Da caricatura até a charge25/01/2013 | 19h10

Série de seis livros resgata a história do humor gráfico brasileiro

Volumes mostram como o desenho humorístico se consolidou na imprensa ao abordar fatos políticos e sociais

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Série de seis livros resgata a história do humor gráfico brasileiro Reprodução/História Caricatura Brasileira
Desenhos de Araújo Porto-Alegre para o Álbum de 1836, do livro História Caricatura Brasileira Foto: Reprodução / História Caricatura Brasileira
Carlos André Moreira

carlos.moreira@zerohora.com.br

Já dizia o empolado lugar-comum que "a pena fere mais do que a espada". Não que seja necessariamente verdade, mas, quando a pena é empunhada por um artista mestre do traço, pode até chegar perto. É o que se percebe no monumental História da Caricatura Brasileira, cujo primeiro volume está sendo editado agora com o subtítulo Os Precursores e a Consolidação da Caricatura no Brasil (Gala Edições de Arte, 530 páginas, R$ 120). Fruto de um extenso trabalho do pesquisador Lúcio Picanço Muruci, um dos acadêmicos com maior reconhecimento na recuperação da história do humor gráfico brasileiro, o livro faz um apanhado das primeiras manifestações do desenho caricatural no Brasil, sua consolidação na imprensa nacional e sua profunda ligação com as circunstâncias políticas e sociais do século 19.

A obra, totalmente impressa em papel couché, com reproduções de cerca de 700 imagens, entre fac-símiles de jornais e pranchas de ilustrações, garimpadas no acervo da Biblioteca Nacional e em coleções particulares, é um dos mais completos trabalhos sobre o humor de imprensa brasileiro. O que está saindo agora é o primeiro volume de uma série planejada para seis. Trata dos precursores da caricatura brasileira e seus grandes nomes do século 19, como o patrono do estilo, o gaúcho Manoel de Araújo Porto-Alegre (leia mais no texto ao lado), ou os destacados Joaquim Barros Cabral, Angelo Agostini, Pedro Américo e Bordalo Pinheiro. O livro inaugural recupera detidamente o trabalho de meia centena de artistas, brasileiros ou estrangeiros residentes no país, que tiveram atuação constante como caricaturistas de imprensa. Um conjunto de tanta qualidade que, segundo Magno, é injustamente obscurecido pelo brilho da geração seguinte, que formou a chamada era de ouro da caricatura brasileira, no início do século 20, com nomes como J. Carlos, Calixto Cordeiro (o K.Lixto) e Raul Pederneiras.

- Claro que o trabalho realizado pelos artistas da primeira década do século 20 é fenomenal, mas se verificarmos o que se fazia no século 19, ainda mais com as técnicas de impressão do período, pode-se ver que ali também tivemos uma idade de ouro, com nomes como Araújo Porto-Alegre, Angelo Agostini, Angelo de Faria. O trabalho daqueles artistas apresenta já uma sofisticação que vamos encontrar mais tarde na geração da era de ouro. Apesar dos meios gráficos do início do século 20, não vejo distinção de qualidade entre um momento e outro - diz Muruci, que assinou o volume com o nome de Luciano Magno.

Magno entusiasmou-se tanto com o material de sua pesquisa referente ao século 19 que o dividiu o período em dois volumes. O segundo título da série deve abordar novamente o desenho de imprensa do período, mas com o foco específico na caricatura sobre Guerras, Diplomacia e Questões Nacionais no Século XIX, como informa o subtítulo. O cronograma de lançamento dos próximos desse e dos outros quatro volumes está previsto até 2016. O terceiro volume deve abordar os trabalhos do alvorecer da geração da era de ouro, no início do século 20. O quarto, enfocará o período da Primeira República até a Revolução de 1930. O quinto, de 1925 a 1960, abordará outros nomes de destaque, como Nássara, Péricles e Millôr Fernandes. O último volume, que poderá ser também desdobrado em dois, de acordo com o autor, contempla os últimos 50 anos da arte da caricatura, já navegando pela história de nomes contemporâneos, como os irmãos Caruso, Santiago, Aroeira e Caulos.

