Quinze anos após a conclusão da reforma que remodelou seu perfil e atraiu novos frequentadores, o Mercado Público de Porto Alegre tem sua história recuperada em um livro que reúne uma documentação antes dispersa em diferentes fontes.
Tendo resistido a incêndios, a uma enchente e a diversas tentativas de demolição, o prédio localizado no Centro da Capital tem uma trajetória de 143 anos.
Inaugurado em 1869 e aberto ao público no dia 1º de janeiro do ano seguinte, o mercado foi o grande centro de abastecimento até a década de 1950, quando o comércio nos bairros começou a se fortalecer. Não foram poucas as vezes em que sua função foi questionada: em tempos de supermercados, quem precisaria do Mercado Público? Bem, muita gente. Além de fornecer mercadorias especializadas, de erva-mate a produtos de confeitaria, o mercado acumulou um significado histórico, cultural e turístico.
O itinerário é narrado no livro Mercado Público – Palácio do Povo (Libretos), com textos de Rafael Guimaraens, fotos de Marco Nedeff, ilustrações de Edgar Vasques e memória fotográfica de Ricardo Stricher. O lançamento será nesta terça-feira (6/11), às 20h, na Feira do Livro, antecedido de um painel, às 18h.
Veja imagens do Mercado Público ao longo de sua trajetória
– Os mercados, em geral, surgiram como espaço de troca mercantil, de abastecimento. Com o tempo, adquiriram também o perfil de troca de experiências e negócios – diz Guimaraens. – A sociedade gaúcha sempre foi muito fechada e talvez ali isso se diluísse em uma ampla convivência.
Na Porto Alegre do século 19, tratava-se, sobretudo, de uma maneira de higienizar as práticas do comércio. Em 1844, chegou a ser proibida a venda de carnes fora dos açougues do mercado que antecedeu o atual, demolido em outubro de 1870, meses após a inauguração do novo, de maiores proporções.
– O grande inimigo do comércio de varejo era a deterioração das mercadorias. Estamos falando do tempo antes da refrigeração – afirma o historiador Sérgio da Costa Franco.
Da cidade de cerca de 40 mil moradores do final do século 19 à população atual de 1,4 milhão, foram incontáveis as mudanças. Mas permanece uma referência para a cidade, como testemunha o historiador:
– Continuo indo ao mercado para comprar determinados produtos. Charque bom, sempre compro lá.
Na década de 1910, houve um incêndio, mas o mercado não só foi reconstruído como ganhou um segundo pavimento, adquirindo o aspecto com o qual é hoje conhecido. Com a descentralização do comércio para os bairros e o deslocamento das paradas de ônibus para outras regiões do centro, o Mercado Público deixou de ser passagem obrigatória. Após um projeto de restauração concluído em 1997, passou a acolher frequentadores de maior poder aquisitivo que antes evitavam o local pelo cheiro de peixe, pelos corredores estreitos e pela sensação de insegurança. A diferença chamou a atenção dos comerciantes, como Cesão Miranda, que publicou, este ano, o livro Mercado Público Central de Porto Alegre 1869 – 2012 (Edições Caravela):
– Houve uma renovação com a chegada da clientela de classe média. Um dos melhores dias do comércio é sábado: as pessoas chegam de carro para fazer compras e ficam para o almoço.
Incêndio gerado por um gato
> Não foram poucos os obstáculos que o prédio do mercado teve de enfrentar. Em 1912, um grande incêndio prejudicou a reforma que acabaria por acrescentar o segundo andar. Segundo relato de um vigia noturno no inquérito administrativo, o motivo foi um gato que teria pulado da banca 18 para a banca 19, derrubando uma garrafa de querosene – acredite-se ou não. Na década de 1970, também são registrados incêndios no prédio que já havia sido castigado, em 1941, com a enchente que acometeu a cidade.
Várias tentativas de demolição
> O tombamento pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre, em dezembro de 1979, salvou o mercado definitivamente das tentativas de demolição que começaram em 1945. Nas décadas seguintes, outras ameaças, desta vez tendo como argumento o novo Plano Diretor. Sem o mercado, os motoristas de carro economizariam nove segundos ao passar pela região, argumentava a prefeitura. Figuras como o poeta Mario Quintana e o artista Vasco Prado se manifestaram publicamente contra a demolição.Vinte anos após o tombamento, o mercado foi restaurado e ganhou um teto para protegê-lo.
Uma tradição afro-brasileira
> A cultura e as religiões afro-brasileiras são parte fundamental da história do Mercado Público. No livro de sua autoria, o jornalista Rafael Guimaraens conta que os escravos libertos em Porto Alegre, no final do século 19, encontraram no local um espaço para vender produtos e para se candidatar a empregos informais. É nesse contexto que aparecem as chamadas pretas minas, que montavam seus tabuleiros na praça central do mercado, onde o comércio não era regulamentado. Pertencentes à categoria das "escravas de ganho", elas tinham de repassar para seus senhores uma porcentagem dos rendimentos.
– Até hoje, há uma programação religiosa sistemática no Mercado – observa Guimaraens.
Além disso, na reforma da década de 1990, decidiu-se retirar a banca central, deixando o cruzamento dos dois corredores perpendiculares livre para o culto ao orixá Bará, que estaria assentado no local.













