Não basta ser ouvinte17/12/2012 | 17h50

Aplicativo convida o público a interferir nas músicas

Com o projeto criado por Jorge Drexler é possível intervir nas canções até mesmo caminhando

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Aplicativo convida o público a interferir nas músicas Thomas Canet/Divulgação
Foto: Thomas Canet / Divulgação

– Não é um projeto tecnológico, é um projeto de poesia – afirma Jorge Drexler sobre seu novo aplicativo, recém-lançado na internet.

Se as ideias do músico uruguaio são produto de um trabalho artesanal minucioso, ao navegar pelo “aplicadisco” N, fica claro que a tecnologia é uma grande aliada das canções. Cada faixa faz uso das possibilidades das telas sensíveis ao toque e do som de alta fidelidade que os dispositivos são capazes de emitir. Mas o compositor vai ainda mais longe: como os versos de Habitación 316 – que formam diferentes combinações a cada audição –, tecnologia e criação se embaralham e se confundem.

– O mais importante deste projeto, para mim, é que essa metodologia permite ampliar a possibilidade de se gerar novas metáforas, dependentes não do texto da música, mas da interface – avalia Drexler.

A explicação fica mais clara ao experimentar Madera de Deriva. Experimentar porque, para conhecer em sua totalidade a canção, que fala sobre o quanto somos marcados pelo “caminho sem direção da vida”, é preciso caminhar. A cada duas centenas de metros, mais um instrumento é liberado na orquestra que acompanha a voz de Drexler, único elemento presente desde o princípio da experiência.

– Um GPS pode gerar arte! – exclama o cantor, que diz usar seu telefone como aliado na hora de compor há mais de dois anos. Se a audição de música no novo formato é fácil e divertida, o processo de produção é tortuoso.

Para finalizar Décima a la Décima, última canção do projeto, Drexler levou um ano. Cada estrofe foi escrita e gravada por um convidado diferente (sendo Vitor Ramil o único brasileiro do grupo, que conta com a presença de Daniel Drexler, Xoel López e Kevin Johansen). Ao ouvi-la, pode-se facilmente escolher qual dos cantores entoará o verso seguinte, mantendo a rima sempre intacta e alterando o sentido.

– Queríamos que a aplicação fosse simples, que até meu filho de quatro anos pudesse usar. Ele não sabe ler, mas a versão que ele cria faz sentido – conta Drexler.

Para o músico, porém, a dependência de telefones e tablets não deixa de ser também um motivo de questionamento.

– Me preocupa que só quem tem esses aparelhos possa ouvir – confessa, antes de ponderar. – Mas não poderia esperar para lançar essa experiência.


Fez o que pôde. Graças a uma parceria com a Samsung, o disco, que seria lançado apenas para o sistema de telefones e tablets da Apple, ganhou versão capaz de navegar no amplo oceano de dispositivos Android.

A aventura metalinguística de Drexler herda problemas das velhas mídias. Um dia após conversar com ZH, o cantor emitiu um pedido de desculpas aos ouvintes que vinham relatando dificuldades em explorar Madera de Deriva.
Navegar no desconhecido também tem seus imprevistos.

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