Fruto de uma pesquisa que começou há 15 anos, Os Precursores e a Consolidação da Caricatura no Brasil é preciso em recuperar antecedentes anônimos da caricatura no Brasil. Embora reconheça Araújo Porto-Alegre como o merecido patrono da arte, Magno desencava experiências anteriores do uso da caricatura como ferramenta satírica, mais especificamente em periódicos da imprensa pernambucana em 1822. O mais antigo deles, O Maribondo, é ilustrado com a figura de um corcunda tentando espantar um enxame de marimbondos.

No auge das tensões entre brasileiros e portugueses no ano da Independência, o jornal transformava em imagem uma ofensa dirigida aos portugueses aqui residentes, os "corcundas", cuja corcova era associada à submissão diante do poder central europeu. A ilustração é consideravelmente mais antiga que a estampa A Campainha e o Cujo, de autoria de Porto-Alegre, publicada em 1837 e normalmente apontada como a mais antiga caricatura publicada no Brasil. As pinturas de um artista paranaense chamado João Pedro, o Mulato, datadas entre 1807 e 1817, também apresentam sátiras a figuras do poder, mas, como lembra Magno, não contam exatamente como caricaturas por não terem circulado em meio impresso.

A vinculação com a imprensa e a transformação de acordo com a evolução dos métodos gráficos são pontos centrais do desenvolvimento da caricatura, de acordo com o livro. Surgida em estampas postas à venda de modo avulso nas ruas, a caricatura logo encontrou seu lugar de direito em revistas, pasquins e panfletos, assinados ou anônimos, a maioria de vida breve e a serviço de causas políticas. O pioneiro Araújo Porto-Alegre, dono de um traço elegante e com um senso de humor aguçado, atuou como um chargista constante, mas deixou 70 trabalhos impressos, número reduzido se comparado com os artistas que viriam depois: seu processo de impressão se dava por meio de litogravura, bem mais complexo do que outras técnicas desenvolvidas mais tarde.

A liberdade de imprensa e a crítica

Outro ponto curioso recuperado pelo livro é o trabalho artístico realizado por nomes que hoje são mais lembrados por suas obras literárias. É o caso de Aluísio Azevedo (1857 - 1913), de O Cortiço e Casa de Pensão, que teve caricaturas e charges editadas em jornais como O Fígaro, em 1876, e O Mequetrefe, em 1877. Raul Pompeia (1863 - 1895), autor de outro clássico brasileiro do século 19, O Ateneu, também atuou como chargista e caricaturista, com trabalhos publicados sob o pseudônimo de Rapp a partir de 1881. Seus desenhos, clássicos e detalhistas, foram mais de uma vez colocados a serviço de causas políticas, como o abolicionismo, a República e o nacionalismo exaltado.

Esta é outra característica da caricatura presente já desde as origens: sua natureza de arte política, voltada para a crítica, por vezes demolidora, dos personagens retratados. Portanto, não é estranho que muitas figuras de autoridade dominem os trabalhos reproduzidos na bem cuidada edição. De políticos das assembleias provinciais, à figura do imperador Dom Pedro II, passando por seus ministros e por seus adversários, sobrava escracho para todo mundo. Dom Pedro II, em particular, passa a ser alvo de ataques em tom cada vez mais ácido depois da Guerra do Paraguai (1864 - 1970), da qual voltaram como heróis da pátria homens negros cujas famílias ainda viviam na escravidão - escancarando as contradições e perversões do regime escravista. Mas, por uma contradição bastante típica da política nacional, os chargistas se viram em mais apuros durante a nascente, porém autoritária, república do que no período em que o Brasil era governado por um monarca satirizado pela pena de homens como Bordalo e Agostini.

