The New York Times05/12/2012 | 06h57

Andrew Solomon é um escritor que abraça a diferença

Novo livro do autor norte-americano trata sobre crianças que nascem ou crescem de uma maneira inesperada para os pais

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Andrew Solomon é um escritor que abraça a diferença Gabriele Stabile/NYTNS
Escritor Andrew Solomon (à diteita) brinca com o companheiro e com o filho na casa do casal, em Nova York Foto: Gabriele Stabile / NYTNS
Charles Mcgrath


O enorme novo livro de Andrew Solomon, "Far From the Tree: Parents, Children, and the Search for Identity" ("sem ter a quem puxar: pais, filhos e a busca da identidade", em tradução livre), fala de crianças que nascem ou crescem de uma maneira inesperada para os pais. É um assunto que Solomon conhece por experiência própria. Quando criança, ele era disléxico e teve dificuldades para aprender a ler. Como descreveu em "O demônio do meio-dia", que ganhou o Prêmio Nacional do Livro nos Estados Unidos em 2001, ele chegou a sofrer de depressões debilitantes, até mesmo suicidas. E Solomon é gay, o que fez com que seus pais ficassem tão incomodados que, quando adolescente, ele teve consultas com um terapeuta sexual na esperança de "curar" a si mesmo.

Solomon, de 49 anos, também é diferente – diferente da maioria dos escritores, de todo modo – por ser rico e independente e morar em uma residência esplendorosa, com ares de barão, em Nova York, em uma casa que pertenceu a Emma Lazarus – que, embora tenha escrito sobre as pobres e amontoadas massas de sua época, não era, ela própria, parte delas. A festa de lançamento de "Far From the Tree" foi realizada não em um apertado apartamento de um editor em Nova York, mas no Templo de Dendur, no Museu Metropolitano de Arte, do qual Solomon foi recentemente nomeado curador.

William Davis, que tem um filho autista e faz parte das centenas de pais e filhos que Solomon entrevistou para o livro, lembrou recentemente que ficou um pouco surpreso quando Solomon chegou à sua casa na Pensilvânia em um carro dirigido por um motorista. — Mas o Andrew sabe extrair os verdadeiros sentimentos das pessoas — disse ele. — As pessoas simplesmente confiam nele. Elas entregam imediatamente o coração para ele.

— Ele vive em um mundo diferente do meu, mas isso não é um problema, porque ele não tenta esconder isso. Ele não tenta ser o que não é. Mas dá para perceber que ele se importa. Dá vontade de abraçá-lo — acrescentou Davis.

Sentado na cozinha de sua casa, levantando ocasionalmente a voz sobre o chilro estridente de um canário chamado Barack – que chegou pela janela um dia, reconheceu o ambiente como agradável e nunca mais foi embora – Solomon explicou que "Far From the Tree" levou 11 anos para ser escrito. O trabalho se originou em um artigo sobre a surdez que ele escreveu para a The New York Times Magazine em 1994. Ao preparar a matéria, contou ele, percebeu que muitas das questões que os surdos confrontam não são diferentes das que ele enfrentou por ser gay. Alguns anos mais tarde, assistindo a um documentário sobre nanismo, identificou o mesmo padrão novamente.

Por fim, o livro passou a incluir também capítulos sobre síndrome de Down, autismo, esquizofrenia, deficiência, prodígios, identidade transgênero, filhos que são concebidos durante um estupro, filhos que se tornam criminosos. O arquivo de entrevistas transcritas de Solomon aumentou para 40 mil páginas, e a versão original do livro que ele entregou para a sua editora, a Scribner, tinha o dobro do tamanho que tem agora.

Solomon, então, contratou os serviços de Alice Truax, uma editora freelance, e junto com Nan Graham, editor-chefe e vice-presidente da Scribner, eles reduziram o trabalho para 700 páginas, sem contar as notas. Por e-mail, Truax disse que em poucos casos cortou famílias inteiras, mas que preferiu resumir as suas histórias.

