Depois de estrear fora de competição no Festival de Gramado de 2011, entra em cartaz Sudoeste – vencedor dos prêmios da crítica internacional, Especial do Júri e de Melhor Fotografia do Festival do Rio.
O tempo percebido como um perpetuum stabile e os ciclos da vida e da morte experimentados mais em sua dimensão natural do que cultural são duas das características de um dos filmes brasileiros recentes mais instigantes. Diretor de curtas premiados como Terral (1995) e Reminiscência (2001), o fluminense Eduardo Nunes, 43 anos, demorou uma década para realizar Sudoeste (2011). Nunes radicaliza no longa as opções estéticas e narrativas de seus curtas: a fotografia virtuosística, o tempo lento, a paisagem imponente, os sons da natureza em contraste com o silêncio dos homens. Para contar sua história singular, Sudoeste apresenta uma forma igualmente inovadora: a janela de projeção, mais achatada do que o scope convencional, investe na imagem horizontal, propondo uma particular relação entre os personagens e os elementos em cena. A refinada fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr. e os longos travellings laterais que passeiam por uma vila ribeirinha contribuem para desnaturalizar essas paisagens.
Toda essa estetização está a serviço de uma enigmática fábula: em uma remota comunidade, uma mulher morre dando à luz uma menina, que é adotada por uma espécie de bruxa. A criança cresce, amadurece, envelhece – tudo em apenas um dia. Clarice (interpretada por Simone Spoladore na maior parte do filme) tenta desvendar o mistério a respeito de sua origem e a relação entre sua mãe, que saiu de casa grávida, e sua avó. Enquanto a protagonista passa pelo ciclo de uma existência inteira, todos ao seu redor estão vivendo apenas um único dia – aquele em que uma mulher morreu parindo. O elenco inclui ainda Dira Paes, Mariana Lima e Léa Garcia, entre outros nomes.
Em sua proposta radical de exploração das relações entre tempo, imagem e memória, Sudoeste lembra o trabalho de cineastas como Béla Tarr e, especialmente, Andrei Tarkovski. Como o mestre russo Tarkovski teorizava, o diretor brasileiro esculpe o tempo a fim de enfatizar as cambiantes impressões causadas por diferentes observadores – literalmente demonstrando que a noção de passagem do tempo é relativa e sua percepção varia de pessoa para pessoa.
Sudoeste
De Eduardo Nunes, com Simone Spoladore, Dira Paes, Mariana Lima e
Léa Garcia.
Drama, Brasil, 2011. Duração: 128 minutos. Classificação: 14 anos.
Em cartaz no Cine Santander
Cotação: 5 de 5













