Nunca antes Hollywood investiu em um projeto tão grandioso sobre o mais mítico presidente dos EUA. Nunca antes Steven Spielberg fez algo como Lincoln.
Entre todos os seus 28 longas, o filme que estreia nesta sexta-feira (25) é aquele em que o discurso – a palavra, literalmente – assume o papel de maior destaque.
Lincoln chega ao Brasil referendado por 12 indicações ao Oscar e um favoritismo ainda incipiente no grande prêmio da indústria, dado que as premiações prévias, entregues pelos sindicatos de atores, diretores e produtores, que dão os melhores indicativos, começam a ser anunciadas apenas neste fim de semana.
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A trama tem um recorte bem específico: acompanha os passos do presidente nos primeiros dias de 1865, quando Abraham Lincoln (1809 – 1865) acaba de ser reeleito. A Guerra Civil (1861 – 1865) já estava praticamente ganha, mas a cultura escravocrata e a fúria dos rebeldes do sul do país, longe de serem superadas. Visionário, Lincoln entende que é a hora de aproveitar o momento e fazer a 13ª Emenda à Constituição, que põe fim à escravidão no país, passar no Congresso.
Para quem gosta de filmes sobre os bastidores do poder, trata-se de um prato cheio. Nas mais de duas horas de projeção, o presidente e seus aliados usam todas as armas para convencer adversários no parlamento a aprovarem o projeto de lei. Não se fala especificamente em compra de votos com dinheiro, mas cargos são prometidos, e fatos, ocultados.
Mais do que promover uma ponte com episódios da história recente do Brasil, essa particularidade dá a Lincoln um caráter universal. Não tira do filme, no entanto, as limitações intrínsecas a esse tipo de produção, cujas restrições temáticas (o assunto toca mais os americanos do que o resto do mundo) e estéticas (especificamente a verborragia) tornam sua fruição arrastada.
Daniel Day-Lewis, no papel-título, está excelente (quando não esteve?). Com uma caracterização impecável, dá a profundidade adequada ao grande homem. Sally Field, como sua mulher, e Joseph Gordon-Levitt, como o filho que estuda advocacia mas quer mesmo é lutar na guerra, não deixam o nível cair. Mas os conflitos pessoais, absolutamente secundários na trama, revelam o esquematismo de sua dramaturgia: todos eles estão ali para cumprir uma função, a de humanizar o estadista.
O que realmente interessa são os jogos de poder. E aí se sobressaem coadjuvantes de luxo, como o parlamentar aliado interpretado por Tommy Lee Jones – expressivo até a última ruga e, desde já, favoritaço ao Oscar. Lincoln também tem muitas chances, além das categorias de melhor filme, direção e ator (Day-Lewis), em fotografia (o diretor de foto Janusz Kaminski encontrou, numa paleta ocre-amarelada, um bom tom entre a sobriedade e a altivez) e em roteiro adaptado (o texto que o roteirista Tony Kushner adaptou da obra de Doris Kearns sobre a genialidade política do presidente tem diálogos arrebatadores).
A música de John Williams é over, como de costume, mas menos do que em Cavalo de Guerra (2011), filme anterior de Spielberg. Estando preparado para suas idiossincrasias, há boas chances de você gostar de Lincoln.
Veja o trailer:
Lincoln
De Steven Spielberg. Com Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader e Hal Holbrook.
Drama, EUA, 2012. Duração: 153 minutos. Classificação: 10 anos.
Cotação: 3 de 5