— Andrew e eu estávamos muito conscientes do custo do envolvimento no projeto para as famílias que participaram — explicou ela. — Muitas delas tinham não apenas cedido uma enorme quantidade de tempo para o livro, mas também haviam investido emocionalmente nele, e nós dois concordamos que tínhamos que nos esforçar ao máximo para fazer jus a isso.

Solomon disse que incluiu crianças envolvidas com a criminalidade depois de perceber que o pensamento da sociedade sobre o tema não tinha de fato avançado muito, mesmo que a situação seja diferente no caso do autismo e da esquizofrenia.

— Ainda achamos que a culpa é dos pais quando a criança se torna criminosa ou algo assustador surge no ambiente doméstico — disse ele.

Ele incluiu os filhos concebidos durante estupros porque descobriu que as mães de tais crianças compartilhavam muitos sentimentos com todas as outras mães do livro. — Elas se sentem alienadas, descontentes, com raiva. Experimentam vários dos sentimentos que uma mãe tem com relação a uma criança com deficiência.

Esse tipo de recorrência, continuou ele, foi algo que ele só descobriu ao escrever.

— Cada um dos problemas que eu descrevo é muito solitário — disse ele. — Não existem muitos anões, não existem muitos esquizofrênicos. Não existem muitas famílias lidando com um filho envolvido na criminalidade – não existem poucas, mas não existem muitas. Mas se reconhecermos que existem muitos pontos comuns entre todas essas experiências, isso implica um mundo em que os problemas enfrentados pelas famílias não devem isolá-las, mas uni-las por meio das suas diferenças.

Outra grande descoberta de Solomon, acrescentou ele, foi a alegria. Ele estava preparado para encontrar tristeza nas famílias que visitou; o que o surpreendeu foi o amor com o qual se defrontou.

"O mistério deste livro", escreve ele, "é que a maioria das famílias descritas aqui acabaram ficando gratas por experiências que teriam feito de tudo para evitar."

Ao escrever sobre "Far From the Tree" para o The New York Times, Dwight Garner disse: — Trata-se de um livro que acerta nosso coração em cheio em vários momentos.

Mas o livro é também assustador e perturbador. Seus capítulos são um catálogo vivo de todas as coisas que podem dar errado ao se dar à luz uma criança e, em seguida, criá-la, levantando também questões éticas difíceis, como, por exemplo, se é bom colocar implantes cocleares nas crianças surdas ou sujeitar anões a dolorosas cirurgias de alongamento de membros, por exemplo.

Porém, Solomon disse que trabalhar no livro acabou estimulando ele e marido, John Habich, a ter um filho, algo de que eles não tinham certeza antes. O filho deles, George, nascido de uma mãe de aluguel, hoje está com três anos e meio.

— Um homem prevenido vale por dois — disse ele. — Algumas coisas, em determinada escala, são dificuldades que todos enfrentam. Eu acho que tenho tendências perfeccionistas, mas sei que não é possível ser pai pensando que amar um filho depende de ele ser perfeito. Pelo contrário, temos que pensar que vamos amar nosso filho independente de quem ele for e de como se desenvolver.

Solomon – o tipo de pai que é capaz de fazer leituras dramáticas de livros de histórias – acrescentou que ser pai também fez com que ele perdoasse mais seus próprios pais.

— Se nos confrontamos com uma criança que é diferente, temos que passar por um longo processo de aprendizado para aceitar e talvez celebrar as diferenças desse filho — disse ele. — Aprender a aceitar é difícil. Parte do que eu aprendi com esse livro é que mesmo os pais que se viram muito bem com essas questões encontram dificuldades. Foi difícil para os meus pais, o que tornou as coisas mais difíceis para mim, mas eu não vejo isso como uma falha inaceitável e aterradora. Eu acho que é simplesmente o modo como as coisas são.

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