Lembranças da ditadura09/12/2012 | 21h48

'Infância Clandestina', em cartaz na Capital, é aposta argentina para o Oscar

Longa resgata autobiografia do diretor Benjamin Ávilla, que se exilou com a mãe guerrilheira

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'Infância Clandestina', em cartaz na Capital, é aposta argentina para o Oscar imovision/Divulgação
Natalia Oreiro e Teo Gutiérrez Romero interpretam mãe e filho no longa Foto: imovision / Divulgação

O cineasta Benjamín Ávila tinha sete anos quando viu sua mãe pela última vez, em 1979. Militante do grupo de guerrilha Montoneros, ela, após ser presa, entrou para a lista dos milhares de desaparecidos durante a violenta repressão da ditadura argentina (1976 — 1983) aos opositores. Sua morte é uma dedução, que, na ausência de um corpo para sepultar, se consolidou em certeza por meio de relatos e testemunhos dos horrores cometidos nas salas de tortura, dos assassinatos sumários e dos corpos lançados no mar pelos voos da morte. 

A traumática experiência inspirou Benjamín a realizar o documentário Nietos (2004), sobre a busca das Avós da Praça de Maio por crianças raptadas pelos militares, e o curta-metragem Veo Veo (2011), este com roteiro do brasileiro Marcelo Müller. A parceria deles se repetiu em Infância Clandestina, em cartaz desde sexta-feira em Porto Alegre. O drama com passagens autobiográficas representa a Argentina na disputa por uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. ZH conversou com Ávila e Müller. Confira:

Zero Hora – Depois de Benjamín tratar da ditadura argentina por duas vezes, o que motivou a realização de Infância Clandestina?

Benjamín Ávila – Sempre tive o desejo de falar do período, entre quatro e sete anos, em que vivi no exílio e na clandestinidade com minha mãe. Em 1979, ela voltou à Argentina para a chamada contraofensiva dos Montoneros para combater o governo militar. Sempre quis entender por que minha mãe expôs eu e meus irmãos a essa vida. E compreendi depois as razões de sua luta e que ela nunca poderia imaginar que as consequências seriam aquelas. Mas nunca quis fazer um filme autobiográfico. Há histórias reais e outras que representam ficcionalmente pessoas e situações daquele universo. A presença do Marcelo foi muito importante por trazer o olhar externo e fazer com que a história tivesse vida própria.

Marcelo Müller – Nos conhecemos na escola de cinema de San Antonio de los Baños, em Cuba, onde o Benjamín era professor e eu, aluno. Ficamos amigos e, quando recebi uma oferta de trabalho em Buenos Aires, morei um tempo na casa dele. Foi uma parceria interessante, o Benjamín com seu envolvimento direto na história, e eu como o estrangeiro que vê de fora tanto o drama pessoal quanto aquela realidade. Buscamos criar personagens autônomos. Depois, ajudei a fazer a ponte com a produtora (paulista) Academia de Filmes, que viabilizou a coprodução do filme.

ZH – Embora trate de um tema denso, a trama tem doses de humor. Como foi encontrar esse equilíbrio?

Benjamín – A vida não é só drama ou só alegria. O que eu via era uma realidade em que se sentia medo e pânico, mas também se ria bastante. Tínhamos momentos de muita felicidade. Para uma criança, a vida seguia seu rumo normal, com a escola e os amigos.

ZH – Infância Clandestina tem como produtor Luis Puenzo, diretor de A História Oficial (1985), também um drama ambientado na ditadura argentina, que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro. Como ele entrou no projeto?

Benjamín – Desde 2006 eu estava com tudo pronto para realizar Infância Clandestina, mas encontrei dificuldades. Talvez por ser este um tema recorrente no cinema argentino. Até que um dia consegui uma reunião com o Luis Puenzo, que gostou do projeto, percebeu que era uma história diferente, contada de dentro e com o olhar de uma criança, e abraçou a ideia.

ZH – Qual a expectativa diante de uma possível indicação ao Oscar?

Benjamín – Se vier a indicação, vamos comemorar muito, como comemoramos outros prêmios (foram 10 troféus conquistados na semana passada na cerimônia da Academia Argentina de Cinema, entre eles os de melhor filme, direção, atriz, ator e roteiro) e o sucesso do filme junto ao público (é o mais visto no ano na Argentina) e crítica. Mas, mesmo com a boa recepção em Cannes (foi exibido na mostra Quinzena dos Realizadores) e com a candidatura ao Oscar, não alimento expectativas. Desfruto cada momento. Então, vamos esperar.

ZH – Na Argentina lida-se com os rescaldos da ditadura de forma bem mais incisiva do que no Brasil, punindo responsáveis por torturas e assassinatos. Como foi para você, Marcelo, ter contato com esse outro lado da ditadura?

Marcelo – Ver como estas cicatrizes ainda seguem abertas na Argentina mexe com a gente. Não dá para comparar com o que ocorreu no Brasil. Na Argentina, por exemplo, existe esta questão das crianças desaparecidas que ainda não se encerrou. É um crime em andamento. Diego, irmão mais novo do Benjamín, foi levado pelos militares quando era um bebê, em 1979, e recuperado pela avó deles apenas em 1984.

ZH – Os filmes argentinos costumam ser elogiados por seus roteiros, um problema, no senso comum, que afeta o cinema brasileiro. O que você acha disso?

Marcelo – Acho que sou um caso único (risos). Essa impressão sobre os filmes argentinos se dá muito porque apenas uma pequena parcela deles chega ao Brasil, em geral aqueles que receberam boas críticas e foram sucesso de público. O problema não está nos roteiristas brasileiros, que são muito bons, mas na forma como se encaminha a realização de um filme no Brasil. Na Argentina, um projeto só vai adiante na busca de financiamento se tiver um roteiro bem estruturado, que é avaliado por um comissão de especialistas. No Brasil, isso não parece ser importante. O gerente de marketing de uma empresa, que nada entende de roteiro, julga se um projeto é merecedor de apoio por outros critérios. É um processo antigo, que deveria ser revisto. Imagino que existam muito bons roteiros por aí, mas o melhores não são filmados.

ZH – O que Infância Clandestina tem da história real do Benjamín (no filme o garoto, vivido por Teo Gutiérrez Romero, tem 12 anos e troca o nome de Juan para Ernesto quando passa a viver na clandestinidade com a família)?

Marcelo – Muitas situações são idênticas às que Benjamín viveu, como a cena em que ele é deixado pelos militares na frente da casa da avó. Outras foram criadas para dar conta de todo o universo daquela realidade. O pai do Benjamín (vivido pelo ator uruguaio Cesar Trancoso) não era da guerrilha, pois havia se separado da mãe dele anos antes. O personagem do tio (papel de Ernesto Alterio) também é fictício, inspirado em Horacio Mendizábal, um dos líderes dos Montoneros. Também trocamos o irmão raptado por uma irmãzinha.

ZH — Por que razão as cenas de maior tensão no filme são ilustradas por animações?

Marcelo — As animações estão presentes desde as primeiras versões do roteiro. Como o ponto de vista da história é o de um menino, e a narrativa incorpora sonhos e reflaxões do interior do personagem, achamos que as animações eram o melhor recurso para ilustrar as cenas de violência. Reviver essa imagens de forma realista nada acrescentaria à história.

 

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