Entrevista12/02/2013 | 16h03

"Canoas pode ter um protagonismo", diz Luciano Alabarse

Secretário de cultura da cidade, que assumiu gestão em janeiro, relata seus projetos

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"Canoas pode ter um protagonismo", diz Luciano Alabarse Tadeu Vilani/Agencia RBS
À frente da pasta da Cultura em Canoas, Alabarse administra um orçamento de R$ 9 milhões anuais Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS
Fábio Prikladnicki

fabio.pri@zerohora.com.br

Luciano Alabarse, 59 anos, é o responsável pelo Porto Alegre Em Cena, um dos principais festivais de teatro, dança e música do país, que em setembro chegará à vigésima edição. Alabarse é um conhecido diretor teatral. Desde 2012, também é diretor artístico do Natal Luz, em Gramado. Em janeiro, conquistou um novo cargo ao assumir como secretário de cultura de Canoas, administrando um orçamento de R$ 9 milhões anuais. Como titular da pasta, terá o desafio de estimular uma mudança no comportamento dos moradores de Canoas, acostumados a se deslocar para a Capital em busca de cultura. Alabarse anuncia que terá a tarefa de tornar a cidade uma referência no Estado, superando o baixo orçamento com o estabelecimento de parcerias. Ele conversou com a reportagem sobre seus projetos para Canoas.

Zero Hora – Os moradores de Canoas costumam buscar cultura em Porto Alegre. Como o senhor pretende encarar esse desafio?
Luciano Alabarse –
Por isso, o projeto que elaborei se chama Canoas Protagonista. Estamos ligados umbilicalmente (com Porto Alegre), mas são duas cidades, duas administrações, duas secretarias. Quando trouxemos o (grupo francês Théâtre du) Soleil, em 2011, todo mundo foi ao parque Eduardo Gomes, em Canoas. Era comovente, muito bonito de ver. Quando eu faço o Natal Luz, vejo que mais de 1,5 milhão de pessoas vão a Gramado. O que importa para que as pessoas se desloquem aos lugares é que haja atrações realmente qualificadas. Vou trabalhar para desenvolver a ideia de que Canoas pode, sim, ter um protagonismo cultural.

ZH – Qual é seu diagnóstico da cultura de Canoas?
Alabarse –
Não vejo dificuldade em reconhecer que a população de Canoas procura em Porto Alegre as grandes atrações teatrais, por exemplo. Mas é surpreendente também a quantidade de shows de música e de eventos interessantes que acontecem em Canoas. O que importa é transformar essa ideia de que nada acontece em Canoas, inclusive porque é uma ideia errada. Estou vendo que é uma cidade que procura uma identidade cultural. Já conversei com muitos segmentos artísticos da cidade, com grupos de teatro, de dança, com a organização da Feira do Livro, com os  carnavalescos. Falta criar as condições para que não só Porto Alegre descubra Canoas, mas para que o Rio Grande do Sul descubra que há uma cidade que vai investir pesado na área cultural.

ZH – Uma queixa muito frequente é o baixo orçamento das pastas de cultura. Como está essa questão em Canoas?
Alabarse –
Desde que eu me conheço por gente, nunca vi um orçamento desejável na cultura. Por isso, temos que fazer políticas culturais que supram isso. Agora, o que faz a diferença quando um orçamento é baixo? As costuras, as parcerias. Não tenho nenhum problema em fazer parcerias, mesmo no Em Cena. Se eu não tiver patrocinadores, não consigo fazer o festival que imagino. Se o Natal Luz não tiver patrocinadores, não sai daquele tamanho. Nenhum gestor público no Brasil é ingênuo a ponto de pensar que há um orçamento desejável.

ZH – A alternativa são as parcerias com a iniciativa privada?
Alabarse –
Não só com a iniciativa privada, mas com o governo estadual, federal, através dessas leis de incentivo. O orçamento inclusive foi destinado antes que eu estivesse lá, não tenho do que me queixar. No governo municipal, as portas estão abertas para essas parcerias. Também estão abertas no governo estadual, federal e no empresariado, ou seja, a sociedade civil. Onde tiver chance de me deixarem trabalhar, vou apresentar os projetos e ver o nível de credibilidade que darão a essa ideia de transformar Canoas em uma cidade protagonista de provocação cultural.

ZH – A que projetos da secretaria o senhor vai dar continuidade?
Alabarse –
Tenho muita bronca de gente que chega num cargo público e destrói o bom trabalho feito anteriormente ou que acha que vai inventar a roda. Eu não sou assim. Mantive o ex-secretário Flávio Adonis na curadoria do Canoas Jazz. Todos os projetos relevantes serão mantidos, como o Carnaval, a comemoração do Dia do Trabalhador, o Canoas Jazz, a Feira do Livro, o Natal. Agora, se eu fosse para lá apenas para manter esse projetos, não veria muito sentido na minha presença. Tem que manter o que os canoenses estão acostumados e fazer parcerias com os novos secretários, com os artistas, com a categoria local. E pensar no que eu gostaria de ver colocado em prática em nome de uma política cultural. Não vou deixar de pensar que Canoas tem que valorizar a prata da casa, mas também tem que dialogar com o mundo.

ZH – Por exemplo?
Alabarse –
Em abril, vamos levar para Canoas um espetáculo intimista do Soleil (Palavra de Ator). Um dos principais atores do grupo, o Maurice (Durozier), adora o Brasil e está trabalhando muito no Nordeste.

ZH – Outros exemplos?
Alabarse –
Junho é um mês forte na cultura em Canoas. De 1º a 15, acontece a Feira do Livro. Depois, vai ocorrer o 3º Falp (Fórum de Autoridades Locais de Periferia), e o Jairo (Jorge, prefeito) dá muita ênfase para a realização desse fórum. Já nos solicitou que seja uma programação cultural de altíssimo nível. Vai vir o (escritor Ariano) Suassuna com a aula-espetáculo. Ele vem no dia 11 para o Falp e para a Feira do Livro.

ZH – Como será a Feira do Livro?
Alabarse –
É uma feira muito grande. Pedi que o foco este ano seja no autor, e não no entorno. Quero os grandes autores gaúchos, brasileiros. Estou muito motivado para trabalhar em Canoas, porque é uma cidade que precisa assumir o protagonismo que o segundo PIB do Estado exige. É uma cidade rica, grande, com problemas. Só aquela BR cortando a cidade já é um problema e tanto (risos). Como se une uma cidade cortada? Eu acho legal tentar fazer com que isso seja possível.

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