Obituário29/01/2013 | 13h46Atualizada em 29/01/2013 | 16h48

Morre o historiador e crítico de arte Walter Zanini

Como curador da Bienal de São Paulo em 1981 e 1983, ficou conhecido internacionalmente

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Morreu na madrugada desta terça-feira, aos 88 anos, o professor e crítico de arte Walter Zanini, após prolongada doença. Diretor do Museu de Arte Contemporânea e curador da 16.ª e 17.ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1981 e 1983, respectivamente, Zanini era um dos mais respeitados críticos do País, sendo o responsável pela supervisão da mais ambiciosa obra sobre a evolução da arte brasileira, História Geral da Arte no Brasil, dois volumes com mais de 1,5 mil páginas publicados com apoio do Instituto Moreira Salles.

Formado em arte e antropologia pela Universidade de Paris, em 1956, e doutorado cinco anos depois, Zanini passou longa temporada estudando na Europa, entre 1954 e 1962, inclusive com bolsa do governo francês. Ao voltar ao Brasil, foi convidado por Francisco Matarazzo Sobrinho, que criou a Bienal de São Paulo, para dirigir o Museu de Arte Contemporânea da USP, fundado por Ciccillo Matarazzo em 1963 com acervo proveniente do Museu de Arte Moderna, de sua coleção particular e de sua mulher, Yolanda Penteado.

Zanini conseguiu ampliar o acervo do recém-criado museu de 1,6 mil para 2 mil obras, formando ainda uma biblioteca de 4 mil volumes (hoje, o MAC conta com mais de 10 mil obras em sua coleção, entre pinturas, desenhos, gravuras, esculturas). Quando museus ainda eram apenas guardiões de peças artísticas, o crítico já defendia maior participação dessas instituições na vida pública, transformando o MAC numa entidade dinâmica. Foi pioneiro no incentivo a novas formas de arte que, nos anos 1970, ainda eram marginalizadas, como a videoarte, revelando nomes como os de Julio Plaza. Em plena ditadura militar, o MAC se transformou num espaço de liberdade de criação com o incentivo de Zanini, que, além de organizar e catalogar o acervo da instituição, promoveu happenings, performances e propostas conceituais.

Zanini foi uma figura fundamental para a reavaliação da produção modernista no Brasil, ao promover retrospectivas de pintores como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Vicente Rego Monteiro, entre outros. Sobre o último, o crítico escreveu um grande livro de referência, que reavalia sua obra com o criterioso preparo de quem assinou o texto principal de História Geral da Arte no Brasil, obra com colaboradores do nível de Ulpiano Bezerra de Menezes (texto sobre arte colonial) e o sociólogo Darcy Ribeiro (sobre arte indígena).

Professor emérito da USP, a atuação de Zanini como crítico e curador não se restringiu ao Brasil. Além de ter promovido exposições de artistas internacionais no MAC, como a do alemão Josef Albers, ele organizou mostras na Bélgica, França, Itália e Suíça, sendo um dos primeiros a reconhecer o valor da artista de origem suíça Mira Schendel, que se radicou em São Paulo e hoje é considerada um dos principais vetores da arte contemporânea.

Seu pioneirismo pode ser igualmente atestado como curador da 16.ª Bienal de São Paulo em 1981, numa fase de transição da instituição, que passava por um momento de crise. Zanini mostrou a controversa produção de representantes da art brut com curadoria do poeta inglês Victor Musgrave (1919-1984), que organizou a primeira exposição de Yves Klein e Bridget Riley. Musgrave, além disso, apostou no experimental grupo Fluxus.

Zanini, como Musgrave, andava na contracorrente, desafiando as convenções e olhando sempre para o futuro. Como curador, ele tentou reformular a Bienal em 1991, dois anos depois de a instituição ter reabilitado a separação dos artistas por países. Desejando romper com esse nacionalismo estreito de montagem geopolítica, Zanini vociferou contra o modelo copiado da Bienal de Veneza e, graças a ele, hoje temos um entendimento diferente do que significa uma mostra internacional fora desse arcaico modelo.

Isso não significa que Zanini virou as costas para o passado. Ele foi o primeiro a reconhecer o papel que o pintor e escultor italiano Ernesto de Fiori (1884- 1945) teve no contexto moderno, influenciando especialmente a escultura brasileira. Há inúmeros outros exemplos, mas só esse serve para provar seu talento como visionário.

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