- Dom Pedro II era um soberano tolerante com a liberdade de imprensa como veículo para circulação de ideia. Ele tinha uma noção bastante moderna de que uma imprensa livre servia para informar até mesmo a ele próprio sobre os movimentos sociais que estavam ocorrendo no país. Ele gostava das caricaturas que o Agostini fazia dele, ele escreveu isso expressamente, porque sabia também que a caricatura, mesmo crítica, servia para espalhar a imagem dele, em uma época em que a fotografia não havia se incorporado à imprensa. Na República, ao contrário, a tensão entre o governo e os humoristas se tornou mais acentuada - diz Magno.

O pioneirismo de Araújo Porto-Alegre

O gaúcho Manoel de Araújo Porto-Alegre (1806 - 1879) é sistematicamente apontado como o primeiro caricaturista brasileiro. Entretanto, o livro de Luciano Magno resgata alguns pasquins de Pernambuco que já haviam publicado charges anônimas antes de o gaúcho iniciar sua atividade - o mais antigo deles, o periódico antimonarquista O Maribondo. Mas o livro de modo algum refuta o pioneirismo do autor nascido em Rio Pardo, algo expresso mesmo no espaço que Porto-Alegre ocupa na obra. Das 352 páginas do livro, 90 tratam, direta ou indiretamente dele, de seu trabalho e de sua figura - alvo de ataques de outros caricaturistas.

- O livro revela trabalhos anteriores aos de Araújo, mas isso não tira dele o mérito de ser, sim, o marco inaugural do gênero no Brasil. O que foi feito na imprensa de Pernambuco foi esparso e anônimo. O Araújo Porto-Alegre tinha consciência do que estava fazendo, tinha uma produção mais sistemática e seus trabalhos mostram um domínio já maduro tanto da charge quanto do retrato caricatural - diz Magno.

Porto-Alegre, que ostentava o título de Barão de Santo Ângelo, mudou-se para o Rio de Janeiro na juventude e lá estudou com o francês Jean-Baptiste Debret - mais tarde, em 1831, acompanharia o professor no regresso à Europa, graças ao patrocínio dos irmãos Andradas. Influenciado inicialmente pelo romantismo europeu, Porto-Alegre retornou ao Brasil depois de seis anos de viagens por França, Itália, Inglaterra e Países Baixos. No Brasil, tomou para si a tarefa de fazer florescer no Brasil as artes que viviam um período de ebulição lá fora. Foi assim que se dedicou, além da pintura e do jornalismo, à caricatura. Produziu uma série de litografias que eram vendidas de modo avulso pelas ruas do Rio, satirizando adversários políticos, como o jornalista Justiniano José da Rocha, a quem Porto-Alegre considerava um vendido por aceitar a direção do jornal oficial da corte. Também foi o idealizador, junto com seu amigo e discípulo, o catarinense Rafael Mendes de Carvalho, da Lanterna Mágica, periódico satírico e seminal que circulou de 1844 e 1845.

- Ele tinha um espírito filiado ao romantismo brasileiro, o de querer promover a autonomia de uma arte nacional. Mas ele se diferenciava desse espírito por não ser ufanista, por ter um olhar ácido e muito crítico sobre as mazelas do país, algumas delas ainda hoje em pauta, como a corrupção política - diz Magno.

Ironicamente, depois de consolidada a caricatura na imprensa brasileira, muito por causa de seus esforços, o gaúcho tornou-se ele próprio o primeiro humorista vítima da nova arte. Datado provavelmente do período em que um consagrado Araújo Porto-Alegre dirigia a Academia Imperial de Belas-Artes, entre 1854 e 1857, um álbum anônimo com 15 estampas caricatas retratava o gaúcho como o ridículo "Pintamonos", piada para "pinta macacos". De autoria anônima, o álbum provavelmente é de autoria de Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive (1816 - 1863), ex-discípulo e então desafeto de Porto-Alegre. Outros apontam que a autoria seria de René Moreau (1807 - 1860), francês residente no Brasil e outro artista brigado com o gaúcho.

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