Durante os meses de janeiro e fevereiro, o escritor Ismael Caneppele, que volta a morar em Porto Alegre em pleno verão, publicará no caderno Cultura, de Zero Hora, a coluna A estética do calor.
Confira o primeiro texto deste mês:
A primeira vez que escutei a expressão "Estética do Frio" foi no começo dos anos 2000, dentro de uma academia de ginástica em São Paulo. Estava eu envolto em pesos e alteres, quando uma garota, descobrindo-me gaúcho, revelou sua paixão por Vitor Ramil e pela sua "Estética do Frio". Uma sensação de conforto tomou conta de mim quando uma estranha, em uma terra distante, reconheceu-me imediatamente como um ser frio. Foi como se, através da expressão cunhada por Vitor, o meu estado de ser diante do mundo fosse tanto explicado quanto compreendido pelo outro. "Sim, somos frios", respondi sem precisar forçar um calor social que não trazia em mim. Retornei aos aparelhos sabendo que, a partir daquele instante, sempre que um paulistano chamasse atenção à minha timidez, laconicamente eu responderia "tímido, não, sou um esteta do frio". Foi Vitor quem me deu a chave para conviver socialmente nas terras quentes e distantes daqui.
Depois foi Caetano Veloso quem, ao ler meu livro Os Famosos e Os Duendes da Morte, escreveu em sua coluna dominical no jornal O Globo que "pensei que enfim materialize-se espontaneamente a ideia de uma estética do frio, preconizada por Vitor Ramil". Em uma das madrugadas cariocas atravessadas na casa do compositor baiano, Caetano me confessou que, sempre que pensava em Lajeado, imediatamente imaginava uma ponte de ferro sobre um grande rio congelado. Definitivamente Caetano sabe que rios não congelam no Brasil, mas a atmosfera exalada por mim, por Vitor e por tantos outros gaúchos o remetia a um frio exótico e que nos diferenciava do resto do Brasil.
Por mais que o frio me represente e por mais que eu o represente em minha obra, é quando o verão chega que me sinto mais em casa no Rio Grande. Não gosto dos meses de inverno. A umidade gaúcha, aliada à falta de estrutura para suportá-la, sempre me afasta do Estado onde nasci. É no calor que me reconheço. Não foram poucas as tardes em que, suando sob um sol torrencial, ironizei o fato de sermos reconhecidos pelo resto do país como o mais frio dos Estados. Nessas tardes de intenso verão, impossível não pensar na necessidade urgente de se cunhar uma "Estética do Calor", que não se contraponha à "Estética do Frio", mas que com ela dialogue.
Foi em uma noite fria e úmida na distante Passo Fundo que "A Estética do Calor" nasceu coletivamente. A convite de Luís Augusto Fischer, participei da Jornada Literária e, por inteligência da organização do evento, que sempre reúne todos os participantes para almoçar e jantar, foi que, quase ao acaso, eu, Márcia Tiburi, Vitor Ramil e Francieli Spohr acabamos na mesma mesa. Não a mesa oficial, onde tantos debates acontecem, mas na mesa onde jantamos, bebemos vinho e reconhecemo-nos frios e quentes, ao mesmo tempo. Diante do autor da expressão "A Estética do Frio", nós três imediatamente evocamos "A Estética do Calor". Vitor afirmou que também pensava nessa estética, e Márcia avisou que seu próximo livro, ainda em fase de conclusão, abordaria o calor, sem por isso deixar de ser frio. Talvez seja esse o nosso diferencial: somos quentes, mas também somos frios. A nossa "Estética do Calor" está intimamente ligada à "Estética do Frio". Somos opostos que coexistem.
Em Era Meu Esse Rosto (editora Record), Márcia Tiburi investiga o calor que acomete a região de Vacaria. Impossível não se identificar com o suor que sua obra exala, assim como impossível não se identificar com o frio que o Satolep (editora Cosac Naif), de Vitor, nos faz sentir. Márcia chama atenção para um calor que trazemos e que ainda é desconhecido por grande parte do resto do Brasil. Em um dos momentos mais marcantes desse belíssimo romance familiar, Tiburi narra um ritual comum em sua região natal. Conta ela que, sempre que a seca se torna insuportável, sua família vai ao cemitério a fim de dar água aos mortos. Na distante região de Vacaria, a seca provem da sede que sentem aqueles que já morreram.
Fora do Brasil, na fria Europa, é o calor que nos diferencia. No frio longe de casa, quando encontramos com outro brasileiro, é fácil lembrar do calor que nos faz ser quem somos. Fora do Rio Grande do Sul, no quente Brasil, é o frio que nos diferencia. No calor longe de casa, quando encontramos com outro gaúcho, é fácil lembrar do frio que nos faz ser quem somos. Somos quentes para os estrangeiros e frios para os brasileiros, vivemos essa estranha dicotomia. O Brasil quase não sabe do calor que faz aqui, assim como o Exterior quase desconhece o frio que também sofremos.
Amigos cariocas reclamam a falta do frio. Dizem eles que, emocionalmente, é complicado lidar com um ambiente constantemente solar. "É como se a natureza, sempre contente, nunca abrisse espaço para minhas tristezas acontecerem", reclama uma carioca cuja pele muito branca jamais se deita nas areias da praia. Gaúchos, podemos nos dar ao luxo de sofrer o calor pois sabemos que, não muito distante do agora, o frio nos acometerá. A natureza, quando oscila entre temperaturas extremamente altas e extremamente baixas, permite que o ser humano frequente diferentes estados emocionais. Quando, no inverno, o frio nos congela a alma, há espaço para que as tristezas se manifestem. O mesmo se dá no verão, quando o sol desperta-nos para prazeres sensoriais que somente o ar quente é capaz de conter.
Nesse verão, estima-se que, no Estado, as vendas de aparelhos de ar-condicionado aumentarão 10% em relação ao mesmo período do ano passado. Assim como no inverno não estamos equipados para enfrentar confortavelmente o frio, também não dispomos de estratégias que nos permitam curtir o calor. Porto Alegre possui o Guaíba, mas a população teme nadar nas suas águas. Porto Alegre quebra seus próprios recordes de temperatura a cada ano que passa, mas a cidade quase não dispõe de espaços de lazer que diminuam o calor daqueles que na Capital decidem ficar. Em Nova York, nos escaldantes meses de verão, é comum ver a população banhando-se tanto nos chafarizes das praças quanto nas imensas piscinas públicas. Em Berlim, as águas do Spree servem para que alemães relaxem em um íntimo contato com a natureza. Aqui, resignamo-nos às tardes blindadas em recintos artificialmente gelados.
É preciso coragem e disposição para viver a estética do calor. Bicicletas, piqueniques, passeios noturnos, potes de açaí, banhos de água gelada, existe toda uma sequência de prazeres à espera de serem aproveitados. O corpo, quando entregue ao verão, acorda-nos para prazeres quase esquecidos. Quando, na iminência de derretimentos, ousarmos nos entregar ao lugar comum das reclamações, vale lembrar que existe sempre um prazer pronto para ser experimentado. Um prazer que só pode existir nessa época do ano, quando a natureza nos abraça e nos sufoca. Quando o sol nos aquece e nos derrete. Quando o vento quente da noite nos faz predispostos para o prazer. "Take advantage of the season", canta Rodrigo Amarante. Em bom português: "Tire vantagem da estação".









