A estética do calor25/01/2013 | 19h26

Leia 'O Silêncio de Diego', novo texto da série assinada por Ismael Caneppele

Durante os meses de janeiro e fevereiro, o escritor de 'Os Famosos e Os Duendes da Morte' escreve semanalmente para o caderno Cultura

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Leia 'O Silêncio de Diego', novo texto da série assinada por Ismael Caneppele Tuane Eggers/Divulgação
“Sobre a Vulnerabilidade das Costas”, fotografia de Tuane Eggers Foto: Tuane Eggers / Divulgação

As tardes na cidade agora são feitas de uma brisa fresca, mas eu espero pelo calor que dignifique a alcunha de "Forno Alegre" dada à capital pelos próprios gaúchos. Reclamo a falta do extremamente quente que me fez vir para cá. Onde estão as tardes infernais? Não que Diego não saiba o que responder, ele apenas não sabe como. Onde estão as vendas de ar-condicionado consumindo estoques e superaquecendo o valor da mão de obra braçal? Diego permanece em silêncio. Onde está esse calor que riscaria uma estética em nossa existência? Desde que o ano começou, ainda não batemos nossos próprios recordes de temperatura. Talvez dentro de si, Diego arquitete alguma resposta à minha obsessiva questão, mas seus olhos, oblíquos, apenas observam o reflexo da cidade nas águas sujas do Guaíba. O segredo de um bom remador é saber o tempo exato de descanso e o ponto seguro antes que a fadiga se torne lesão. Talvez seria alguma coisa assim o que Diego falaria se ainda tivesse voz. Talvez tenha. Há um mistério no mutismo do meu amigo. Não faz muito tempo que o silêncio o abateu. Diego é ainda muito jovem, mas, dizem os médicos, há uma esclerose em seu corpo. Desde então, ele não fala mais. Desde então, o ato de não falar é atribuído, pelos médicos, à doença que pretensamente diagnosticada avança sobre o jovem rapaz. Afirmam os médicos que o não falar seria o primeiro sintoma dessa doença. Talvez seja. Talvez. Desde então, Diego perdeu a certeza das coisas. Talvez por isso não fale. Tudo em Diego é uma sequência interminável de talvezes. Sua própria existência agora se confunde com a iminência do não mais. Não sei se Diego não responde porque não sabe mais falar, ou, se por espanto diante do diagnóstico a ele imposto, somatizou um medo e tornou-se mudo. Para Diego, tudo é a potência do novo, só que ao contrário. Pouco a pouco, a cada dia que passa, ele desaprende a ser o que construiu até aqui. Queima forte o sol sobre o Guaíba. Voltamos a remar.

A doença de Diego ainda não comprometeu seus músculos, por isso ele rema. Seu físico forte não revela o que acontece em suas células. Cada dia sobre o Guaíba é também o último. Pode ser que amanhã seus braços percam a capacidade de remar, preveem os médicos. Decididos a não pensar no que está por vir, remamos até o outro lado da pequena ilha onde passam os grandes barcos. Lá, no quase fora do alcance da visão, é onde Diego finalmente se desfaz do desconfortável colete salva-vidas que corrói a pele de nossos sovacos. Há sempre algo nos apertando. Foi Diego quem me ensinou a transgredir a regra imposta pelos instrutores de nunca, jamais, se desfazer dos aparatos de segurança. Diante do seu ato de libertação, só me resta copiá-lo. É quando o vento quente bate em nossos peitos que as doenças finalmente ficam para trás. Quando tudo está contaminado de dor, só nos resta a busca por algum tipo de prazer sem finalidade alguma. Há sempre um certo hedonismo naquele que tudo perdeu.

