Leitura à beira-mar02/01/2013 | 17h02

Escritores sugerem livros para as férias

Autores dão dicas de títulos para rir, para se emocionar e para refletir durante o descanso

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Escritores sugerem livros para as férias Edu Oliveira/Reprodução
Foto: Edu Oliveira / Reprodução

Livros são parte da bagagem de férias, e antes de viajar é bom separar aqueles que embarcam junto para o período de descanso. A pedido do Segundo Caderno, escritores deram suas dicas de títulos em três categorias: para rir, para se emocionar e para refletir.

Generoso nas sugestões, o poeta Armindo Trevisan enviou uma lista por e-mail que transcende as divisões propostas: Ortodoxia, de Gilbert K. Chesterton, A Alegria (Poemas), de Giuseppe Ungaretti, 42 Sonetos, de William Shakespeare, Santo Tomás de Aquino – O Boi Mudo da Sicília, de Carlos Arthur R. Nascimento, Gênio – Os Cem Autores mais Criativos da Históroa da Literatura, de Harold Bloom, e A Cerimônia do Adeus, de Simone de Beauvoir. São recomendações, quase todas, para refletir e emocionar, garante Trevisan. Para rir, segundo ele, há pouco: nosso mundo é mais risível do que capaz de fazer rir. 

– Minhas sugestões são um tanto inadaptadas aos gostos em voga. Na minha idade, fico cada vez mais casmurro. Comecemos, portanto, por ler Dom Casmurro, de Machado de Assis, que nos ensina como escrever ótimo português – sugere o autor de O Rosto de Cristo.

PARA RIR

"Uma descoberta para lá de esperta do professor Luís Augusto Fischer: Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar, de Tom Cathcart e Daniel Klein. Dois filósofos americanos explicam a filosofia através de piadas. Falam de metafísica, lógica, ética, existencialismo e muito mais com humor e exemplos como este, do capítulo que trata da Filosofia da Linguagem:
'Uma mulher de 80 anos entra na sala de convívio dos homens do lar de terceira idade. Ergue o punho o ar e anuncia:
– Quem adivinhar o que tenho na mão pode fazer sexo comigo esta noite!
– Um elefante! – grita um velhote ao fundo da sala.
A mulher pensa durante alguns instantes e responde:
– Resposta certa!'"
Claudia Tajes, autora de Louca por Homem e Por Isso Sou Vingativa

"O Senhor Valery e O Senhor Henri são os dois primeiros livros que li do Gonçalo M. Tavares. Os jogos lógicos do Senhor Valery, como dar saltos para ser mais alto mesmo que por pouco tempo, ou as proposições enciclopedicoabsínticas do Senhor Henri, como nunca misturar a realidade com absinto (melhora-se a realidade, mas estraga-se o absinto), têm uma aparente leveza, que provoca o riso fácil, fácil. Mas não quer dizer que seja um livro fácil. Garanto que, depois do riso, após a última página, vocês vão ficar pensando nos episódios de cada uma das obras e, talvez, como eu, queiram reler. Pra rir e pensar um pouco mais."
Reginaldo Pujol Filho, autor de Quero Ser Reginaldo Pujol Filho e Azar do Personagem

"Memórias Póstumas de Brás Cubas é um livro extremamente divertido ou um cruel divertissement bem ao estilo do século 19. Mas, para quem não sabe, o humor de Machado de Assis não tem nenhuma relação com essa inflação do stand-up cuja gargalhada é reacionária e nada inventiva, humor fácil que reproduz todos os preconceitos naturalizados e que se submete ao vale-tudo de fazer rir, doa a quem doer. O humor autoirônico de Machado não é o do "atendimento ao cliente". Vejam como o autor defunto conclui o prólogo ao leitor de suas memórias póstumas: 'A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus'. Um clássico perverso, crítico."
Ronald Augusto, autor de Cair de Costas e Decupagens Assim

"Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, não é para todos, e as onipresentes cenas de sexo fazem Cinquenta Tons de Cinza parecer um livro infantojuvenil. O que faz do romance algo fora de série é a criatividade linguística, o prazer enorme que o autor parece ter com trocadilhos e jogos de palavras. Pornopopéia se revela complicado de ler em público pois faz você gargalhar em alto volume a cada cinco páginas."
Antônio Xerxenesky, autor de Areia nos Dentes e A Página Assombrada Por Fantasmas

