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"Por que esse filme precisou ser feito?" O blogueiro Carson Reeves estava questionando o propósito de "Hitchcock", o filme da Fox Searchlight estrelado por Anthony Hopkins como um diretor que arrisca sua reputação em um projeto duvidoso intitulado "Psicose".
A cinebiografia, na opinião de Reeves, pareceu estranhamente preocupada com as obsessões alimentares de Hitchcock. "Quando as coisas não vão bem, ele come", Reeves acrescentou. "Nada mais profundo do que isso aparece, na verdade." Concluindo sua análise, Reeves marcou uma caixinha com a opção "mal vale a pena ler".
Quando publicou esse comentário, em 30 de outubro, Reeves não tinha visto "Hitchcock" (que foi lançado em 23 de novembro). Ele estava, na verdade, avaliando o roteiro escrito por John J. McLaughlin.
A análise de roteiros é a moeda corrente do ScriptShadow, blog de Reeves, dedicado à crítica de trabalhos em andamento desenvolvidos por profissionais e experimentos de amadores. Durante cinco dias por semana, ele oferece ensinamentos arejados sobre a teoria dos roteiros, transmitindo dicas sobre estrutura, personagens e diálogos para um público ávido de aspirantes a escritor.
O altruísmo de Reeves não passou despercebido. Pode ser que em uma segunda-feira ele receba uma notificação de um estúdio furioso exigindo que um determinado material protegido por direitos autorais não seja distribuído; e que na terça-feira seguinte, fique sabendo que Hollywood está em polvorosa porque um projeto amador que ele elogiou pode fazer com que esse mesmo estúdio ganhe milhões de dólares.
Entre as centenas de assistentes e leitores que vasculham roteiros tentando encontrar futuros sucessos, ninguém é mais visível e polêmico do que Reeves, que pretende transformar sua notoriedade em um papel participativo na indústria.
— As pessoas têm que entender que ninguém abordou o sistema dessa forma antes — explicou. — Então, qualquer um que diga que isso é proibido está sendo bobo.
Aos 30 e poucos anos, Reeves – cujo nome verdadeiro é Christopher Eads – chegou a Los Angeles há quase 10 anos, com a esperança de escrever e dirigir. Depois de digerir as lições extraídas da leitura de centenas de roteiros, parte de uma educação informal, ele criou o ScriptShadow no início de 2009, a fim de desconstruir iniciativas profissionais e interagir com outros aspirantes a escritores.
O site não chamou atenção e definhou. Reeves, que dava aulas de tênis, voltou para sua cidade natal, Chicago. Então, em julho de 2009, publicou um comentário sobre o roteiro de Aaron Sorkin para "A Rede Social", um projeto que havia sido ridicularizado na Internet por seu objetivo, aparentemente inatingível, de detalhar as origens do Facebook.
Reeves amou o roteiro. Os elogios se espalharam pela web, mesmo mais de um ano antes do lançamento do filme. — Depois disso — lembrou ele, — começaram a entrar em contato comigo de Hollywood.
O tráfego do site (hoje hospedado em ScriptShadow.net) aumentou. Reese compartilhava os roteiros que vazavam por meio de uma lista de e-mail privada e começou a convidar os leitores a contribuírem com suas ideias e textos originais. A maioria deles era dissecada no site, alguns se mostravam promissores, e a reação encorajava os roteiristas a continuarem trabalhando.
— Todo mundo diz: 'Leia os roteiros' — disse Emily Blake, roteirista de Los Angeles. — Ninguém diz onde encontrá-los. E aí apareceu o Carson dando acesso a eles e falando sobre o que fazia um roteiro funcionar ou não. Pareceu uma boa ideia.
Não para John August. Ele próprio um blogueiro popular, August é um roteirista cujo currículo inclui "Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas" e "Charlie e a Fábrica de Chocolate". As práticas de Reeves, disse ele, estão causando danos irreversíveis aos profissionais.
— O que ele faz é literalmente olhar para o projeto de um prédio e, em seguida, escrever uma crítica do prédio — disse August. Em uma cidade onde muitas vezes se hesita quanto a fazer investimentos de milhões, levantar dúvidas sobre um trabalho que ainda está sendo aperfeiçoado poderia inviabilizar negócios.
