O fracasso comercial de A Viagem não deve ser usado como medida única para carimbar o filme que estreia no Brasil nesta sexta-feira como mais uma tentativa frustrada dos irmãos Wachowski em repetir o sucesso da trilogia Matrix, filme de culto que fez a fama da dupla em 1999. Isso porque na escala usada por Hollywood para calcular o êxito de suas grandes produções, o êxito de bilheteria, cada vez mais e com as exceções de praxe, costuma sublinhar a pouca disposição das grandes plateias para estímulos que peçam um pouco mais de empenho dos neurônios.
O problema com esse novo filme de Andy e Lana (que se chamava Larry antes da operação para mudança de sexo) Wachowski, a exemplo das duas fracas continuações de Matrix e da pouca repercussão de Speed Racer, segue sendo a falta de calibragem entre a ambição e o que apresentam na tela. A força da mitologia de Matrix conseguiu garantir o retorno financeiro à embromação que foram suas sequências, mas Speed Racer naufragou, e o universo autoral próprio almejado pelos Wachowski não se consolidou. Popularidade ou prestígio, eis um dilema que move o mundo da criação artística, sendo que são bem poucos os realizadores que alcançam ambos.
Dos anunciados US$ 100 milhões de orçamento (que, diga-se, parece pouco para o que apresenta em cenografia, elenco e efeitos), A Viagem recuperou no circuito mundial pouco mais de US$ 60 milhões. Equilibrou a avaliação positiva de críticos respeitados com resenhas negativas de outros, e as manifestações dos espectadores no ambiente virtual têm sido favoráveis.
Mas, ao final de suas quase três horas, os Wachowski, que contaram com o reforço do bom diretor alemão Tom Tykwer, resumem de forma fria e tanto exasperante o elogiado livro Cloud Atlas, lançado em 2004 pelo britânico David Mitchell (leia mais sobre ele abaixo).
O título nacional para Cloud Atlas força a mão no tom esotérico, é verdade. Mas é o tom que impera durante toda a narrativa, que é bastante prolixa na distribuição de pílulas de sabedoria sobre um universo que está todo ele conectado numa estrutura de ação e reação no passado, presente e no futuro.
Doutrina espírita, prospecções filosóficas, políticas, científicas e ecológicas, citações a figuras como Carlos Castañeda, guru da contracultura, e Alexander Soljenítsin, escritor e dissidente russo, piscadas para os fãs de Matrix. Com uma lenga-lenga místico-existencialista, A Viagem traz à superficialidade questões profundas do livro, dando ênfase a frases de efeito como "Há sempre uma escuridão antes do amanhecer" / "Minha vida se estende ao limite da minha pessoa" / "Só quem não tem liberdade sabe dar valor a ela", e por aí vai.
Embalado como ficção científica, A Viagem combina diferentes gêneros (drama, comédia, thriller de espionagem, ação, aventura) em histórias que transcorrem, embaralhadas e conectadas, por seis épocas distintas, entre 1849 e 2321 — mais um prólogo e um epílogo indicativos de que parte dessa história nem na Terra se passa e, ainda, incluiu um filme que está sendo feito sobre uma das histórias.
Para facilitar, um breve resumo do que ocorre em cada um dos tempos.
1849 — Numa ilha do Pacífico, em 1849, rapaz americano (Jim Sturgess) fica horrorizado com o tratamento dado aos negros pela companhias colonialistas e fica amigo de um escravo, embrião de um sentimento abolicionista que levaria à guerra civil que cindiu os EUA entre 1861 e 1865.
1936 — Na cidade inglesa de Cambridge, jovem compositor gay (Ben Whishaw) se torna assistente de seu ídolo (Jim Broadbent) na criação da que eles julgam ser a maior de todas as sinfonias (Cloud Atlas, título original do filme).
1973 — Em San Francisco, uma repórter investigativa (Halle Berry) segue pistas para desbaratar conspiração patrocinada por corporação do setor energético. Em seu encalço é colocado um assassino profissional (Hugo Weaving, emulando seu papel de agente Smith em Matrix).
2012 — Em Londres, editor de livros picareta (Jim Broadbent) engana gângster autor de best-seller (Tom Hanks) e precisa sumir do mapa. O bandidão foi para a cadeia ao assassinar um crítico que espinafrou sua obra.
2144 — Na Nova Seul (erguida sobre a velha cidade sul-coreana que está submergindo), garçonete (Doona Bae) que é prisioneira de uma misteriosa irmandade luta por sua liberdade. É um segmento que relembra o conceito visual de Matrix, com pessoas-clones que vivem em casulos, o "sistema" que a todos a oprime e a heroína que acaba sendo santificada.
2321 — Num lugar não identificado, que segure ser a Terra num cenário pós-apocalíptico (mas depois mostra ser em outro planeta), com a humanidade vivendo estado primitivo, homem (Tom Hanks) luta contra tribo selvagem com ajuda de heroína desembarcada de nave espacial (Halle Berry).
Como todos os atores (tem ainda, entre outros, Susan Sarandon e Hugh Grant)participam de todas as histórias, é curioso tentar identificar quem é quem, por vezes atrás de pesada maquiagem. O desempenho deles, mais as corretas representações de época, sustenta o interesse maior diante de A Viagem. Porque a trama em si, mesmo que a horas tantas ela já não pareça mais tão confusa e os saltos temporais deixem de ser tão abruptos, não se sustenta em pé o suficiente para exigir tamanho tempo de atenção do espectador.
A Viagem não transcende à pretensão artística e intelectual de seus realizadores. Não alcança, por exemplo, o nível de provocação sensorial em questões parecidas de A Árvore da Vida, de Terrence Malick, produção que, goste-se dela ou não, teve o aval da crítica e de premiações de peso e superou seu custo nas bilheterias – e esse último item, tanto num blockbuster quanto num empenhado filme de arte, ainda tem peso relevante para quem quer viver de cinema.
Os Wachowski viveram até aqui dos louros e dos lucros de Matrix. Conquistaram fãs que a eles devotaram admiração religiosa. Já não restam muitos convertidos, mas a dupla ainda não parece estar convencida disso.
Marcas humanas (o livro)
Por Carlos André Moreira
Não foi à toa que Cloud Atlas, livro do inglês David Mitchell lançado em 2004 e ainda sem edição no Brasil, foi mais de uma vez definido como "infilmável". A obra literária é um dos romances mais ambiciosos e interessantes do jovem século 21. Estruturada como um jogo de armar semelhante às bonecas russas, a narrativa apresenta seis histórias encapsuladas uma na outra, de 1850 (com a aventura náutica de um jovem americano em um navio que estaciona em um arquipélago do Pacífico) até um distante futuro pós-apocalíptico no qual a humanidade devastada regressou a um estado primitivo.
Cada uma das linhas puxadas por Mitchell em seu livro é interrompida em um momento de interesse, e é referenciada como uma história lida ou conhecida na parte seguinte. Para dar corpo à ideia de que algo permanece ao longo da trajetória humana, uma marca de nascença em forma de cometa reaparece em diversos personagens em diferentes linhas temporais, como sinais de uma alma vagando pela História. Depois de desdobrar toda a composição, Mitchell recua às histórias deixadas para trás e providencia um fecho a cada uma, demonstrando ousadia formal e de linguagem.













