Passa das 10h20min quando o inspetor Roberto Schelp, prancheta em mãos, entra irritado em um dos três ônibus estacionados em frente aos armazéns da Usina do Gasômetro.
- Pessoal, nós vamos atrasar a saída. Faz apenas uns 20 anos que a gente viaja e ainda há quem não saiba que precisa trazer documento de identidade.
Começa tensa e quase 50 minutos atrasada a décima e última viagem da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) em 2012. O destino _ Panambi, no noroeste gaúcho _ é um desafio logístico. Distante 375 quilômetros da Capital, beira ao limite de ser visitada sem o pernoite dos 60 músicos necessários para um concerto no Interior (toda a orquestra soma 80).
A Ospa vem de duas viagens desgastantes. O calor superior a 30°C em Santa Maria, no dia 3, castigou os músicos. Gramado, seis dias depois, seria um destino tranquilo, não fosse, na volta, o engarrafamento grande como uma tuba. Por essas e por outras, há um cuidado extra para que tudo corra bem até Panambi. Metade das amplas poltronas dos ônibus semileito está vazia. Tudo em nome
do conforto e do silêncio. Houve tempos de baralho e conversas, mas hoje a distração é basicamente notebooks, iPads, livros e sono, muito sono.
Deolindo de Azambuja viaja em silêncio. O banco ao lado é ocupado não por um colega, mas pelo violoncelo avaliado em mais de R$ 60 mil. O santa-mariense de 58 anos, 24 de Ospa, guarda semelhanças com a maioria da orquestra. Boa parte dos músicos descobriu o talento tarde _ Deolindo, aos 20 anos. Jaime Freiberger, do trompete, começou tocando corneta ao servir o quartel, já marmanjo. Julio Rizzo ingressou adolescente na renomada banda do Colégio Cristóvão de Mendonça, de Caxias do Sul.
_ Eu achava muito legal aquele uniforme inspirado na guarda inglesa, com aquele chapéu comprido, redondinho. Um belo dia fomos tocar em São Paulo e nos apelidaram de croquetes. Acabou todo o encanto _ diverte-se Rizzo, hoje no trombone.
O grupo de servidores públicos já maduros _ a média de idade é de 45 anos _ é heterogêneo em roupas, penteados e estilos. Não fossem os inusitados formatos geométricos das bagagens, não há quem adivinhe que formem uma orquestra.
Orquestra com sotaque
Alguns chamam a atenção, como o casal de olhos claros falando um idioma incompreensível. Naturais da Bielorrússia, Vladimir e Elena Romanov então entre os 13 estrangeiros da Ospa (todos naturalizados). Selecionados diretamente em Minsk há mais de 15 anos pela orquestra de Manaus, os Romanov resistiram sete anos ao calor amazonense até migrarem à mais amena Porto Alegre. O casal ainda saliva com a variedade de frutas do Brasil. Elena lembra que, certa vez, gastou um salário em Minsk para presentear a mãe com um abacaxi. As frutas da Amazônia, então...
- Como é aquela? Quando corta, vira estrela? - pergunta Vladimir à mulher.
- Carambola.
- Isso! E aquela outra? Branca dentro?
- Cupuaçu.
- Aaaah, cupuaçu...
Por volta das 18h, o grupo desembarca em um hotel reservado por apenas 1h15min. É o tempo de tomar banho, vestir os trajes e zunir para a apresentação.
Após receber os músicos e acomodá-los nos quartos, o coordenador de produção Eder da Silva se aproxima de um rapaz no lobby. Tão alinhado quanto apressado, Eder cumprimenta o sujeito com um aperto de mãos e pergunta no que pode ajudá-lo. O rapaz não faz a mínima ideia. Eder olha para o lado e só então percebe que não está conversando com o repórter de ZH. Sorrindo constrangido, caminha até o sofá para a entrevista combinada minutos antes.
_ Desculpa. É tanta coisa que eu estou enlouquecendo hoje.
Eder não costuma viajar na véspera, mas precaveu-se dessa vez. Assegurou-se de que a espaçosa Associação dos Funcionários da Cotripal comportasse bem o palco da orquestra. No Interior, Éder tem simpatia por concertos em igrejas _ "são democráticas e têm boa acústica" _ e foge de ginásios, tetos de zinco e palanques de prefeitos politiqueiros.
Embora não haja cachê, receber a Ospa exige um investimento de R$ 20 mil. O valor assusta uma série de interessados, ainda assim, a orquestra analisa 20 convites para 2013. Estão asseguradas as viagens e o desafio de mais um ano lidando com ânimos.
_ Músicos são históricos glutões. Quer vê-los furiosos, deixa sem comida.
Não é o caso em Panambi. Após a passagem de som, um café de proporções coloniais recebe os músicos, que cochicham para a reportagem "não escrever lá que é sempre assim". Em razão da "crise dos RGs esquecidos lá no início da manhã", corneta Eder, eles têm mais comida do que tempo para degustar. Comerão com mais tempo na janta, depois da apresentação.
Copa, dança e calor humano
Panambi recebera a Ospa pela última vez em 2003, e faz do reencontro o evento do ano. Uma fila para ocupar os 1,2 mil lugares cresce desde as 19h, duas antes da apresentação. Furam a fila apenas as moradoras de um lar da velhice especialmente convidadas.
O concerto começa com um repertório acessível ao grande público, regido pelo maestro Wenceslau Moreyra. São obras clássicas familiares de comerciais de sabonetes, trilhas de filmes, a Ave Maria entoada pela soprano Rosimari Oliveira e até um poema de Luiz Coronel, declamado com fundo musical pelo próprio Eder, que é também cantor lírico. As crianças já dançam em cima das cadeiras quando as canções natalinas encaminham o concerto para o final.
À direita do palco, ao fundo do salão, uma copa de bailão ameniza o calor. Excepcionalmente, só com água mineral. Ao fim do concerto, maestro e orquestra estão ensopados.
_ Muito calor. Humano, inclusive _ diz o violoncelista Deolindo, sorridente, aos pingos.
A apresentação se encerra com humildes e emocionados agradecimentos de Vera Knorr, representante da Hidropan, empresa patrocinadora do evento ao lado da Saur. Após um discurso que une Erico Verissimo, Eva Sopher, Luiz Coronel, Martha Medeiros e até o Pequeno Príncipe, Vera enfim presenteia o maestro. Não com o tradicional buquê de flores, mas com uma singela cesta com vinho, grostoli, cuca e schimier.













