Roqueiros judeus13/03/2013 | 13h02

Crônica: O rabino há de entender

Éramos tão ingênuos que não gostávamos de rock por causa das garotas, mas porque a música nos fazia sentir especiais

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Fábio Prikladnicki

fabio.pri@zerohora.com.br

Não amávamos os Beatles e os Rolling Stones, mas sim o Metallica e o Iron Maiden. Nosso grupo era minoritário. No Colégio Israelita dos anos 1990, gostar de rock não tornava você popular. Os pais tinham medo daquele som. Éramos tão ingênuos que não gostávamos de rock por causa das garotas, mas porque a música nos fazia sentir especiais.

Nosso projeto era de longo prazo. Sonhávamos em montar uma banda. Mas ninguém havia nos dito que judeus podiam ser roqueiros. Mais do que isso, o rock, para nós, era coisa de goim, ou seja, de não judeus. Era uma fantasia que fazia parte da nossa revolta estudantil. Qual o sentido de ouvir as músicas que todos os outros judeus (e não judeus) estavam ouvindo, como Ace of Base, Corona e Scatman John? Músicos judeus, para nós, eram aqueles que cantavam tristes baladas em iídiche no toca-fitas de nossos avós.

Enquanto isso, homenageávamos nossos ídolos pagãos. Nos primeiros anos da internet comercial no Brasil, havia relativamente pouca informação disponível. Criamos um site sobre os Ramones. Roubávamos fotos de outros sites para que o nosso fosse o mais completo. Naquele tempo, ninguém se importava. Recebíamos mensagens de outros fãs; alguns nos escreviam como se fôssemos os próprios Ramones.

Mas, bem, não éramos. Por Deus, onde já se viu roqueiro fazendo bar-mitzvá? A ficha caiu apenas tempos mais tarde, quando começaram a aparecer sites dedicados a listar célebres personalidades judias. Geddy Lee, que tem nariz adunco e tudo, não estava no nosso horizonte porque o Rush foi uma descoberta tardia. David Lee Roth, o lendário vocalista do Van Halen, também. Metade do Jefferson Airplane era de judeus, mas o Jefferson Airplane fazia um som muito leve para o nosso gosto. Bem diferente de Joey Ramone, esta sim uma surpresa e tanto, dessas duras de se recuperar.

Não é difícil explicar a fixação dos judeus por roqueiros correligionários. Os armênios admiram seus semelhantes, e os sérvios, suponho eu, também. É uma maneira de grupos periféricos se sentirem parte do mundo. Os colegas que eventualmente faziam comentários antissemitas no curso de inglês jamais ousariam tocar em um monstro sagrado como Gene Simmons, do Kiss, ainda mais com aquela língua sangrenta de fora, como um Golem pós-moderno. No judaísmo, há uma tradição de não venerar ídolos, exceto o Deus único e eterno. Mas, em se tratando de estrelas do rock, o rabino há de entender.

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