Carlos Gerbase tem papel protagonista no tema das reportagens publicadas em Zero Hora sobre o atual cenário do cinema gaúcho: é um dos mais experientes cineastas do Rio Grande do Sul, com seis longas-metragens no currículo. Além de ser um dos mentores da faculdade de Cinema da PUCRS, da qual foi coordenador e hoje é professor, é também um dos diretores dos 12 longas gaúchos que estrearam em 2012, com Menos que Nada.
Ele já realizou longas como Inverno, em super-8, na alvorada do cinema gaúcho que despontou nacionalmente no começo dos anos 1980, Sal de Prata, em película 35mm, com orçamento generoso, elenco com estrelas globais e lançamento nacional por uma grandes distribuidora, e 3 Efes, produção no suporte digital de custo baixíssimo tocada com seus alunos e apresentada simultaneamente em cinema, TV, DVD e internet – embrião que apontou ao diretor o caminho a ser trilhado em Menos que Nada. Pela sua trajetória e experiência, é um defensor de um novo modelo de realização cinematográfica, mais enxuto e voltado para múltiplas plataformas.
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Confira a íntegra da entrevista:
Zero Hora – O expressivo número de longas gaúchos em 2012 é para ser comemorado ou deve ser relativizado?
Carlos Gerbase – Sempre devemos comemorar quando há quantidade, diversidade temática e diferentes propostas estéticas. Acredito que a qualidade depende da quantidade, desde que essa não seja artificial. E, pelo contrário, o que vemos é uma mistura saudável de experientes e jovens realizadores, que fizeram seus filmes com sistemas de produção igualmente variados. Mas há um dado interessante: dos 12 longas, apenas cinco são de ficção. Os sete documentários gaúchos seguem uma tendência nacional de crescimento do setor, que deve encontrar seu mercado na TV e não nas salas. Não creio que cinco longas de ficção por ano sejam muito para o Rio Grande do Sul. Pelo contrário: podemos fazer mais.
ZH – Exibir o filme em uma sala de cinema é um fetiche a ser repensado diante das múltiplas plataformas hoje existentes para lançamento, como a que tu usaste em Menos que Nada e em 3 Efes?
Gerbase – Exibir o longa em uma sala legitima a sua condição de "cinema", o que é importante nestes tempos em que quase tudo é feito em vídeo digital de alta definição. Esse "carimbo" que uma temporada – mesmo curta e discreta – dá ao filme ainda é importante para a carreira do diretor, especialmente se ele estiver e começo de carreira. Nos meus dois últimos longas, fiz o que me parecia ser o óbvio: colocar na sala e, ao mesmo tempo, em suportes mais massivos. Mas não se trata de uma receita para qualquer filme. É preciso descobrir a melhor estratégia a partir do dinheiro disponível para o lançamento. No Brasil, hoje, quando o primeiro final de semana é decisivo, acho que, com menos de R$ 500 mil, não há qualquer chance real de conseguir um circuito razoável para um lançamento exclusivo em salas.
ZH – O Estado tem pelo menos três boas escolas superiores de cinema. Existe mercado para esta mão de obra cada vez mais qualificada?
Gerbase – Essa mão de obra vai qualificar e aumentar o nosso mercado. Não tenho qualquer dúvida. Mas estou falando do mercado audiovisual como um todo: cinema, TV aberta, TV por assinatura, publicidade, internet, celular, cross-midia. É preciso pensar nas necessidades específicas de todas esses segmentos. Muitos alunos formados pelo TECCINE (faculdade de cinema da PUC/RS) estão fazendo sucesso no mercado porque eles têm uma formação técnica e estética bem ampla. É preciso ter jogo de cintura, espírito empreendedor e muita polivalência.
ZH – Qual o quadro que tu vislumbras para um jovem que quer ser diretor de cinema?
Gerbase – Pergunta errada! Hoje o mercado precisa muito mais de assistentes de direção, produtores, roteiristas, fotógrafos, montadores, diretores de arte e assistentes de produção. Ser diretor é uma circunstância, algo que acontece na vida de poucas pessoas, que conseguem ter uma visão pessoal e autoral de um processo que é sempre coletivo. Quem quer ser diretor deve começar sendo outras coisas antes.
ZH – O que poderia ser aprimorado, por exemplo, nos mecanismos de fomento, sobretudo os estaduais?
Gerbase – Precisamos de regularidade. Precisamos que o edital de finalização seja feito todos os anos, religiosamente. Precisamos que os APLs (Arranjos Produtivos Locais) na área do audiovisual deem certo, e a Fundacine está trabalhando duro para que isso aconteça. Precisamos, urgentemente, de mais integração com as TVs, que elas ampliem seus orçamentos e tenham uma certa ambição de mercado. E sonhamos com uma grande empresa que financie um edital de longas, o exemplo do que era o Prêmio RGE.









