Mariza Carpes nunca perdeu a imagem de infância da mãe pedalando a máquina de costura. Revirando os guardados dela, encontrou uma caixa com meias de náilon nunca usadas.
Carregadas de memórias, elas se juntaram a outros tecidos que a artista reúne há anos para compor uma série de obras a partir de sobreposições, desenhos, pinturas, costuras e colagens
O resultado de parte desse processo são os 13 trabalhos em exposição desde quinta-feira na Galeria Iberê Camargo da Usina do Gasômetro. Nem a Terra, Nem o Céu, Justamente o Meio é a primeira mostra individual que Mariza realiza na Capital em 27 anos. Nessa jornada, ela seguiu produzindo, tendo participado de mostras coletivas. Foi também um intervalo em que viveu nos EUA, onde se dedicou a um mestrado na Ball State University, em Indiana.
Como professora na UFRGS e na UFSM, Mariza, 64 anos, tornou-se uma referência do desenho. Em função dessa predileção, compreende-se a presença constante da linha nas obras em exposição – ora apontadas como híbridos de desenho e pintura, ora como arte têxtil.
– Amo o desenho, e ele aparece até nas sobreposições de manchas. Considero o desenho tudo. Gosto do risco, da mancha, do grafite. Sempre faço rascunhos. E, onde estou, costumo riscar. Em Santa Maria, tive mestres bárbaros, como Cláudio Carriconde (1934 – 1981). E isso não sai de mim – conta.
Reunindo obras realizadas desde 2009, com o uso de materiais como cimento, tinta, carvão, papel, ferro, vidro, grafite, pó de mármore e cera para encáustica, Nem a Terra, Nem o Céu, Justamente o Meio demonstra a pesquisa de materiais e procedimentos manuais realizada por Mariza. Nos últimos anos, a artista se recolheu ao seu estúdio na Capital, permitindo-se dedicar exclusivamente a este processo. Tendo a memória familiar sempre como um pilar:
– Meus pais estão na casa dos 90 anos. Tenho ido muito a Santa Maria para visitá-los. Assim, comecei a recolher coisas da minha mãe. Ela foi costureira e guardou muita coisa. Encontrei véus, meias... São materiais carregados de memórias.
A pesquisa "lenta e silenciosa", como diz a artista, também a levou a explorar movimentos de dança, que inspiram as constantes aparições figurativas de mãos, pernas e rostos nos 13 trabalhos:
– Ao pesquisar materiais, fiz um projeto para usá-los sempre lembrando algo de movimento, das pernas...
A aproximação com a dança também a levou a criar um vídeo que integra a exposição. Mariza convidou a atriz Sandra Dani para conhecer os trabalhos em produção no estúdio e criar uma performance. A direção é de Niura Borges.
– Perguntei se a Sandra topava colocar os trabalhos no corpo dela. E ela topou. Fizemos um vídeo não por moda, mas como um trabalho em parceria na nossa maturidade artística – conta Mariza.













