. Aliás, como acontece no Apocalipse de São João Evangelista. Só que com alguns detalhes que São João não previu nem talvez pudesse prever. Afinal, levo uma vantagem: estou quase dois mil anos mais perto do fim do mundo do que ele estava. Não quero adiantar que detalhes são esses, para não estragar a surpresa dos eventuais leitores. Posso dizer, no entanto, que sim, é verdade que A Bíblia Segundo Beliel glosa as teorias e previsões sobre a proximidade do fim do mundo. Não apenas aquelas de origem religiosa, mas também aquelas de natureza científica ou histórica. Minha geração cresceu sob o temor de que a Guerra Fria – depois das hecatombes da II e da I Guerra Mundial – nos levasse diretamente ao fim do mundo. O risco de uma catástrofe atômica diminuiu, mas não está descartado: veja-se a situação no Oriente Médio, seja lá por que prisma ou lado se queira encará-la. Agora fala-se também no aquecimento global, no efeito estufa, e vive-se em meio a furacões tropicais que invadem as regiões mais temperadas, como no caso do Sandy. Pior: houve até um candidato na eleição norte-americana que dizia que tudo isso era balela, que não há efeito estufa provocado pelo homem, etc. Como diz a tradição, o pior do diabo é fazer-nos crer que ele não existe. Para onde olhemos, deparamos com uma perspectiva de fim de mundo. A Bíblia segundo Beliel, portanto, é um livro perfeitamente realista: uma leitura do nosso tempo.
Cultura – Podemos considerar que o livro forma uma espécie de prisma? Textos que se espelham, que ocupam vértices opostos, que divergem ou convergem?
Aguiar – De fato, A Bíblia Segundo Beliel lembra um caleidoscópio: pedras e contas que se repetem, mas de forma inusitada e surpreendente. Neste sentido, ele segue rigorosamente as tradições bíblicas, que são de livros que se comentam e se esclarecem mutuamente. Vou dar um exemplo. No Evangelho de São João, o pregador João Batista chama Jesus de “o Cordeiro de Deus”. Por quê? Uma das razões está no Gênesis, mais precisamente na história do sacrifício de Isaac, que não se realiza porque na última hora a Providência intervém e mostra a Abraão o cordeiro preparado como oferenda. O cordeiro salva o homem: por isso João Batista deve chamar Cristo de “Cordeiro de Deus”: trata-se de reler o elemento profético do Velho Testamento transposto para um outro contexto, o do Novo. Mesmo dentro do Velho Testamento a imagem do Cordeiro como metáfora do Messias é retomada, como em Isaías (53:7), quando o profeta diz que este, “como um cordeiro, foi levado ao matadouro”. Vali-me também dessa estrutura de espelhamentos: certas imagens são continuamente retomadas, outras reaparecem naquele final apocalíptico.
Cultura – Adoraríamos ter podido passar o seu livro para o Scliar resenhar. Desde o paraíso, o que ele escreveria?
Aguiar – Agora vocês querem me atribuir um papel de médium... Bom, em primeiro lugar, teria sido uma honra ter o Scliar como leitor, e mais ainda como resenhista. Estou certo que uma das coisas que ele apontaria é ser A Bíblia Segundo Beliel um livro ecumênico, que enfrenta e nega as intolerâncias que hoje campeiam à solta pelo mundo: intolerâncias religiosas, étnicas, culturais, sexistas, nacionais, continentais... e por aí vai. Scliar tinha um espírito ecumênico, aberto, universal, ele era um “sanitarista da alma”, se me permitem a ousadia, sem ser moralista nem chato. Ao contrário, era alegre, divertido, aprendi muito com ele e sua escrita inventiva.
Cultura – O Paraíso, país do futuro, está em transformação. O que quer dizer isto?
Aguiar – Estamos bordejando perigosamente revelações sobre o esperado fim do mundo, que não quero adiantar... pois essa é uma das imagens finais do livro. Mas posso adiantar o seguinte: como no Evangelho de São João, o de Beliel procura captar no Paraíso, ou em torno dele, uma aura de paz para a humanidade. Isto é, em ambos os casos, uma transformação radical. Porque o Paraíso é, antes de tudo, um símbolo extremamente perigoso. Quando eu dava aulas na USP, e frequentemente abordava a presença de imagens bíblicas nas literaturas e nas artes, eu sempre dizia aos alunos: o Inferno é, no mais das vezes, melhor do que o Paraíso. Vejam só: no Inferno, qualquer um pode entrar (de vez em quando eu dizia: “é que nem galpão de gaúcho, sempre tem lugar pra mais um”). Já no Paraíso, precisa ter carteirinha, ser sócio, porque o Paraíso é um clube fechado. Se for um Paraíso brasileiro, então, precisa ter despachante, certidão com firma reconhecida... Outra coisa: ninguém faz guerra contra um outro povo para mostrar “que o seu Inferno é o verdadeiro”. Já o Paraíso... Portanto, se conseguíssemos transformar a ideia de um Paraíso numa imagem de confraternização, de tolerância, de abertura... Isto seria uma transformação radical: provaríamos que “um outro mundo é possível”.








