Grande parte desse conteúdo, tem notado o espectador, já abastece os canais de filmes. E alguns títulos destacam-se na programação.
Entre esses filmes está o premiado longa gaúcho O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, que terá neste mês de dezembro nove sessões, segundo o guia de programação da maior operadora de TV por assinatura do país. Apenas três dessas exibições são no Canal Brasil, tradicional enclave da produção nacional – e, por isso, não afetado pela legislação, que impõe aos canais classificados como de espaço qualificado (os que exibem filmes e seriados, entre outros) a cota de duas horas e 20 minutos semanais de produção brasileira até setembro de 2013 (a partir daí, passa para três horas e 30 minutos semanais). As demais exibições de O Homem que Copiava foram nos canais AXN, Fox e Sony. Como esses estão disponíveis nas versões comum e HD, as chances de cruzar com o filme se duplicam em cada um deles.
Curiosamente, teve um dia, 8 de dezembro, que O Homem que Copiava foi por instantes exibido em dois canais diferentes (ou quatro, consideradas versões comum e HD). No mesmo momento, podia-se assistir também a outro longa de Furtado, Saneamento Básico – O Filme. E, pouco antes, havia passado Houve Uma Vez Dois Verões, do mesmo cineasta, que ainda tem rodando na grade Meu Tio Matou um Cara.
– Os amigos dizem que, às vezes, parece um festival Casa de Cinema de Porto Alegre – brinca Nora Goulart, sócia da produtora gaúcha responsável pelos filmes de Furtado e também por Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, que faz parte das grades dos canais Telecine e Megapix. – A lei abre novas janelas para o filme se pagar, dá mais visibilidade ao diretor e ao elenco para projetos futuros.
Nora explica que a comercialização do filme com os canais é feita pela distribuidora, em forma de pacotes e com valores e tempo de exibição estabelecidos caso a caso. Numa realidade em que não se costuma falar em cifras, sabe-se que o retorno financeiro do produtor com a exibição na TV, no caso de um sucesso de bilheteria, é menor do que o obtido nos cinemas. Mas, para grande parte dos filmes brasileiros, os que passam batido pelo circuito, a TV garante uma exposição e um reforço de caixa a serem comemorados.
Os principais canais de filmes não se manifestam sobre o tema, sob a alegação de a lei ainda ser recente e estarem em período de adaptação ou de que o assunto envolve estratégia comercial. Uma exceção é a Fox.
– A audiência com os filmes nacionais tem sido relevante. Desde que a nova lei começou a valer, tivemos alguns picos de audiência com estas exibições _ afirma Paulo Franco, vice-presidente sênior de Conteúdo e Programação da Fox International Channels Brasil, citando como sucessos de audiência produções como 2 Filhos de Francisco e Se Eu Fosse Você. – Procuramos sempre trazer um conteúdo diversificado e de qualidade, com filmes de drama, ação, comédia e os voltados ao público infantil.
Para Jorge Furtado a nova lei vai beneficiar todo tipo de filme nacional:
– Melhor é impossível. Os canais segmentados sabem qual é o perfil de seu público, podem buscar filmes específicos como de terror, que ainda são poucos, comédia, drama, documentários. A grande vantagem é que isso faz do teu filme um produto durável. O Houve uma Vez Dois Verões já tem 10 anos e segue passando e, pelo jeito, agradando. Se um filme brasileiro que faz três milhões de espectadores no cinema é um grande sucesso, na televisão é visto por 20 milhões de pessoas.
Em busca da diversidade
Um bom começo, mas muito ainda a avançar. Essa é uma percepção que se tem ao avaliar os primeiros meses de vigor da nova Lei da TV Paga e seu impacto no cinema brasileiro.
O que se observa é uma aposta dos canais em filmes avalizados pelo público em sua passagem pelos cinemas. Produções com perfil mais autoral, por exemplo, estão restritas ao Canal Brasil – não afetado pela lei – e a iniciativas como a do canal Max, que programou para dezembro títulos como o elogiado Trabalhar Cansa, de Juliana Rojas e Marco Dutra, com boa passagem pelo circuito de festivais, entre eles o de Cannes.
– Gostaria que os programadores estabelecessem relações temáticas entre os filmes – diz a crítica e pesquisadora de cinema Maria do Rosário Caetano. – Um exemplo recente: Tropicália, Tropicalismo Now! e Uma Noite em 67. Ou os melhores momentos da chanchada ao longo de várias semanas etc. E um filme, em especial, Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro de Andrade
A nova lei tem alguns pontos controversos. Um deles diz respeito às reprises: o canal pode passar os mesmo filme quantas vezes quiser. Outro se refere aos filmes clássicos. Um dispositivo diz que, a partir de 2015, parte do conteúdo nacional deverá ser produzida nos sete anos anteriores a sua veiculação. Isso, afetaria canais como o TCM, voltado a filmes mais antigos – embora este, por enquanto, programe títulos como Zuzu Angel e Casseta e Planeta – A Taça do Mundo É Nossa.
– A TV a cabo parece fugir do cinema em preto e branco. E há que se lembrar que o cinema brasileiro incorporou a cor muito tarde. Para valer mesmo, só no final dos anos 60 – destaca Maria do Rosário.
A crítica ressalta a importância da lei para a formação de público e fortalecimento da produção local.
– Conhecer os filmes fideliza o espectador. Se ele gosta, claro que vai querer ver outros do mesmo diretor. Ajuda a capitalizar as produtoras. Quanto mais vitrines uma cinematografia tiver, mais condições de se viabilizar ela terá.













