É extensa em território e ampla em sua oferta de cinema a região que ZH apresenta neste especial sobre as grandes cinematografias do século 21. Rússia, Casaquistão, Lituânia, Letônia, Ucrânia e Estônia: conheça, na sexta parte da série publicada durante as oito segundas-feiras de janeiro e fevereiro, um pouco mais destas cinematografias tão distantes e tão tradicionais.
Leia o texto inaugural da série, sobre o cinema da Ásia Extrema
Além de Bergman: quem são os melhores diretores contemporâneos de Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia E ainda: veja os melhores filmes dos países da América, tão próximos e muitas vezes tão distantes A Rússia já foi berço de vanguardas e teorias fundamentais do cinema, desenvolvidas por Eisenstein e companhia há quase cem anos. Sua produção atual honra as tradições: pensa a história do país e as grandes questões de seu tempo absorvendo as tecnologias recém-chegadas e experimentando as novas possibilidades da linguagem.Alexander Sokurov (de Arca Russa, Pai e Filho, Fausto) é o nome que vem naturalmente à cabeça dos cinéfilos diante dessa afirmativa, mas ele não está sozinho. Absolutamente. Andrey Zvyagintsev, recentemente premiado com Elena, e Nikita Mikhalkov, que em 2010 lançou uma sequência do clássico dos anos 1990 O Sol Enganador, são dois expoentes de uma cinematografia que consegue a atenção da crítica internacional com dramas intimistas (4, de Ilya Khrzhanovskiy), títulos de guerra (9º Pelotão, de Fedor Bondarchuk) ou aventura (Kray, de Aleksei Uchitel). Isso além daqueles subgêneros que se confundem com os filmes que os representam, casos da
série de fantasia de Timur Bekmambetov (Guardiões da Noite e Guardiões do Dia) e
dos épicos campais na linha de O Guerreiro Genghis Khan (de Sergei Bodrov), que
levou o Casaquistão ao Oscar em 2008.
Reparou que já cruzamos as fronteiras russas e adentramos num de seus vizinhos da ex-URSS? Muito mais do que o país de Borat, o personagem do filme com Sacha Baron Cohen, este outro gigante da região é o berço de pequenas preciosidades premiadas em grandes festivais e incluídas no Top 10 deste artigo, como Tulpan (de Sergei Dvortsevoy) e Shiza (Gulshat Omarova).Quase sempre em sistema de coprodução com seus vizinhos da Eurásia, as repúblicas da “grande Rússia” fazem longas de procedência difusa, assinados por cineastas da Lituânia (Sharunas Bartas, de Liberdade; EmilisVelyvis,de Zero),da Letônia (Maris Martinsons, de Amaya; Alexander Hahn, de The Last Soviet Movie) e da Ucrânia (Robert Crombie, de Sappho;
Daria Onyshchenko, de Eastalgia).
A exceção é a Estônia. O país da ponta oriental do Mar Báltico vem produzindo longas-metragens de maneira sistemática, invariavelmente em parceria com seus vizinhos nórdicos,sobretudo a Finlândia. Sua dramaturgia,não à toa, frequentemente tem mais a ver com a tradição escandinava do que com a russa. E pode alcançar ápices de qualidade emulando, além do sueco Ingmar Bergman, o espanhol Luís Buñuel e o norte-americano David Lynch – refiro-me à tragicomédia surreal As Tentações de Santo Antônio (2009), assinada por Veiko Õunpuu, realizador que antes já conquistara prêmios internacionais com Autumn Ball (2007).
Esse filme fascinante narra, numa sinopse possível, a viagem moral de um homem tentando fazer o que é certo num mundo hostil à bondade. Lembrou de Minha Felicidade, petardo vindo da Ucrânia que teve sessões em Porto Alegre no fim de 2012? Pois sim: a estreia na ficção do jovem mas já consagrado diretor de documentários Sergei Loznitsa sintetiza a herança de hostilidade,violência e falta de perspectivas que atinge uma significativa parcela da região nestes primeiros anos de século 21. Isso a partir de diversas referências históricas explícitas.
Há quem vislumbre o futuro a partir do passado de maneira mais solar, como Elmo Nüganen (de Nomes em Mármore). E há quem simplesmente aborde as contradições locais, a exemplo de Julia Ivanova, russa radicada no Canadá que assina o festejado documentário ucraniano Family Portrait in Black and White (2011). Há um pouco de tudo nesta terra em que, no cinema, artesania artística rima com contundência política.
Top 10
Filmes produzidos depois do ano 2000 por ex-integrantes da União Soviética:
Arca Russa, de Alexander Sokurov (Rússia, 2002)
O Retorno, de Andrey Zvyagintsev (Rússia 2003)
No Limite, de Aleksei Uchitel (Rússia, 2003)
Shiza, de Gulshat Omarova (Casaquistão, 2004)
4, de Ilya Khrzhanovskiy (Rússia, 2005)
12, de Nikita Mikhalkov (Rússia, 2007)
Tulpan, de Sergei Dvortsevoy (Casaquistão, 2008)
As Tentações de Santo Antônio, de Veiko Õunpuu (Estônia, 2009)
Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa (Ucrânia, 2010)
Family Portrait in Black and White, de Julia Ivanova (Ucrânia, 2011)
Todos os textos da série:
7/1 – Ásia Extrema
14/1 – Leste Europeu
21/1 – Universo Nórdico
28/1 – Oriente Exótico
3/2 – México e América Central
10/2 – União das Ex-Repúblicas Soviéticas
17/2 – Mundo Ibérico
24/2 – Mediterrâneo Oriental













