O primeiro passo foi dado no ano passado: criar em uma cidade sem tradição de shows um festival de jazz com atrações de peso. No ano seguinte, o desafio seria repetir o feito colocando o evento de vez no calendário musical do Estado.
Missão cumprida. Em versão mais enxuta, o Canoas Jazz apresenta neste domingo sua segunda edição, levando um dos grandes nomes do gênero ao palco do Parque Getúlio Vargas (Rua Dona Rafaela, s/nº, em Canoas). A entrada é franca.
O quinteto do contrabaixista Dave Holland é a grande atração do evento promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de Canoas, que será realizado desta vez em um único dia e local. Na edição passada, o Canoas Jazz contou com duas noites de apresentações, pocket shows nas estações do Trensurb, atividades educativas e a criação de um espaço de audição na Biblioteca Pública Municipal, que contribuiu para a formação de ouvintes. De acordo com o secretário de Cultura, Flávio Adonis, o enxugamento deve-se a dificuldades para obter financiamento e ao ano eleitoral, que teria encurtado o período de produção do evento.
Mesmo em versão concentrada, o festival promete uma noite memorável: às 19h, o cantor gaúcho Juliano Barreto dá a largada, seguido pela voz da conterrânea Ana Lonardi, o grupo Delicatessen, até o encerramento com Holland.
– Tive grandes experiências em turnês no Brasil – comentou o músico, por e-mail, de NovaYork.
Tendo iniciado sua carreira no final da década de 1960, na banda de Miles Davis, Holland, 66 anos, participou das gravações de álbuns históricos, como In a Silent Way e Bitches Brew, que se tornaram referência das hibridizações entre jazz, rock, rhythm and blues e soul, criando aquilo que ficaria conhecido como fusion. Nos anos seguintes, Holland gravou inúmeros discos como sideman em outros grandes grupos de músicos.Mas foi como líder de sua própria banda que pôde mostrar a qualidade como compositor e ganhar um lugar na história do jazz. O músico Sérgio Karam, autor de Guia do Jazz e curador do festival, destaca a evolução do baixista com a retomada do jazz acústico, na década de 1980:
– Ele criou um mundo sonoro próprio. Suas composições são complexas,mas muito acessíveis. Holland mantém vários grupos.Além do quinteto que virá a Canoas, criou um octeto, para ampliar suas opções de orquestração,e uma big band.
– Muito pouca gente tem um trabalho tão interessante e importante como ele. É um cara de exceção – diz o curador.
Entrevista com Dave Holland, contrabaixista
Zero Hora – Você cita o trompetista Clark Terry para dizer que a música é questão de imitação, assimilação e inovação.Quais os artistas você imitava quando começou a tocar contrabaixo?
Dave Holland – Minhas primeiras influências foram Ray Brown, Leroy Vinnegar e Charles Mingus. Depois, Scott LaFaro.
ZH – Quando percebeu que já estava inovando?
Holland – Comecei a sentir que estava desenvolvendo minha própria musicalidade e definindo alguns aspectos sobre como eu queria evoluir na música por volta dos 20 anos (Holland tinha 22 anos quando gravou In a Silent Way, sua primeira colaboração com Miles Davis). Mas prefiro focar no aprendizado do dia a dia a me preocupar sobre se estou inovando ou não.
ZH – Quais são suas expectativas para o show em Canoas?
Holland – Tive grandes experiências em turnês no Brasil e fiquei lisonjeado em ser convidado a tocar em Canoas pela primeira vez. Amo tocar com esses músicos do quinteto, então tenho certeza de que nos divertiremos muito.













