Uma vida guapa05/02/2013 | 16h02

Prestes a completar 80 anos, Telmo de Lima Freitas celebra a música

O cantor e compositor recebe Zero Hora em sua chácara em Cachoeirinha

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Prestes a completar 80 anos, Telmo de Lima Freitas celebra a música Tadeu Vilani/Agencia RBS
Telmo de Lima Freitas completará 80 anos em 13 de fevereiro Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

– Ainda falta o outro candeeiro – diz Telmo de Lima Freitas, ao comentar o olho recém-operado da catarata.

Um dos mais representativos nomes da música regionalista, Telmo completa 80 anos no próximo dia 13. Entre conversas e dedilhadas no violão e na gaita, os candeeiros dele continuam luminosos.

Telmo recebe ZH em seu galpão, na chácara onde mora com a mulher, a advogada Iara Peres Cardoso Freitas, em Cachoeirinha. Ele é tão desenvolto como contador de histórias quanto como compositor, autor de algumas das músicas mais universais do gauchismo: Esquilador, Prece ao Minuano, Prenda Minha e Nesga da Noite

O galpão mais parece um museu: cada objeto que se acumula pelos cantos e paredes – selas, arreios, pelegos, indumentárias – está impregnado de histórias. Volta e meia, acometido por inspiração à beira do fogo, ele se apressa em pegar um caderno surrado, em que registra poemas e canções.

– Sou uma vertente – afirma, e agradece a Deus.

Prestes a virar octogenário, com a coluna comprometida por dores (“O nome é até bonito, neuropatia”), passa os dias cuidando dos bichos: o cavalo Odin, que deu ao filho Kiko Freitas (aclamado baterista, integrante da banda de João Bosco), as galinhas, o burro Biguá e a cachorrada numerosa.

– Aqui, lembro da chacrinha humilde em que me criei – diz, referindo-se à propriedade no bairro são-borjense do Paraboi.

Dos irmãos e irmãs, o último, Adão, “atendeu ao chamado do nosso Patrão maior” recentemente. Dos amigos, muitos já se foram. Enquanto mateamos, fala de Rui Biriva, que conheceu ainda criança graças à amizade dos pais. Tem memórias boas do truco que jogava com gigantes como Jayme Caetano Braun, quando o jovem enfermeiro Telmo veio morar na Capital, em 1957, em uma peça na Rua João Manoel – antes de trilhar carreira na Polícia Federal, até hoje motivo de orgulho para ele.

A música de Telmo leva o passado ao futuro

Telmo segue praticando a hospitalidade herdada do pai em seu galpão, onde gosta de receber outros chegados: os “irmãos” da família Fagundes, os parceiros Luiz Carlos Borges, Elton Saldanha e Vinícius Brum, a nova geração de músicos como Pirisca Grecco e Érlon Péricles, que têm nele uma referência.

– Trago uma missão, porque tenho respeito por todas as coisas antigas. E não é para mim, que vou fazer 80 anos. O que colhi é essa fraternidade maravilhosa da moçada.

Admirador do trabalho de Paixão Côrtes e Barbosa Lessa por terem cunhado o tradicionalismo, Telmo lamenta os rumos do movimento. Para ele, parte da geração que deveria praticar as tradições perdeu interesse pela cultura gaúcha.

– Hoje, a gurizada está muito preocupada com a música, mas não conhece as coisas do campo. Tem gente que gosta de Esquilador e não sabe o que é descascarrear (remover os excrementos que ficam aderidos à lã da ovelha antes da tosa). Ninguém pode gostar daquilo que não conhece – queixa-se.

O jornalista Renato Mendonça, que entrevistou Telmo, Paixão Cortes, Nico Fagundes e Adelar Bertussi para o livro Pilares da Tradição, rememorou certa vez, ao escrever sobre a Califórnia da Canção, um ensinamento do payador argentino Atahualpa Yupanqui: “O artista deve estar um passo à frente de seu povo, só um passo, para que possam segui-lo”. Em algum lugar, a sina de Atahualpa encontra a de Telmo.

– O trabalho do Telmo é de uma resolução estética muito peculiar. Essa coisa de como a tradição tem de cumprir o rito de trazer do passado para o futuro – diz o músico Vinícius Brum.

Para comemorar as oito décadas, Telmo repetirá o ritual de receber família e amigos para assar um boi, criado no campo que arrenda para os lados de Glorinha. Para acompanhar a carne, bom trago e, principalmente, conversa e música.

Um aparte entre amigos

Ao longo de décadas dedicadas à música, Telmo registrou suas canções em quase uma dezena de discos, entre vinis e CDs.

Diz que não gravou tudo o que gostaria e se mostra ressentido com um amigo, presidente de uma gravadora, que lançou muitos trabalhos seus – nos últimos anos, ele teria colocado no mercado material de Telmo sem consultá-lo.

– Sempre que me ligavam pedindo, eu autorizava – explica. – Amizade é uma coisa de olho no olho. Ninguém é obrigado a ser meu amigo, mas, depois que existe a amizade, não se pode truncá-la.

Em seu galpão, recebe velhos e novos companheiros. O músico Érlon Péricles diz visitá-lo com frequência e vem gravando e inscrevendo canções inéditas do “tio Telmo” nos festivais.

– Faz um ano que estou atrás de uma vanerinha de que eu gostei para burro, e ele está me cozinhando – brinca.

O disco mais recente de Telmo é Aparte, coleção de canções de toda sua carreira. Refletindo a visão de mundo do autor, é um trabalho entre amigos e família. Além de músicos como Joãozinho Índio, Luiz Carlos Borges e Paulinho Pires, participam da produção Cristiano Scherer, a filha Ana Elisa e o filho Kiko Freitas  – de quem Telmo esteve afastado por anos, e que, em Aparte, gravou pela primeira vez sua bateria e percussão em um trabalho do pai.

Comentar esta matéria Comentários (4)

Antonio L. Medeiros

O Telmo é uma referência na música gaúcha e nativa, gêneros estes, que estão perdendo espaço, como ele mesmo afirma, por falta de conhecimento da matéria, sem falar na mistura que alguns "famosos" estão tentando fazer, por ex; roque de galpão, vanerão sambado e outros, nada a ver com nossas raizes.

06/02/2013 | 08h04 Denunciar

luizcarlossoares

tio telmo lembra meu tio herotildes este era domador e dos bons sempre em cima do lombo do cavalo parabens pela data.

06/02/2013 | 06h15 Denunciar

luizcarlossoares

Parabens tio telmo que deus nos deixe o sr por mais varios anos junto de nos familia almeida soares, deixa um pedaço do bolo para nos hehe.

06/02/2013 | 06h08 Denunciar

Joe

que bueno este indio veio estar vivendo todas estas taquaras, taquarussus e carafás para trazer tantas músicas e poesias para querências gaucha, brasileira e de allá saberem admirar o que é bueno e lindo. que venha logo essa vanerinha e algo más, um abraço bem forte pelo teu aniversário.

06/02/2013 | 01h36 Denunciar

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