A volta de um clássico06/11/2012 | 16h41

Cabra Marcado para Morrer retorna em cópia restaurada

Obra-prima do documentário brasileiro está em exibição no Cineaspaço Wallig, em Porto Alegre

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Cabra Marcado para Morrer retorna em cópia restaurada Ver Descrição/Agencia RBS
Dona Elizabeth Teixeira (ao centro) no longa de Eduardo Coutinho Foto: Ver Descrição / Agencia RBS

O que faz de um clássico um clássico? Essa pergunta bem vale ser feita quando se fala de Cabra Marcado para Morrer, de volta aos cinemas em cópia restaurada (em Porto Alegre, passa em sessões diárias às 21h30min no Cinespaço Wallig 7). Afinal, o filme de Eduardo Coutinho é um desses (raros) casos consensuais do cinema brasileiro. Um daqueles sobre os quais mesmo quem não liga para temáticas sociais pelo menos mostra algum tipo de respeito.

Esse consenso, mesmo que a contragosto, já nos ajuda a buscar uma primeira resposta à questão. Um dos motivos pelos quais Cabra é um clássico é sua posição dentro da história recente do país. Filme sobre as Ligas Camponesas, interrompido pela ditadura, retomado no alvorecer da redemocratização, seu próprio modo de feitura o coloca em posição de alto simbolismo de todo um processo de 20 anos de lutas. Essa condição é transparente, mesmo para quem não viveu o período, mesmo para quem alimenta a ilusão de que política é coisa dos outros. Cabra permanece um universo à parte.

Mas aí está: há, de maneira especial, o dispositivo que Coutinho inventou para dar continuidade a um projeto interrompido, e então entramos no terreno propriamente cinematográfico. Não seria mais possível retomar o projeto inicial nas mesmas bases em que começou, ou seja, filmagens que reconstituíssem o assassinato de João Pedro Teixeira, com os próprios camponeses como atores. Era preciso encontrar uma forma a partir da qual a obra expressasse exatamente a fratura, a interrupção que foi a ditadura militar. O eixo passa então a ser a busca por Dona Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, e seus 10 filhos, dispersados pelo golpe militar. Elizabeth fugira e se escondera até ser encontrada por Coutinho por meio de um filho dela. Essa mulher sem rosto e sem nome volta a ser uma cidadã através do filme.

Cabra Marcado Para Morrer é, então, a tentativa de reparação, através de uma obra de cinema, dessa fratura da história. Incompleta, é claro, porque nunca se recupera o que se perdeu nesse tipo de circunstância. Mas é ato de cidadania salvar o que se pode. E, nesse sentido, Cabra representa a tentativa mais bem-sucedida de dar um sentido às sobras de guerra desse período. É, enfim, um filme profundamente político, no que esse termo tem de mais nobre e complexo. Quer dizer, não política partidária, ou proselitismo, mas reflexão sobre a voragem da história em tempos difíceis e seus efeitos sobre destinos individuais. Dona Elizabeth Teixeira, a partir do filme, não apenas readquire rosto e identidade, mas torna-se um símbolo da resistência. Deve isso a Coutinho. Por isso, também, e por fazer a articulação tão perfeita entre indivíduo e sua circunstância, Cabra é um clássico do cinema brasileiro.

Por fim, se os personagens de Cabra Marcado para Morrer ganham com o filme, Coutinho se constrói por intermédio da obra. É em Cabra que ele lapida o dispositivo cinematográfico pessoal, a ser ainda aperfeiçoado em obras futuras. A técnica de entrevista, a consciência da interferência da câmera naquilo que filma, a exposição dos mecanismos da própria obra – tudo isso talvez não seja nem novidade e nem uso exclusivo de Coutinho. Mas a maneira como ele se apropria desse modo de fazer é muito particular. Forja, através de Cabra, uma ferramenta adequada para sua mão. Sob medida. Desse cinzel particular e inimitável sairão obras futuras como Santo Forte (1998), Edifício Master (2002), Jogo de Cena (2007). A origem de tudo é Cabra Marcado para Morrer.

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