– Gostou? – me perguntou a diretora de um espaço de arte da cidade.
– Não muito – eu disse. – Mas que mexe, mexe.
Depois fui olhar com calma: uma imensa vibração invade o corpo, chupa a gente para dentro do espaço, conduz de sala em sala, como um vórtice. Depois tranca: estamos na sala preta. Olhamos as paredes: desenhos, gravuras, quadros, tapetes, objetos, bonecos. O olhar de sempre. De quadro em quadro, de obra em obra. De repente, aquela vontade doida de voltar para o twitter/twister/tsunami. E, como num insight Instagram, de repente a gente vê quadros nas paredes, perfeita e logicamente encaixados em campos de cor, ou deixados propositadamente desencaixados. Os quadros falam entre si, com as paredes, as cores. Quando achamos que agora estamos acostumados ao ritmo da proposta vertiginosa, trava de novo: tudo é branco. É como fazer uma ginástica com os olhos e a alma. Estica, encolhe, faz força, relaxa.
Tem um segundo andar: lá é menos vórtice, mais como a prova de cor para impressão numa gráfica. A escala cromática de fora do quadro confere a de dentro. Mas engana-se quem pensa que agora a fruição flui. Também aqui o diretor do Margs, Gaudêncio Fidelis, consegue barrar e" complicar" tudo: de repente, estamos em uma sala em que nem mais quadros têm, apenas seu fundo: o chassis, os ganchos das molduras, uma sala branca com madeiras, linho, tecidos escurecidos pelo tempo e, eventualmente, uma assinatura de tirar o chapéu: Guignard, Weingärtner e colegas ilustres. Desnorteados, saímos desse quartinho/sala e, do lado de fora, como janelas fossem, vemos o outro lado das telas, o lado "bom" ou "direito".
Obrigada por esse outro olhar e as conversas animadas, acirradas, furiosas e elogiosas naquela noite quente e também gelada que foi a inauguração. Fomos sacudidos de corpo e alma. Que assim seja agora nesses meses que vai durar a exposição. Porto Alegre merece essa mexida durante o verão.
A exposição
> A mostra Cromomuseu: Pós-Pictorialismo no Contexto Museológico apresenta 223 obras do acervo do Margs, reunindo 147 artistas brasileiros e estrangeiros, de modernos a contemporâneos.
> O curador Gaudêncio Fidelis propôs pintar as paredes do museu com inúmeras cores, de forma a provocar diferentes percepções
no público.
> A mostra fica aberta até 31 de março, com visitação gratuita de terças a domingos, das 10h às 19h.













