Ao dobrar a esquina errada na hora errada, Marcelo Yuka deu de cara com nove tiros. Uma das balas o deixou paraplégico, condenado ao que ele chama de prisão perpétua.
Aos 34 anos, no auge do sucesso como baterista e porta-voz do grupo O Rappa, o músico carioca começou naquela noite de 9 de novembro de 2000 uma de suas mais renhidas lutas, que foi acompanhada pela diretora Daniela Broitman na realização do documentário Marcelo Yuka no Caminho das Setas.
O filme tem sessão de lançamento nesta quinta-feira, às 19h, no CineBancários (General Câmara, 424, centro da Capital), com presença da diretora — a partir de sexta-feira, será exibido em três sessões diárias. Em entrevista a Zero Hora, Daniela, que registrou ao longo de oito anos o renascer físico e artístico de Yuka, diz que o projeto surgiu da sua amizade com o músico e da afinidade deles na realização de trabalhos sociais em comunidades carentes. Yuka, no entanto, era refratário à exposição, diz Daniela:
— Mas percebeu que o filme daria visibilidade a questões importantes para ele. A principal delas, quando começamos o projeto, em 2003, era a pesquisa com células-tronco, naquele momento uma esperança que o Yuka tinha para voltar a andar. Também pensamos em desmistificar a figura do Yuka herói e reverenciar a do homem e do ativista social.
Diferentemente do que foi divulgado à época do "acidente", o músico não foi baleado na tentativa de salvar uma jovem que estava sendo assaltada por um "bonde", grupo armado que promove arrastões bloqueando ruas. Yuka estava próximo de sua casa, no bairro carioca da Tijuca, quando, lembra ele no filme, percebeu que "explodiram" o retrovisor de sua camionete e seu braço esquerdo.
Foram 13 cirurgias, o braço esteve a um triz de ser amputado, e o processo de recuperação foi lento e penoso. Preso a uma cadeira de rodas, dependente de braços alheios e afastado da música, Yuka afundou na depressão vislumbrando que viveria mais como paraplégico do que já havia vivido até então.
Em seguida, outro baque. Às vésperas da gravação de um novo disco do Rappa, o baterista "foi saído" da banda e rompeu com os ex-parceiros, a quem acusou de traição.Yuka foi baleado em meio a uma temporada que havia consagrado O Rappa junto ao público e à critica, por conta de sucessos como Me Deixa e Minha Alma, do disco Lado B Lado A, lançado em 1999. Como em muitas bandas na história da música pop, vaidade, egos inflados e insatisfação com a divisão de grana viraram à tona com a separação.
O vocalista Marcelo Falcão e outros integrantes do grupo dão sua versão dos fatos no documentário. Falcão assume que não achava justo, por exemplo, Yuka receber mais que os outros por ser autor da maioria das letras engajadas característica d'O Rappa.
— Essa foi a parte mais difícil de editar — explica Daniela. — O depoimento do Falcão tinha três horas. Eu precisava peneirar o que interessava objetivamente ao filme, entre mágoas e declarações subjetivas. O Falcão dá sua versão, e fica para o público julgar se ele foi ou não sacana com o Yuka.
Daniela conta que o documentário teve início sem um cronograma — o ponto final é a apresentação de Yuka no Rock in Rio de 2011, quando ele apresentou canções de seu primeiro disco solo. A diretora seguiu o músico na convivência familiar, nas sessões de fisioterapia, nos palcos onde ele continuava a ser reverenciado, nos estúdios de gravação na permanente militância.
Percebe-se, no transcorrer desses oito anos, que o discurso de Yuka vai arrefecendo na raiva, mas não na indignação com a injustiça, a desigualdade e o preconceito social e racial no Brasil. Paraplégico, sim, mas a vida não acabou, como ele dizia antes. Mas a resignação com sua condição física nada tem de conformismo. Yuka, com o tempo, vai abrindo em seu horizonte a perspectiva de formar uma família e de consolidar sua carreira artística sem ser pautado pelas regras do mercado.
— Não sabíamos até quando iríamos filmar — diz Daniela. — Eu queria acompanhar um ciclo de transformação, tanto a do Yuka quanto a dele para transformar a sociedade com sua arte. Envolveu muita confiança. O maior elogio que já recebi pelo filme veio da mãe dele, que me disse ao final da sessão: "Esse é o meu filho".
Veja vídeos com bastidores da realização do documentário.
Site oficial: http://marceloyukanocaminhodassetas.com
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