O trecho da canção da Ultramen cai bem para descrever o vazio que a banda deixou ao entrar em hiato, em 2008. Esse débito deve ser zerado quarta e quinta-feira, às 23h, quando o grupo inicia uma série de apresentações que começa no palco do bar Opinião e pode, quem sabe, desaguar em outras capitais do país – e ainda levá-los de novo ao estúdio.
A gravação de material inédito é apenas uma das possibilidades que despontam no horizonte, em direção ao qual os ultramanos caminham, a um passo de cada vez, enquanto tencionam deixar para trás o período em que permaneceram separados.
Não foi um hiato absoluto. Ao longo dos cinco anos em que sua formação desmontou guarda para que cada um perseguisse objetivos pessoais, houve encontros esporádicos: em 2009, o Ocidente recebeu um show com a formação completa, e em 2011, foi Tonho Crocco quem sugeriu outro vocalista para seu lugar enquanto tocava seu projeto solo. À participação especial de Jorjão – que encarna o Síndico no projeto Tributo a Tim Maia –, somou-se a de Fredi "Chernobyl" Endres em um show especial, mas incompleto. As duas apresentações no Opinião devem estar quase lotadas para ver esta Ultramen quase completa.
– Agora calhou de quase todo mundo, inclusive o Tonho, estar disposto e querendo tocar – conta o baixista Pedro Porto.
Da formação mais recente, somente o guitarrista Alexandre Guri, que mora na Nova Zelândia, não pôde vir. Chico Paixão, da Funkalister, assumiu a guitarra nos ensaios, que começaram na quinta-feira passada, quando Tonho chegou do Rio, e o percussionista Malásia, de São Paulo. Há negociações avançadas para shows no Interior, e o desejo de acertar datas em outras capitais. Ainda que não se possa garantir que este é um retorno para ficar, a promessa é de uma Ultramen sedenta por retomar o contato com os admiradores que conquistou em duas décadas de trajetória.
– Está todo mundo muito ansioso com esses shows. Não são apresentações para cumprir tabela. Buscamos levar a banda sempre como uma coisa prazerosa, senão estraga – afirma Pedro. – A entidade Ultramen foi cultivada ao longo de todos esses anos. Sentimos que nos tornamos importantes na vida de muita gente, e isso nos dá muito orgulho e prazer.
O repertório dos shows não está fechado, mas deve incluir ao menos duas músicas de cada um dos quatro discos de estúdio da banda – da estreia homônima de 1998, passando por Olelê (2000), O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias (2002) e Capa Preta (2006). Chance de relembrar por que a banda conquistou um lugar no panteão dos grandes artistas do Estado.
A mistura de rock, funk, hip hop e reggae a referências locais e nacionais da Ultramen ia ao encontro do que outros artistas faziam em outras partes do país, do rock arretado do Raimundos à mistura explosiva de rap e hardcore do Planet Hemp. No entanto, carregava o DNA da música gaúcha, que celebrou em canções como Peleia (que cita Não Podemo se Entregá pros Home, célebre na voz de Osvaldir e Carlos Magrão) e na versão do hino rio-grandense alternativo Amigo Punk, da Graforreia Xilarmônica. Uma identidade que, segundo Pedro, diferencia a Ultramen de suas sucessoras.
– Hoje em dia, vejo muitas bandas legais no Estado, mas elas poderiam ser de qualquer lugar do mundo. Não vejo isso como negativo, mas a Ultramen é uma banda daquela época, traz essa identidade particular – avalia.
Confira vídeo dos ensaios da Ultramen para os shows de quarta e quinta-feira, no Opinião, em Porto Alegre:













