Licença para matar29/10/2012 | 18h29

James Bond renova o fôlego em 'Operação Skyfall'

Aventura que celebra os 50 anos do agente secreto no cinema surpreende ao colocar 007 diante de situações que revelam seu lado mais sensível

Enviar para um amigo
James Bond renova o fôlego em 'Operação Skyfall' sony/Divulgação
Daniel Craig vive James Bond pela terceira vez Foto: sony / Divulgação

É só lá pela metade de 007 — Operação Skyfall que Raul Silva entra em cena para colocar James Bond na maior saia justa dos seus 50 anos de aventuras no cinema. O vilão da vez é um figuraça que desde já ocupa lugar de destaque na galeria dos gênios maquiavélicos e divertidos que cruzaram o caminho do agente secreto de Sua Majestade. Figura andrógina de cabeleira platinada e fala pastosa, o afetado Silva, em composição muito inspirada de Javier Bardem, acaricia as coxas de Bond imaginando que seu prisioneiro terá uma reação bem diferente daquela que acaba revelando ao público uma nova faceta do herói. Algo do tipo "Quem nunca?", responde ele ao ronronante inimigo.

Bond, definitivamente, não é mais o mesmo. E dismitificar alguns dos cânones que marcam a trajetória do veterano 007 é um dos trunfos de Operação Skyfall, que aprofunda o processo de transformação do personagem iniciada com Cassino Royale e sua continuação, Quantum of Solace, todos na era Daniel Craig como o classudo espião.

Uma nova aventura de James Bond, assim como um faroeste ou um filme de II Guerra, é o tipo de programa que tem sua fruição muito ligada à combinação de prazer cinéfilo com memória afetiva. São gêneros, para quem os aprecia, que só rendem obras irrelevantes quando seus realizadores fazem desandar dois ingredientes básicos da fórmula que, só aparentemente, parecem contraditórios: inventividade e reverência.

Se o Velho Oeste e a II Guerra têm como limitadores icônicos o tempo e o espaço que os circunscrevem, James Bond conseguiu avançar para além do cenário bidimensional da Guerra Fria. No correr das últimas décadas, 007 por vezes ficou tateando seu lugar entre as zonas mais conturbadas do mundo da espionagem. Era quase um tipo anacrônico quando os donos da franquia perceberam que outros dois JB – Jack Bauer e Jason Bourne – é quem estavam em melhor sintonia com a nova ordem das intrigas, ameaças e conspirações internacionais, na qual mocinhos e bandidos por vezes trocam de papeis trilhando por uma zona de moral nebulosa.   

Operação Skyfall, como seus dois antecessores, tenta equilibrar a esperada reinvenção de 007 com a devida reverência — quesitos icônicos no quais Bond segue empunhando a pistola Walther PPK, tomando martini batido, vestindo ternos alinhados e pilotando (outra vez) o Aston Martin.

Com o rosto de Craig, Bond passou a correr e a suar muito mais, se aproximando de um tipo mais real, dentro, lógico, do realismo que a suspensão da descrença exige nesse modelo de aventura. 007 pode apanhar, levar tiros, sangrar, suar, sofrer por amor, perder (um pouco) da fleuma, sobreviver sem as engenhocas tecnológicas e não mais passar em revista um time de esculturais bond girls. Mas tirar-lhe a verve ácida com que reage à provocação homoerótica lançada pelo vilão, seria golpe baixo.

Este 23º título da franquia, muito aguardado por ser o que comemora os 50 anos de 007 no cinema, não é dos mais empolgantes em termos da ação caracaterística. A ação, afora as correrias frenéticas pelo mundo, se dá agora, sobretudo, nos conflitos existenciais que movem 007. Sublinhar a, digamos, maior densidade dramática do personagem resulta da mão de Sam Mendes, ganhador do Oscar de direção por Beleza Americana e autor de obras vigorosas como Foi Apenas um Sonho. Mas não se deixe enganar pela sugestão de um Bond mais sensível e humanizado. Na hora em que o bicho pega, ele invoca seus poderes e habilidades do super-herói que nunca deixará de ser.

Mendes, entretanto, não ousou mexer tanto na estrutura narrativa que pauta a franquia. As piscadas para os velhos fãs de Bond, como as citadas acima, incluem ainda uma fuga sobre lagartos (como Roger Moore fez sobre os jacarés em Viva e Deixe Morrer). Também o prólogo de Operação Skyfall segue o manual da série, mostrando em altíssima voltagem Bond perseguindo um inimigo pelas ruas de Istambul, na Turquia. O malfadado desfecho dessa missão, numa sequência eletrizante sobre um trem em movimento, faz Bond sumir do mapa.

Após ser dado como morto, 007 sai da toca e do fundo do copo quando o ciberterrorista Raul Silva ataca a sede do MI6, o serviço secreto britânico, em Londres. Ex-agente do MI6, Silva quer se vingar de M (Judi Dench), a chefe do órgão, a quem acusa de traição. Os vilões de 007 não querem mais subjugar o mundo como se fossem ameaças extraterrestres. Eles querem é bagunçar o coreto, mostrar poder, ganhar dinheiro, acertar contas com seus desafetos. O renegado Raul Silva, ao mesmo tempo que lembra os caricatos gênios do mal do passado (tão bem satirizados no Dr. Evil da cinessérie cômica Austin Powers), representa o criminoso contemporâneo sem bandeira capaz de abalar sistemas e economias com cliques no computador.

Bond entra nessa luta alquebrado. Tanto ele quanto M são vistos pelos superiores como tipos ultrapassados, símbolos de uma era romântica da vigilância e combate às ameaças à Grã-Bretanha e seus aliados. Precisam mostrar que ainda estão no jogo. O confronto com Silva, nas mãos de Mendes, ganha mais sentido de redenção do que de ação. A sacudida no personagem exigiu alguns sacrifícios na mitologia da série, além do ritmo. A apática Bérénice Marlohe como bond girl, por exemplo, não dá nem para saída se comparada à Eva Green de Cassino Royale). O saldo, se não é memorável, rende uma ótima e lucrativa diversão, suficiente para manter a franquia nos trilhos por pelo menos mais dois longas, já garantidos com Craig. 

É difícil fazer um filme ruim com James Bond. Operação Skyfall quase é ótimo em alguns momentos.

 

Notícias Relacionadas

Bond, James Bond 25/10/2012 | 04h01

Em entrevista, Daniel Craig fala sobre '007 – Operação Skyfall'

No longa, que tem pré-estreia nesta quinta, na Capital, Craig vive James Bond pela terceira vez

Cinquentão 26/09/2012 | 05h02

James Bond chega aos 50 anos

Prestes a completar meio século, o charmoso agente secreto ganha filme e homenagens

Comentar esta matéria Comentários (0)

Esta matéria ainda não possui comentários

Siga Segundo Caderno no Twitter

clicRBS
Nova busca - outros