PARA SE EMOCIONAR

"O Amor, as Mulheres e a Vida, de Mario Benedetti. Uma antologia de poemas de amor. Edição da Verus, com tradução do gaúcho Júlio Gehlen. Um presente para quem adora a prosa do grande autor uruguaio. Uma palhinha: 'É uma lástima que não estejas comigo / quando olho o relógio e são seis / podias aproximar-te de surpresa / e dizer-me: Como vais? / E ficaríamos eu com a mancha vermelha de teus lábios / tu com a marca azul de meu carbono'."
Claudia Tajes

"Se as férias forem longas, e o sujeito não leu o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, eis sua missão quixotesca. É um livro pra se emocionar nos mais variados sentidos do verbo. Costumo dizer que tudo está no Quixote. É uma montanha-russa literária e emocional. Há episódios pra rir. Há episódios pra chorar. Há episódios pra rir e depois pensar se era mesmo o caso de ter rido. Há momentos de espanto ao se pensar que tudo isso foi feito há mais de quatro séculos. E depois de conviver com o Cavaleiro por tantas e tantas páginas, há a melancolia de cair de volta na realidade ao fechar o livro. Quando li pela primeira vez, chegava a pensar de acordo com a sintaxe do romance. Mas, se as férias serão curtinhas, tudo bem. Sugiro o 25 Rua do Templo seguido por Palavra Paris (da série de livretinhos Contém 1 Drama). São apenas dois poemas do Diego Grando que jamais merecerão serem considerados 'apenas'. As dores e os prazeres e as transformações provocados pela solidão e o exílio voluntários estão todos lá condensados com sensibilidade, com poesia e com aquela naturalidade com que os grandes poetas nos mostram o que sempre esteve na nossa frente. Mas só o poeta consegue nos explicar o que é."
Reginaldo Pujol Filho

"Jorge Luis Borges defende a ideia de que, para além do ritmo, a forma tipográfica do verso serve para anunciar ao leitor que a emoção poética, não a informação ou o raciocínio, é o que o espera. Concordo em parte com Borges, pois podemos admitir que a poesia, por outro lado, se faz apenas com palavras. A emoção é figurada. Mas, quando se trata da poesia de Manuel Bandeira, não consigo deixar a emoção de lado. Minha dica de leitura é Estrela da Tarde (1963), livro em que o poeta enquanto se prepara para a morte ainda mantém viva a curiosidade juvenil realizando com radicalidade uma série de poemas concretos e experimentais."
Ronald Augusto

"A história de uma neta e sua avó. Uma avó bastante diferente, que faz da literatura de Shakespeare um elo de união e de revelação do seu eu. Esta bela e sensível novela da italiana Silvana Gandolfi é, com certeza, espaço bom para deixar que a emoção faça parte das férias. Além de mergulhar no íntimo de Elisa e de suas dores, Aldabra _ A Tartaruga que Amava Shakespeare discute as fronteiras tênues entre vida e morte. E é também pungente passeio por cenários italianos."
Caio Riter, autor de O Rapaz que Não Era de Liverpool e A Filha das Sombras

PARA REFLETIR

"Em Mundo Colono, Luís Augusto Fischer mergulha em suas reminiscências para compor uma Lajeado quente e distante do agora. Relato emocionante dirigido ao sobrinho órfão, o autor transforma a dor da saudade em uma doce nostalgia sobre um cenário visitado em sua infância."
Ismael Caneppele, autor de Os Famosos e os Duendes da Morte

"Patrimônio, do romancista norte-americano Philip Roth: um dos meus livros do ano. O filho que, de repente, se vê cuidando do pai antes mandão e teimoso _ e não que vá deixar de se comportar assim só porque ficou doente. Uma história real que pode acontecer com todo mundo, aqui contada com o talento do Mr. Roth."
Claudia Tajes

