Tributo ao 'Rei do Baião'22/11/2012 | 16h31

Alceu Valença homenageia Luiz Gonzaga em show nesta sexta na Capital

Cantor também se apresenta no domingo em Pelotas

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Alceu Valença homenageia Luiz Gonzaga em show nesta sexta na Capital Tadeu Vilani/Agencia RBS
O cantor Alceu Valença Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Entrevistar Alceu Valença é uma diversão: o músico não larga o violão enquanto conversa, entremeando lembranças, críticas e imitações de Luiz Gonzaga com trechos de músicas – impossível não se deixar levar pelo papo do pernambucano alto-astral.
Há anos sem se apresentar no Estado, um dos maiores nomes da música brasileira vem quebrar esse jejum com dois shows: sexta-feira, em Porto Alegre, no Teatro do Bourbon Country, e domingo, em Pelotas, no Theatro Guarany.

Depois de percorrer o país com o espetáculo que homenageia Luiz Gonzaga, Alceu Valença chega ao Sul às vésperas do centenário do Rei do Baião – nascido em 13 de dezembro de 1912, na cidade pernambucana de Exu. O cantor, compositor e violonista lembra clássicos de Gonzagão que representam o Brasil nordestino, como Baião, Sabiá, Vem Morena, Asa Branca, Xote das Meninas e Numa Sala de Reboco. Do repertório de Alceu, estarão presentes sucessos como Coração Bobo, Cavalo de Pau, Táxi Lunar, Como Dois Animais, Anunciação e Tropicana – além de temas que reforçam sua condição de renovador do forró e do baião, tipo Emboladado Tempo e Turnê Nordestina.

– Faz muito tempo que não venho para cá. Fiz shows antológicos no Gigantinho, nos anos 1980 e 1990, com um público sensacional. Mas depois minha carreira começou a se direcionar mais para a Europa. E depois briguei com todas as gravadoras! Resolvi fazer um trabalho absolutamente independente. Fiquei muito concentrado no Nordeste e no Centro-Oeste. Mas agora meu prumo está voltado também para o Sul – explica o músico.

O êxito só chegou para Alceu depois de mais de 10 anos de carreira, sete discos lançados e uma temporada morando na França. O músico tornou-se um nome popular a partir do disco Coração Bobo (1980), quando passou a tocar nas rádios de todo o país. Mas a indústria fonográfica não conseguiu dominar o irrequieto artista de 66 anos, distante das grandes gravadoras desde o começo da década de 2000.

– Não gosto de ser mandado: faço a música que quero na hora que quero. Queriam que eu gravasse brega. Não vou gravar brega! Arte não é entretenimento, é para bater no fundo do coração das pessoas. Como tenho um coração bobo, bola, balão, São João, sou dessa maneira,espontâneo – brinca.

Acompanhando o músico que uniu a tradição dos maracatus, cocos e repentes com a moderna MPB e o rock eletrificado, estará uma banda formada por Paulo Rafael (guitarra), Tovinho (teclados), Nando Barreto (baixo), Cássio Cunha (bateria), Edwin (percussão) e Lucyane Alves (sanfona e voz). Integrante do grupo paraibano Clã Brasil, a acordeonista e cantora também participa do clipe de Numa Sala de Reboco, que tem cenas gravadas na casa de Alceu em Olinda – um ponto turístico da cidade:

– Chega a parar ônibus lá na frente de casa, com guia apontando a casa. Quando estou de bom humor, apareço lá fora vestido como um nobre ou só de cueca. Mas os guias têm que renovar o discurso deles sobre mim,as informações estão velhas.


Para não deixar o forrozinho morrer

Foi no finalzinho dos anos 1960, durante um curso de verão de Sociologia em Harvard, nos Estados Unidos, que o então jovem Alceu Valença teve a revelação do que deveria ser sua música:

– Entre uma conferência e outra, cantando para os hippies, comecei a tocar Luiz Gonzaga. Os gringos ficaram loucos com essa música! Pensei: “Vixe, lá no Brasil, ninguém gosta disso”, porque Gonzaga estava em baixa. Eu, como sou da mesma região dele, ouvia as canções que influenciaram o Gonzagão. Vi que eu
tinha que tocar as músicas da minha terra.

Brincalhão, entorta a boca e engrossa a voz para imitar o ídolo, improvisando diálogos com Luiz Gonzaga – que chegou a gravar Plano Piloto, parceria de Alceu com Carlos Fernando, escrita em homenagem a Brasília. Ao assistir a um show de Alceu, no início de sua carreira, o sanfoneiro avaliou o novato: “Sua música soa como uma banda de pífano elétrica”. No último encontro,o mestre pediu ao discípulo que cuidasse de seu legado: “Não deixe meu forrozinho morrer”. Respeitosamente moleque, enquanto toca para a reportagem de Zero Hora a venerável Respeita Januário, Alceu Valença rebate encarnando o saudoso Lua:

– Você está cantando muito bem as minhas músicas. Daqui em cima eu estou vendo.Vai que o negócio está bom para você.

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