Se uma simples mudança de perspectiva pode alterar uma visão de mundo, um gesto inesperado e fora do previsível pode reconstruir o mundo inteiro. É esse o fio condutor
de 1Q84 (Tradução de Lica Hashimoto. Alfaguara, 430 páginas, R$ 49,90), o monumental romance do astro pop das letras japonesas Haruki Murakami.
Em seu conjunto, 1Q84 é uma delirante aventura literária com mais de mil páginas. O primeiro volume está saindo agora no Brasil pela editora do autor no país, o selo Alfaguara, da Objetiva. A narrativa, ambientada no ano de 1984, alterna os pontos de vista de Aomame, uma jovem instrutora de educação física, e Tengo, um tranquilo
professor de matemática com aspirações a escritor. Ambos são ligados por um episódio tênue do passado, embora não se vejam há duas décadas – e ambos têm segredos inconfessáveis com os quais lidar.
Tengo aceitou reescrever uma história de fantasia criada por uma adolescente de 16 anos para inscrevê-la em um prêmio literário. Aomame é uma assassina justiceira, especializada em eliminar homens extremamente violentos com mulheres. Certa manhã, a caminho de uma dessas execuções, Aomame se vê presa no tráfego de uma via expressa e resolve atalhar caminho pela escada de manutenção da rodovia. Com esse gesto imprevisto,ela inadvertidamente entra em uma realidade paralela, no início sutilmente diversa, até ela perceber que, nesse “mundo bizarro”, há duas luas flutuando no céu – daí o nome que ela própria escolhe para essa outra realidade, o ano de 1984 acrescido de um“Q”de “question mark”,ou “ponto de interrogação”.
Murakami, também autor de Kafka à Beira-Mar e Após o Anoitecer, leva ao paroxismo, em proposta e, em extensão, algumas de suas características mais marcantes: um casamento simbiótico entre o Japão contemporâneo e a cultura de massas ocidental, uma estranheza que parece vir de toda parte e elementos de horror e ficção científica
que gradativamente vão se expandindo até tomar conta – e ressignificar – a narrativa.