"A primeira reflexão que O Retorno provoca é 'como é que eu não sabia que, quando Angola e Moçambique se tornaram independentes, centenas de milhares de portugueses tiveram que fugir rumo a Portugal com a roupa do corpo, deixando casa, pertences e histórias de vida pra trás?'. Dulce Maria Cardoso (ela mesma uma retornada) nos apresenta esse cenário surreal de pessoas que não são aceitas em Angola (ainda que nascidas lá) nem reconhecidas como portugueses europeus, refugiados na própria pátria. E esse evento é narrado pelo olhar sincero, às vezes agressivo, de um pré-adolescente enfrentando a sua crise de identidade pessoal. Política, racismo, amadurecimento, identidade individual e identidade nacional: são muitas as reflexões propostas por Dulce com extrema sensibilidade e uma rica linguagem lusoangolana."
Reginaldo Pujol Filho

"Theodor W. Adorno, filósofo da esquerda alemã judia e antifascista, criador da Escola de Frankfurt, não propõe, como o título Minima Moralia – Reflexões a Partir da Vida Lesada talvez sugira, nenhuma espécie de aconselhamento ético mínimo. Adorno não trata diretamente da questão de como podemos alcançar a vida boa, verdadeira; ele nos convida, antes, a fazer a crítica da vida falsa. Se a questão é o estímulo à reflexão, acredito que Minima Moralia tem tudo para nos levar a tal situação. Dois aforismos do filósofo para despertar o apetite do leitor em férias: 'um alemão é uma pessoa que não consegue dizer uma mentira sem acreditar nela' e 'somente são verdadeiras as ideias que não se compreendem a si próprias'."
Ronald Augusto

"O que pode um escritor em noite insone no escuro de seu quarto? Paul Auster, em Homem no Escuro, propõe mergulho na intimidade de um homem de 72 anos, que busca, através da escrita, retomar vínculos com a neta e a família. Numa arquitetura que beira, muitas vezes, o nonsense, o leitor é convidado a refletir sobre as fronteiras que separam realidade e ficção e alçar voos rasteiros para dentro de si mesmo. Profunda reflexão sobre o existir e sobre a criação."
Caio Riter

"Em O Chapéu de Vermeer – O Século XVII e o Começo do Mundo Globalizado, a partir de sete quadros e uma porcelana do século 17, Timothy Brook mostra como, em busca de melhores mercados para seus negócios e de prata para financiá-los, o mundo até então centralizado na Europa começou a globalização. Brook, historiador e sinólogo autor de 12 livros, traça esse percurso de forma inteligente e divertida, e o seguimos como se lêssemos um tremendo livro de ficção."
Marina Colasanti, autora de Minha Guerra Alheia

"Com formação de filósofo e uma carreira de sucesso como poeta e cancionista, Antonio Cicero é das poucas pessoas com igual autoridade para falar de poesia e filosofia. A posição que defende em Poesia e Filosofia é a de que, apesar da existência de pontos de contato entre as duas, a filosofia e a poesia são atividades perfeitamente distintas. Ao explicar sua posição, Cicero ilumina seus dois temas, poesia e filosofia, com a clareza e a elegância que caracterizam tanto a sua escrita ensaística quanto a sua poesia."
Paulo Henriques Britto, autor de Macau e Formas do Nada

Comentar esta matéria Comentários (6)

Dóris Caroline Moisyn

Lastimável as pessoas q acham que seus gostos e preferências são os melhores e deveriam ser os únicos. Ainda bem que há "Pollyanna's" por aí que sabem ver o lado belo e bom de cada coisinha e dar o devido valor ao q seus olhos abençoados enxergam, colorindo tbm a vida dos outros! :)

03/01/2013 | 16h52 Denunciar

Thiago

Vai ver estavam esperando "50 Tons de Cinza"....kkkk Vai entender...

03/01/2013 | 16h35 Denunciar

edson cruz

Elisabeth, q chatinha vc. estou ansioso pra saber qual seria a sua lista cativante e envolvente.

03/01/2013 | 13h50 Denunciar

luciana

Achei a lista bem interessante, mas para alguns o que atrai são livros espíritas, auto ajuda e tons de cinza.. enfim literatura de fácil compreensão, onde não há muito o que refletir, o que pensar.

03/01/2013 | 13h38 Denunciar

Renato S. Yamane

Tenho que concordar com a Elisabeth... Esses livros estão longe de serem sugeridos para as férias. #melancolia

03/01/2013 | 12h37 Denunciar

elisabeth

A lista de livros sugeridas é para não ser lida ..nenhum título cativante e envolvente...Perguntaram para as pessoas erradas

03/01/2013 | 00h29 Denunciar

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