— A palavra que eu usaria é antiético — disse o produtor Christopher Lockhart. — Tem gente que simplesmente acha que é competente só por ter informações que outras pessoas não têm.
Para alguns, o fato de Reeves focar em roteiros que ainda estão sendo desenvolvidos serve como um cavalo de Tróia em prol de seus esforços para rentabilizar a marca ScriptShadow. Ele cobra de 500 a 1,5 mil dólares para ler e avaliar pessoalmente o roteiro de um neófito. Se ele for efusivo o suficiente, o trabalho pode ser repassado para a sua rede de contatos. Alguém que mora no Kansas, sem ter nenhum parente no setor, pode se tornar conhecido.
Esse tipo de venda de bilhete dourado para o sucesso poderia ser repudiado se não fosse por Tyler Marceca, que ignorou o princípio, corrente na indústria, de nunca pagar para que alguém leia um roteiro seu. Marceca apostou em um roteiro inspirado em uma sacada do roteirista Robert Mark Kamen ("Busca Implacável") e o transformou em um thriller tecnológico, "The Disciple Program", sobre um homem que percebe que a morte da esposa não foi um acidente.
No início deste ano, Marceca pagou Reeves por uma crítica do roteiro, cujo profissionalismo, conta ele, impressionou-o de imediato. — Comecei, então, a tuitar a respeito — disse ele. Os profissionais do setor foram à loucura: quem era o agente de Marceca? E o seu empresário? Ele não tinha nenhum dos dois.
Reeves encaminhou o roteiro para alguns contatos; dentro de dias, Marceca recebeu ofertas de grandes estúdios e agentes.
— Os agentes fazem essas coisas de uma forma muito calculada — disse Reeves. — Eu fiz tudo sem hesitar.
Por fim, Marceca assinou com a William Morris Endeavor. "The Disciple Program" está sendo desenvolvido na Universal, com Mark Wahlberg como protagonista, após ser assinado um contrato que supostamente prevê o pagamento de um valor na casa de seis dígitos a Marceca. Reeves não tem participação financeira no projeto (nem Kamen), mas de repente foi visto como alguém influente. "Todo mundo ficou perguntando: 'Você tem como indicar um próximo 'The Disciple Program'?", contou ele.
Ao todo, Reeves estima que ajudou cerca de uma dúzia de roteiristas a conseguir um agente ou emplacar uma venda de material original, auxiliando outra dúzia a entrar em contato com produtores não tão badalados e diretores que não necessariamente chegam às manchetes comerciais.
O trabalho, a princípio, parece o de um agente. Mas no caso de "300 Anos", o último roteiro amador que Reeves se empenhou em divulgar, Reeves resolveu se associar como produtor. A atitude parece colocá-lo em uma posição contraditória em relação aos honorários que cobra para comentar os roteiros. Como aponta a maioria dos profissionais, praticamente nenhum produtor cobra para ler textos originais. Isso, dizem eles, é uma prática predatória que explora os roteiristas.
Reeves discorda. Toda sexta-feira, a seção Amateur Friday do site publica uma análise de roteiro que não custa nada, diz ele, e seu modelo de negócio teve poucos precedentes. Sobre August e outros críticos, disse o seguinte: — Eles são profissionais há tanto tempo que esqueceram da dificuldade e da frustração de não conseguir ninguém para ler o seu roteiro.
O ScriptShadow, diz ele, em breve vai se tornar uma espécie de laboratório de roteiristas, uma sala de escritores virtuais "em que os autores incentivam uns aos outros a produzir textos melhores". Ele sonha com o dia em que o site vai ser apenas uma oficina de amadores, sem a polêmica que acompanha a exposição de trabalhos protegidos por direitos autorais.
Será, porém, que o estrago já foi feito? Vários roteiristas profissionais avaliados por Reeves e contatados para conceder entrevistas para este artigo se recusaram a comentar o assunto, ressentindo-se das práticas do blogueiro. Um roteirista adversário (e anônimo) tuitou o que achava de um roteiro que alguns dizem ter sido escrito por Reeves. O comentário acabou com o texto do blogueiro. Reeves não confirma a autoria, mas mostra não ter problemas com a situação.
— Posso confirmar que existem alguns péssimos roteiros meus por aí — disse ele. — Eu já escrevi coisas terríveis.









