Antonio Pederneiras interpretou como sinal de sorte o feito corriqueiro daquele primeiro dia de trabalho na TV Gaúcha, em março de 1967. Da Avenida Getúlio Vargas ao topo do Morro Santa Tereza, o ônibus venceu o trajeto lomba acima, contrariando sua sina mais comum – geralmente empacava no mesmo ponto da Rua Correia Lima, quando o motor esquentava demais.
– Pô, que maravilha – vibrou o caxiense que chegara à Capital ainda com o sonho de se manter no mercado de compra e venda de móveis usados.
No segundo dia, o coletivo velhote não aguentou o tranco, obrigando os passageiros a completar o percurso na pernada. Mas o imprevisto, de tão previsível, não era indicativo de azar – Pederneiras já estava contratado, a um salário mínimo de 95 cruzeiros novos e 63 centavos, como cabo man, um auxiliar de câmera. Manejava os fios das câmeras, evitando que os cinegrafistas tropeçassem ao correr entre um estúdio e outro, na aflição de uma programação feita essencialmente ao vivo, sem concessões a erros e desatenção.
– Cheguei lá, e me adotaram – lembra, constrangido ao chorar, o cinegrafista de 65 anos, que neste 2012 completa 45 anos na empresa. – Me deslumbrei com o que estava vendo.
Pederneiras é o funcionário mais antigo em atividade na emissora, inaugurada em 29 de dezembro de 1962, em cerimônia que contou com o presidente João Goulart e o governador Leonel Brizola entre os convidados.
O segundo canal a operar no Rio Grande do Sul chegava três anos depois da Piratini, representando um investimento ousado e de alto risco, que apostava no encantamento do público para prosperar.
– A gente olhava aquilo, Maurício (Sirotsky Sobrinho, fundador) e eu, como um veículo do futuro, mesmo que a sua disseminação ainda fosse pequena. No mercado americano, a televisão era uma febre. Pensamos: vai acontecer aqui também – relembra Jayme Sirotsky, presidente emérito do Grupo RBS.
Pederneiras: 45 anos atrás das câmeras da RBS TV / Foto: Arquivo pessoal
Ao vivo e sem improviso
A RBS TV nasceu em preto e branco, em um prédio "flamante", como recorda Jayme Sirotsky, e com equipamentos modernos adquiridos nos mercados europeu e americano. A programação ocupava algumas horas do dia, e a grade daqueles primórdios permitia que pequenos improvisos consertassem os imprevistos – se um problema técnico tumultuava a transmissão ou caso atrasasse a remessa de videotapes e filmes encomendados de outros Estados ou do Exterior, um desenho animado poderia preencher um eventual vazio de 10 minutos.
– Sempre ouço falar que a TV era improviso. Não. Você pode improvisar quando vai gravar um programa: volta, faz de novo, demora. Ao vivo, não dá para improvisar nada, tem que preparar antes, ensaiar, sob pena de fazer uma besteira e partilhá-la com todos os telespectadores. Era difícil? Era. O pessoal sabia fazer? Sabia, e muito. Mas os recursos eram menores – explica o jornalista Sérgio Reis, 74 anos, contratado em 1963 como diretor.
Os anos 1960 logo criaram seus primeiros sucessos – Ringue Doze, campeão de audiência no domingo à noite, entre 1964 e 1969, com a luta livre de Ted Boy Marino, Verdugo e Tigre Paraguaio, e GR Show, comandado por Glênio Reis nas tardes de sábado, a partir de 1967. Os comerciais também eram ao vivo. Enquanto as anunciadoras caminhavam entre fogões e refrigeradores da Imcosul, o time dos bastidores forcejava para deslocar equipamentos pesadíssimos entre um estúdio e outro. Com quatro lentes disponíveis, trocadas na hora pelos cinegrafistas, as câmeras exigiam os braços de dois homens no transporte.
Dentro de casa, também se experimentava uma novidade. De tão aguardado, o início das transmissões no Rio Grande do Sul criou um tipo curioso de consumidor: aquele que adquiriu o aparelho quando o serviço ainda nem estava disponível. Sérgio Reis lembra que a mãe, viúva, parcelou em muitas prestações um Philips 17 polegadas, em 1959, antes mesmo de o filho começar a trabalhar na TV Piratini, emprego que manteve antes de suas duas passagens pela TV Gaúcha.
– Era um enfeite na sala, mas ela não queria perder nenhum minuto do filhinho querido – diverte-se o jornalista.
Logo despontaram os televizinhos. Quem tinha televisão abria a porta e apontava o caminho do sofá para aqueles que não tinham.
– Ela ficava toda exibida, pois aparecia o nome do filho na TV. Depois, virou rotina. Às 18h30min, já estava arrumando as cadeiras na sala, fazendo pipoca na cozinha. Os vizinhos chegavam e nem cumprimentavam. Davam tchau às 22h30min. Minha mãe ficava furiosa – completa Sérgio Reis.
Na família da artista plástica Ena Lautert, 88 anos, viu-se empolgação parecida. O aparelho, comprado em uma viagem aos Estados Unidos, chegou antes do sinal. Entre dezembro e março, a televisão ia para a casa de praia, em Atlântida. No restante do ano, ficava na residência do bairro Petrópolis, um lugar ainda ermo na década de 1950, repleto de potreiros.
– Tinha tambo de leite, era tudo verde e bonito. Achava muito engraçado: eu ficava ali, e os vizinhos vinham para assistir – recorda Ena, hoje no Moinhos de Vento. – Sempre gostei de fazer tricô enquanto assistia. Fiz tanto tricô na minha vida que tu não podes imaginar.
# Em fotos, confira uma linha do tempo com a história da RBS TV