O silêncio de Diego fez com que descobríssemos novas formas de comunicação entre nós. O espaço deixado pelas suas palavras nos obrigou a ocupá-lo com gestos nunca antes experimentados. Eu, mesmo sabendo que ele não poderá me responder, continuo fazendo-lhe perguntas. Farejo possíveis respostas na posição de seu corpo, no movimento de seus olhos, na intensidade de sua respiração. É noite, e a madrugada ameaça se instaurar no grande apartamento de frente para o Guaíba onde Diego, ainda, pode morar sozinho. A brisa sopra fresca invadindo a imensa sala onde escutamos seus discos antigos. Discos que Diego comprou nas muitas viagens que fez antes que a doença o impedisse de viajar sem ninguém. Para Diego, a beleza da viagem está na solidão e nas múltiplas possibilidades de encontro que ela oferece. Talvez por isso, desde que os médicos diagnosticaram o rapaz, sua família o proíba de partir sem um acompanhante. Talvez tenha sido Diego quem me despertou para a beleza da solidão e foi justamente essa solidão a primeira perda que a doença o fez sentir. A chuva fina e gelada molha nossas pernas no vigésimo sexto andar. Venta forte o Guaíba. Ousamos sentir frio em pleno verão gaúcho. Onde está o calor? Sim, ainda estamos no Brasil. Sim, ainda somos o melhor amigo um do outro. Mas, Diego, onde está o forno alegre? Cadê o verão mais quente do Brasil?

Diego, possivelmente cansado da monotonia de minhas questões, se levanta e veste a camiseta. Depois pega as chaves do cadeado e sai porta afora. Mais uma vez, só me resta copiá-lo. Não leva muito tempo e já estamos na Independência pedalando sob a chuva fina que quase não existe mais. Chegamos na frente de um pequeno sobrado ornado com um néon vermelho. Uma fila consideravelmente grande para aquela hora da madrugada espera na calçada. No fim da fila há uma porta. No fim da porta começa uma escada. Depois o calor. Diego finalmente responde ao que tanto lhe perguntei no decorrer daquele dia. Existe calor em Porto Alegre e ele está do lado de dentro daquela casa. Nem todas as respostas precisam da palavras para serem dadas.

A hipotética doença abriu precedente para sempre às piores suposições acerca do seu comportamento. Eu prefiro pensar que Diego está mudo de susto. Suportar a própria morte é pesado demais, não importa a idade que se tenha. O diagnóstico de Diego, um diagnóstico nunca cem por cento confirmado pelo exames médicos, o coloca sempre na iminência do nunca mais. Nessa perigosa zona de incertezas que constitui a saúde humana, Diego é uma vítima das suposições. O quanto dessa suposta esclerose já comprometeu seus sentidos, ninguém saberá. Pelos exames ele seria quase um rapaz normal. O que intriga os médicos é a veemência com que o mutismo se instaurou sobre o seu corpo assim que a esclerose foi cogitada. Eu prefiro acreditar que Diego, tamanho assustado diante do próprio fim, só conseguiu viver em silêncio. Em minhas suposições, Diego ainda sabe falar.

Era dia claro quando, depois de cervejas, beijos desconhecidos e suor, muito suor, deixo o cabaré. Um grupo de garotas ainda espera do lado de fora. O calor instaurado em seus corpos impede que elas parem de suar. Ainda chove fino sobre a Independência. Porto Alegre está quase fria. Fria demais para um verão gaúcho. Não demora para Diego também sair. Está bêbado. Bêbado demais para um rapaz diagnosticado. Descemos pedalando a longa avenida na direção do rio. O centro da cidade acorda devagar. Diego, ciente de que a morte está perto demais, não teme atropelamentos. Em janeiro, a velocidade da capital é sempre um pouco menor, mas a violência de alguns motoristas continua a mesma. Diego pedala com força, sem medo de que o vento arranque lágrimas de seus olhos. Nas manhãs frias de um verão em Porto Alegre, todos choram contra o vento.

Subindo o elevador rumo ao vigésimo sexto andar, noto que Diego ri sozinho. Talvez naquela fração de tempo a certeza sobre a fatalidade da doença tenha abandonado o seu pensamento. Como se ele ainda falasse, pergunto o que havia dado nele para beber daquele jeito. Desde o advento da suposta esclerose, Diego nunca mais consumiu uma só gota de álcool. "Vontade", responde o meu amigo. A articulação da palavras e a clareza intacta de sua voz me fazem ter ainda mais certeza de que sim, Diego é mesmo uma presa do medo imposto pela suposição clínica. É quando o diagnóstico aniquila o sujeito que as doenças passam a fazer algum sentido.

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