Quem observa as intrincadas malhas ortogonais das telas de Gisela Waetge tem motivo para imaginar que ela seja obcecada por matemática. Ela garante que não.
Embora admita que o interesse é antigo, o estímulo veio de um livro para leigos que leu no final do ano passado: Alex no País dos Números, do jornalista Alex Bellos.
Até então, a artista já criava sobre a "base 9", ou seja, um conjunto de quadrados cujos pontos são separados por 9 centímetros. A leitura a estimulou a explorar também a base 12. E resolveu sobrepor as duas.
Se você ficou ainda mais confuso com a explicação, não se preocupe. As telas de Gisela Waetge não exigem de seus observadores a mesma familiaridade que a artista tem com Pitágoras e Tales de Mileto.
– Meu trabalho sempre foi muito abstrato – reflete Gisela, enquanto percorre o Museu do Trabalho, em Porto Alegre, onde está em cartaz a exposição individual Base 12 - Base 9, com curadoria de Eduardo Veras.
Há maneiras contrastantes de tratar a abstração. Alguns artistas buscam as formas por si mesmas. Outros guardam o desejo de que elas transcendam. Gisela diz que se enquadra no segundo grupo. Mas o que ela busca em seus trabalhos abstratos? Depois de uma longa pausa, responde:
– Talvez um prazer. Não é só uma brincadeira, não é só um jogo. Queria que as pessoas pudessem sentir alguma coisa boa.
Em uma sala à parte, estão trabalhos de menor porte da série 105 Dias – Desenhos para os Meus Amigos, Desenhos para Melhor Passar o Tempo. Os 105 dias se referem ao intervalo entre o início e o fim da quimioterapia à qual foi submetida em função de um tumor no ovário. Também observando a exposição, o curador Eduardo Veras pontua que os trabalhos de Gisela por vezes dão uma noção de profundidade, como se estivessem em movimento. Ela concorda:
– Gosto dessa ideia de pulsação.
Assim como o coração, a matemática vibra.









